Wednesday, March 17, 2010

Descaramentos


Agora que já não tenho que me preocupar com nenhuma das competições mais importantes por onde andava o meu Fóculporto, vou dedicar-me à pesca do sável, da truta ou dos joaquinzinhos com arroz de tomate malandrinho.
Felizmente que para o ano há mais, pelo menos na nossa liga marcaremos presença, na outra, naquela que dá mais bagalhoça, na dos campeões, talvez daqui a um par de anos. Estas dietas também são boas para desenjoar…
Terminei esta época mais cedo e em beleza, honrado e até comovido com as dezenas de convites que, amigos e conhecidos, tiveram a gentileza de me enviar para um bailarico a ter lugar num clube manhoso, lá para a rua do arsenal numero 5, baile a que, infelizmente, não pude comparecer porque tendo tirado a minha vesícula no mês passado, foram-me desaconselhadas situações propiciadoras a abundante fabrico de bílis.
Resta-me pois recordar as proezas passadas, ir ao baú das velharias buscar umas quantas razões para ver se me sai o amargo da boca, felizmente, agora com a internet, estes passeios são bastante mais simples e mais frutuosos, alguma coisa acabamos sempre por encontrar.
Por acaso até foi fácil, só precisei de recuar até ao mês de Agosto do ano passado para encontrar uma coisinha com aquele sabor a vingança, uma prova – mais uma – de que o chefe do governo é um verdadeiro vendedor da banha da cobra, um animal feroz capaz de rivalizar com os roucos feirantes que, por cem escudos, vendem não um, não dois, não três, mas quatro cobertores espectaculares para tirar o frio à sogra e ainda juntam uma toalha de renda novinha em folha e um napperon em plástico, em forma de losango, a base ideal para aquele cesto que tem lá dentro a banana, o ananás e a maçã artificiais e que decora a mesa da minha cozinha.
O objecto do crime é o vídeo com o debate entre dois grandes cromos socialistas da nossa praça politica – o Zezito e o tele evangelista frei Anacleto Louçã – durante as ultimas eleições legislativas, no tempo em que o nosso défice ainda andava pelos cinco por cento.
No debate, que na altura eu não vi, foi descrito como tendo sido uma coça monumental – à arsenal! – dada pelo chefe do governo (representante do socialismo moderado) ao pregador bloquista (representante do socialismo mais radical). Coisa rara e nunca vista, um habilidoso orador como o Anacleto a levar uma tareia num debate televisivo, até a generalidade da imprensa assim o descreveu o que, conhecido o amor que os jornalistas nutrem pelo pregador, foi obra.
O socialista moderado, em campanha de caça ao voto, atirou-se às propostas do bloco de esquerda, acusando-os de “guardarem como um segredo muito bem guardado as propostas para a politica fiscal”, e pedindo ao pregador que lhe “explicasse porque é que queriam eliminar todas as deduções fiscais com a saúde e educação e com os ppr’s já que, “estas pessoas que fazem estas deduções não são ricos, é a classe média e isso conduziria a um aumento fiscal brutal da classe média”.
Terminada a campanha e já empossado como chefe do governo, o socialista moderado, ao apresentar o PEC – a nossa nova via sacra – jurou pelas alminhas que não havia nenhum aumento de impostos apesar de ter aplicado a tal politica fiscal que os outros andavam a guardar muito em segredo e acabando exactamente com as tais deduções que, se tivessem sido eliminadas pelos bloquistas (os socialistas radicais) conduziriam a um aumento fiscal brutal da classe média.
Que raio de nome se dá a tipos assim, hein?...

Factos



Foi publicada durante a semana passada uma sondagem que uma empresa do ramo realizou a pedido de um jornal. Não me recordo do número de compatriotas nossos que foram seleccionados como cobaias. Também não sei como é que é seleccionado esse conjunto de tugas a quem as perguntas são feitas mas, dada a ciência da coisa, é de bom-tom aceitarmos os resultados como mostrando a realidade tal qual ela é.
Uma das perguntas feitas aos inquiridas foi se achavam que o chefe do governo socialista tinha deliberadamente mentido à Assembleia da República quando afirmou, no inicio do último verão e a três meses de eleições legislativas e autárquicas, que não sabia a ponta dum dito sobre se a Portugal Telecom queria abocanhar uma percentagem do capital da chamada televisão independente, a TVI.
Sessenta por cento dos interrogados disse que sim senhor, que achava que o Zezito tinha mentido quando jurou que não sabia peva acerca do negócio e setenta por cento disse que achava que ele tinha aldrabado sem que para isso tivesse havido qualquer justificação, a modos que deu-lhe para ali porque sim.
Aqui chegados, dir-se-ia que as respostas dos portugueses sondados às outras perguntas do inquérito envolvendo o chefe do governo socialista mostrassem que o antigo animal feroz estaria com guia de marcha passada e com os patins calçados, pronto para uma descida até aos Infernos.
Mas não, não senhor, os portugueses sondados, apesar de acharem que o chefe do governo mentiu à assembleia da república, também acham que é ele que deve continuar a dar cabo do país ser o primeiro-ministro por muitos e bons anos.
Dizem-no quarenta por cento dos nossos conterrâneos, percentagem de portugueses que prometem tornar a votar neste partido socialista, enquanto quase cinquenta e cinco por cento afirma que o governo tem todas as condições para continuar a governar como até aqui.
Ao ler os resultados pus imediatamente a hipótese dos senhores da empresa de sondagens serem uns brincalhões, terem alterado as respostas para gozarem comigo e com todos os que não tiveram oportunidade de participar no inquérito mas, sete copos de água fria depois, achei que os tipos não se atreveriam a publicar falsificações.
Se realmente os resultados desta sondagem são representativos do nosso País, temos pois que para a esmagadora maioria dos portugueses tanto se lhes dá como se lhes deu que o chefe do governo tenha mentido aos senhores deputados, deputados que foram eleitos com os seus votos.
Bate certo com a situação a que chegámos: doze anos e meio (em quinze!) de governos socialistas, um país cada vez mais empobrecido, cada vez mais cheio de dívidas, cada vez mais afastado da média dos outros países europeus, com cada vez mais gente a sair para ver se consegue trabalho no estrangeiro, um estado sanguessuga que controla quase toda a economia e que esmaga com impostos tudo o que ainda mexe e ainda respira. Abençoados sejam.

Friday, March 05, 2010

Ops, enganei-me!




Eu não sei como é que vocês andam mas eu estou farto deste mau tempo até às orelhas, qualquer dia nascem-me umas barbatanas entre os dedos dos pés ou então, muito pior do que isso, vou começar a respirar por guelras o que vai complicar ainda mais a minha vida de fumador.
Não é que eu fume muito, por acaso até devo pertencer à classe dos fumadores mais moderados mas quem me tira aqueles três cigarritos logo a seguir à janta põe-me piurço, fico-lhe com um pó que nem sei, fico mais danado do que quando o meu Fóculporto perde as peneiras de arrecadar o penta.
Mas voltando ao mau tempo, à chuva e ao frio, a este maldito frio, no final do ano passado houve muita publicidade a uma cimeira sobre o clima que teve lugar na Dinamarca, cimeira essa que foi tema de abertura em muitos telejornais e que serviu para muita noticia sobre o tão famoso aquecimento global.
Segundo as noticias de então, aquela reunião, que contaria com a presença dos mais iluminados cientistas mundiais, era vista como uma das últimas oportunidades de que o estafermo do homem ia dispor para pôr de lado um conjunto de maus comportamentos que levariam o planeta terra a um espetanço monumental devido ao aumento astronómico da sua temperatura (fala-se muito em igualdades entre os sexos mas o certo é que as Marias ficaram de fora do rol dos causadores de prejuízos à mãe natureza e, como de costume, só nós homens é que pagamos as favas).
Embora não pareça e ninguém ainda tenha desconfiado, vejo-me forçado a confessar-vos que não sou perito neste assunto e os meus conhecimentos na matéria resumem-se aos humores do calo que vive no dedo pequeno do meu pé esquerdo; quando ele me dói é certo e sabido que pode chover ou fazer sol e quando não me dói é um claro sinal de que vai estar bom tempo ou mau tempo. Tirando este tecnologicamente avançado instrumento científico de análise climática, pouco mais sei do que a maior parte dos outros terráqueos.
Por causa da minha ignorância, tenho pois que me fiar nas palavras dos cientistas que, supostamente, se esfalfam a estudar essas matérias e sou gentilmente convidado (e levado) a acreditar nos organismos internacionais que tratam da coisa, organismos esses que são escolhidos pelos representantes dos governos mundiais.
E aí é que a porca começa a torcer o rabo porque, para mim, a versão oficial que andam, há anos, a tentar vender-me sobre a existência dum aquecimento global causado pelo homem sabe-me tão mal como me sabiam as colheres de óleo de fígado de bacalhau que me impingiam na escola primária.
Ainda por cima, um dos maiores vendedores da teoria, um poderoso organismo chamado IPCC e que ganhou o Nobel da Paz em 2007 em conjunto com o meu amigo Al, tem sido apanhado numa série de erros de palmatória. Num desses erros, a “certeza absoluta, absoluta, absoluta” de que os glaciares dos Himalaias iam desaparecer em 2035 foi rectificada e adiada para o ano 2350 e justificada como um simples lapso tipográfico.
Com “erros tipográficos” deste calibre não admira que eu ande a tiritar de frio: prometem-me calor e depois saem-me estas temperaturas da treta!

Friday, February 26, 2010

Quem sabe



Apesar de todo este mau tempo, da ventania e da chuva chata e persistente, da constante nebulosidade que tapa o azul do céu, é o sol que está a grelhar o nosso primeiro-ministro em lume brando, em episódios semanais.

A prolongada exposição do chefe do governo aos raios do sol dará razão às campanhas publicitárias que, todos os verões, nos alertam para os cuidados a ter com a gravidade das queimaduras que o estafermo pode provocar na nossa pele.

Como consequência, devagar devagarinho, há cada vez mais gente importante a dizer, claramente e na televisão, que o Zezito mentiu no e ao parlamento sobre a trapalhada do falhado negócio da compra da TVI pela PT.

É certo que todas essas pessoas são do PSD – Manuela Ferreira Leite, Marcelo Rebelo de Sousa e Paulo Rangel – o que poderá tirar independência à afirmação mas a verdade é que não há, até ao momento, conhecimento de nenhum processo crime por difamação interposto pelo chefe do governo. Mentiu, ponto final parágrafo, disseram eles.

Neste fim-de-semana deram à costa noticias segundo as quais também o senhor Procurador-Geral da Republica teria, alegadamente, mentido nas respostas que deu às perguntas colocadas por dois deputados social-democratas sobre os despachos de arquivamento das famosas escutas entre o chefe do governo e o seu amigo Armando Vara.

Até ao momento, as únicas posições conhecidas do senhor procurador em relação às contradições publicadas são a de que responderá na segunda-feira “se assim o entender” e o anúncio da instauração de mais um processo por violação do segredo de justiça.

Neste diz que disse, o desgraçado do portuguesito, tal como o mexilhão, vai batendo na rocha, cada vez com mais força, incapaz de se segurar e encontrar pé, manipulado por gente com olho em terra de cegos.

Talvez que uma das causas deste nosso destino esteja na quantidade de exemplos semelhantes ao do aluno do 9º ano duma escola em Espinho que, de acordo com uma notícia que corre pela internet, ao enunciado “num teste estruturado e linguisticamente cuidado, com um mínimo de 10 linhas, exprime a tua opinião sobre o papel da escola na formação de um cidadão” respondeu:

" O papel da escola eu axo que é igual a um papel qualquer de imprensa A4. E de certeza que é. tem a mesma grossura e tudo. Agora se estão a falar, por exemplo, das folhas de Teste que é uma folha A3 duberada ao meio fazendo duas folhas A4, axo melhor que as folhas de teste sejam assim do que só uma folha A4, essas fichas que os professores dão são sempre folhas de formato A4 ou de formato A5 . Os testes As professoras metem sempre folhas de formato A4 mas quando são mais as professoras agrafam sempre as folhas e nunca fazem teste com folhas formato A5. Por isso eu axo que as folhas desta escola são iguais às das outras escolas ou de outras empresas."

É, também axo que, se calhar, é por estas e por outras que nos tratam como umas marionetas.

Assim seja!


(ilustração por Greg Horn)



Estou farto de puxar pelos miolos para ver se consigo escrever sobre um assunto sério mas a coisa, como é habitual em mim, não está fácil.
E até nem se pode dizer que não haja muito por onde escolher, (in)felizmente a nossa vida quotidiana está cheia de material onde eu me podia debruçar e, nas calmas, alinhavar umas quantas tiradas.
Ainda ontem à noite o senhor presidente do supremo tribunal de justiça fez o pleno e apareceu nos três canais de televisão, a tentar explicar aquilo das escutas e dos despachos e mais uma série de coisas. Como é tudo muito técnico, muito complicado e muito difícil de perceber, fiquei na mesma e não me arrisco a dar um único palpite que seja. Ou estou cada vez mais burro (o que não é de admirar), ou o senhor não se explica nada bem ou então as regras estão feitas para não serem percebidas. Contou porém, nas três entrevistas, que há um caso na sua vida de magistrado que ainda hoje o comove, com o qual ainda sonha regularmente, provavelmente foi um caso envolvendo uma boazona mamalhuda que se meteu em sarilhos.
Se aquele senhor, que é a quarta figura da nossa república, se dispôs a fazer o papel de simples figurante perante a comunicação social na mesma noite em que quiseram tapar o semanário Sol com uma peneira, vou ali e já venho.
Ou podia escrever sobre a candidatura ao cargo de presidente do PSD apresentada pelo eurodeputado Paulo Rangel mas, apesar de ser um político que eu admiro, vou ficar à espera e ver se ele me explica exactamente o que é que quer dizer com aquilo de ruptura com quinze anos de governos socialistas.
Ainda que ele explique a coisa como deve ser e consiga conquistar o lugar a que se candidata, vai ter muito trabalhinho a convencer-me de que o partido a que quer presidir ainda tem, como um todo, com os seus vários feudos, algo de diferente a oferecer, a começar por fiabilidade.
Optei, obviamente, pelo mais fácil, por um assunto ligeiro e lateral, um assunto que tem a ver com a grande amizade e o enorme carinho que nutro pelos lampiões deste país e cujo número, assim por grosso e à vista desarmada, deve andar aí pelos seis milhões de almas penadas, um número parecido com o total dos portugueses que vivem, dependem ou necessitam da ajuda do Estado português, nas formas mais benignas ou não.
Porque com o fim do carnaval se entra na Quaresma, sinto que é minha obrigação alertar-vos para que se preparem para o pior.
Em verdade vos digo que, para o vosso Jesus, depois de ele ter conseguido o milagre de pôr uma cambada de toscos a dar uns toques numa bola e a meter uns golitos, vai em breve começar um calvário que eu não desejo nem ao meu pior inimigo.
Dentro em breve, o vosso Jesus vai ser assobiado, sob as mãos dos lampiões associados vai sofrer e ser humilhado, vai descer aos balneários e às mãos dos vossos dirigentes vai ser castigado, despedido e mal pago e conforme o que constará no contrato não, não subirá de novo aos relvados para se sentar no banco dos suplentes e não festejará títulos em glória e a sua estadia no vosso clube terá fim.
Assim seja!

Sunday, February 21, 2010




Pouco barulho! Não mexe, não resfolega, quietinho, isso, lindo menino, dá cá a pata dá, isso, rebola, só mais uma vez, isso, agora deita, muito bem, toma lá um subsídio doce!
É assim que estamos, nós, os portugueses, estes milhões de marmanjos que pastoreiam a zona mais ocidental da península ibérica.
Dizia o meu professor da terceira classe, que também era meu tio, que ou a malta aprendia cedo a saber interpretar bem os textos que vinham no livro de leitura ou então arriscávamo-nos a, em adultos e como profissionais, ser uns grandes nabos e a dar com os burros (e com os camelos e os macacos, enfim, com a bicharia toda) na água, passaríamos a vida a misturar alhos com bugalhos. Posso dizer – e isto é mesmo para me gabar já que, para vossa informação, sigo o lema “a gente nunca gaba os outros” – que aprendi umas coisitas sobre a matéria e não me tenho desenrascado nada mal a esse nível.
Desde o fim do verão passado que dois dos mais altos e ilustres intervenientes do nosso sistema de justiça nos andaram a jurar que, no material interceptado em conversas telefónicas de gente graúda da nossa praça, nada havia de errado, nada justificava o alarido feito pela imprensa, um deles até disse que, por ele, divulgava tudo o que havia e assim o povo ficaria ciente da justeza das suas sábias decisões.
Estes dois dos mais ilustres magistrados, um deles é a quarta figura do Estado a que isto chegou, contrariaram o parecer de outros dois dos seus pares – um procurador e um juiz dum tribunal – e, do alto do seu poderio, disseram ao povo “vão cordeirinhos vão, fiquem tranquilos que não há lobos maus à vista, votem tranquilamente, está tudo bem…”.
E nós, os cordeirinhos, lá fomos, cantando e rindo, cumprimos o nosso dever e andámos com as nossas vidinhas para a frente.
Eis senão quando, através dum acto corajoso criminoso praticado pelo semanário Sol, os segredinhos são desvendados e são divulgadas as primeiras parcelas das escutas, bem como as conclusões a que chegaram os dois intervenientes judiciais menos importantes, conclusões que os levaram a considerar haver indícios de graves ilícitos que, na sua essência, consistiam num esquema governamental, nomeadamente do senhor primeiro-ministro, para controlo dos meios de comunicação social visando limitar as liberdades de expressão e informação
Eu, um peão desse tal bando de cordeiros, já que me era dada a oportunidade de ler o texto do exame, lá acorri a comprar o dito semanário e perdi meia hora e depois mais outra e ainda mais outra a ler e a reler as seis páginas dedicadas ao assunto.
No fim, pasmei e chorei!
Pasmei porque não consegui chegar à mesma interpretação a que chegaram os dois altos e ilustres intervenientes do nosso sistema de justiça e chorei por, durante estes anos todos, ter andado convencido de que o meu mestre da terceira classe tinha sido um mestre de se lhe tirar o chapéu e, afinal, tudo o que aprendi com ele e com todos os outros professores de português que se lhe seguiram enquanto estudei não me valeu de nada.
Como, como é que é possível que eu, logo eu que ainda agora me gabei lá atrás dos meus dotes de interpretação, não tenha sido capaz de fazer a mesma leitura que os nossos grandes e ilustres magistrados fizeram? Ó triste vida a minha, o que vai ser de mim daqui para a frente? Preciso de ir para a reeducação. Mas é que é já! Táxi!...

Mistérios




“Ó senhor ministro, diga-me lá como é isso para eu ver se eu encontro ali nalguma gaveta da sua secretária”.
Não, obviamente isto não me foi perguntado a mim mas, conseguisse eu, por qualquer bambúrrio, chegar a ministro, então esta talvez fosse uma das frases mais escutadas no gabinete.
Como ando sempre à procura das minhas coisas, sou um verdadeiro despistado, um daqueles desgraçados a quem os outros, especialmente os que estão mais em contacto comigo, massacram com a frase “só não perdes a cabeça porque ela está agarrada ao corpo”. O que, por enquanto, é verdade sim senhor. Deve estar por um fio, mas por enquanto ainda cá está, agarradinha.
A minha carteira é, teimosamente, o bolso da minha camisa ou um dos bolsos do casaco que visto, um molho solto de documentos avulsos e à balda que transporto sempre comigo: carta de condução, bilhete de identidade, cartão da segurança social, cartão de contribuinte, cartão de eleitor, cartão multibanco, uma nota de vinte euros, duas de dez e uma de cinco, um bocado de papel amarrotado com qualquer coisa escrita por mim mas que eu próprio já não percebo, alguns recibos de compras feitas há meses, um minúsculo bocado de linha azul escura que não sei de onde veio e…acho que é tudo.
Com esta espécie de carteira, é portanto a coisa mais vulgar do mundo eu andar à rasca porque agora perdi isto, depois perdi aquilo, bolas, onde é que terei metido a porcaria do cartão multibanco, já viste no casaco que trazias ontem? já e não estava lá, então e na camisa que puseste para lavar?, ah, espera lá, já encontrei, afinal estava aqui no molho, estava agarrado ao cartão do contribuinte. O costume! Tantas vezes isto se repete que a Maria abana a mona com resignação mas já nem diz nada o que, no caso dela, é obra!
Apesar da portabilidade da minha carteira, é raríssimo perder documentos ou dinheiro; quando perco, calha sempre ao bilhete de identidade ou então algum dinheiro, muito pouco aliás e normalmente é porque algum dos filhos da Maria me pediu um empréstimo e ainda não teve oportunidade de falar comigo e entregar a documentação necessária devidamente preenchida e assinada.
A frase, a pergunta que começa este texto, resultou da exclamação de desespero do senhor ministro das finanças, escutada há dias por estes ouvidos que a terra há-de sujar e cuja transcrição é mais ou menos “porra, valha-me santo Constâncio, aonde raio é que meti aqueles 1,3% do PIB português, ainda há duas semanas os tinha aqui guardados e agora não os encontro!”
Se isto me acontecesse a mim, além de dois pulos e dum valente berro, caía-me logo tudo, o Carmo a trindade e os tintins. Não necessariamente por esta ordem! Obviamente ficaria a falar fininho e não entendo como é que o ministro ainda fala grosso.
É verdade que o hábito faz o monge e o senhor ministro até já está habituado a perder grandes nacos do nosso produto interno bruto por atacado.
Em Outubro de 2008 dizia que o défice em 2009 ia ser de 2,2% do PIB, depois já eram 3,9% em Janeiro de 2009, depois 5,9% em Maio e, finalmente 8% em Dezembro. Agora lá desapareceram mais estes 1,3%.
À data em que teclo estas letras, a secretária do senhor ministro continua à procura.
A sorte dele não é ter a cabeça agarrada ao corpo, não! A sorte dele é outra, mas é mistério…

Tuesday, January 26, 2010

Obrigações




Parece que há para aí umas mentes brilhantes que já andam a engendrar uma forma (ainda) mais sofisticada de nos mexer nas algibeiras, uma versão da canção do bandido, uma balada a puxar ao sentimento e ao patriotismo.
Eu não vi nem ouvi, mas li algures que, durante o programa Prós e Prós do canal do Sócrates do Partido Socialista do Governo um da RTP, uma dessas mentes brilhantes convidadas propôs que, aproveitando o centenário da implantação da Republica, fosse lançado um empréstimo interno, quem sabe sob a forma de obrigações do Tesouro, para acudir ao sufoco financeiro que está aí à porta, a modos que um empréstimo obrigacionista.
Não sei se isto tem pernas para andar mas, com tanta epidemia que há por aí, não me espantava nada que o vírus desatasse a infectar meio mundo e se espalhasse à velocidade estonteante do vírus da gripe A.
Por mim, bem podem tirar o cavalinho da chuva, podem meter tais ideias pelo buraco que muito bem entenderem e quiserem, de mim levam mas é a ponta dum grande corno.
Obrigacionista a fazer em empréstimos à Republica já eu sou, empréstimos adiantados e por conta, obrigado que sou a fazê-los pelos que têm mamado nas tetas da nossa querida e amada República nas últimas décadas. Faço-os em três prestações anuais, calculadas com base no que ganhei no ano anterior. E chega!
É claro que para os mamadores, todo o empresário em nome individual tuga como eu, é, claramente, um tipo de sucesso, um barra nos negócios e, com crise ou sem crise, "vá...anda lá ó tenrinho, passa para cá esse emprestimozinho, sem juros e não bufes. Se bufas, já sabes...ooops, vê lá bem a coisinha má que te poderá acontecer".
Como eu, há muitos milhares de obrigacionistas que vão sustentando outros tantos milhares de agradecidos, venerandos e obsequiados.
Se eu tivesse um tacho que fosse sustentado pelo dinheirinho dos outros, ah bom, garanto que também eu havia de puxar pela cachimónia para manter as tetas em boas condições pelo máximo de tempo que fosse possível. De facto, quem é que no seu perfeito juízo larga uma teta enquanto ela der? Só os mentirosos e os burros!
Ao empréstimo obrigacionista de que falei, há que juntar a brutalidade em impostos que pago quando compro combustíveis, os trinta e seis por cento da taxa do imposto sobre o rendimento, os trinta e cinco por cento para a segurança social, etc., etc., etc. (se alguém quiser pôr o ombro a jeito para eu poder chorar, está à vontade).
Como escrevia alguém, o estafermo do túnel é chato e comprido como o caraças. Há tantos anos que andamos dentro dele e, mesmo assim, não há meio de encontrar a famosa luz lá ao fundo.
O mais irritante é que o esqueleto do pagante vai envelhecendo durante a caminhada e, de repente, está-se com os pés para a cova sem ter verdadeiramente desapertado o cinto durante a passagem terrena. Um parêntesis para dizer - mais uma vez! - que eu sou um privilegiado e que barafusto de barriga cheia mas tenho pena que não haja muito mais gente como eu (eu prefiro acabar com os pobres do que acabar com os ricos...manias!).
Uma razão para o túnel ser muito comprido é a existência de deputados como a socialista Inês de Medeiros; com residência em Paris, aceitou um convite para ser eleita para o parlamento nacional e agora quer que lhe sejam pagas as viagens que faz para aquela cidade aos fins-de-semana. Para ver a família. E os tansos vão, através dum regime de excepção, pagá-las.
Com tanto desperdício, ainda querem mais empréstimos? Como dizia a minha tia Arminda: campava eu!

Wednesday, January 06, 2010

Banalidades



Em reacção à mensagem de Ano Novo do senhor Presidente da Republica (o tal que, em certos sectores é carinhosamente conhecido como “o gajo”), o chefe do grupo parlamentar do partido socialista, em entrevista a um jornal, disse que “… o PS governou, com sucesso, na redução do défice estrutural do nosso défice”. E disse-o sem se rir!

Na mensagem, o tal senhor que em certos sectores é conhecido como “o gajo”, deu-nos (mais) um murro no estômago para ver se a malta presta a devida atenção às nuvens negras que estão ali à frente, no nosso futuro imediato. E o que é que disse “o gajo”? Banalidades:

- “…quando gastamos mais do que aquilo que produzimos, há sempre um momento em que alguém tem de pagar a factura…”;

- “…com este aumento da dívida externa e do desemprego, a que se junta o desequilíbrio das contas públicas, podemos caminhar para uma situação explosiva”;

- “…é necessária uma maior exigência e responsabilidade para os detentores de cargos públicos porque o exemplo deve vir de cima…”

- …Os custos da correcção de um desequilíbrio das finanças públicas podem ser dramáticos…;

- Falo sempre com um imperativo: nunca vender ilusões nem esconder a realidade do País e em nome da verdade;

- A dívida do Estado (...) aproxima-se de um nível perigoso e o endividamento do País ao estrangeiro tem vindo a aumentar de forma muito rápida, atingindo já níveis preocupantes;

- Os dinheiros públicos não nos podemos dar ao luxo de os desperdiçar e o caminho do nosso futuro tem de assentar em duas prioridades fundamentais: o reforço da competitividade externa das nossas empresas e o aumento da produção de bens e serviços que concorrem com a produção estrangeira, já que é uma ficção pensar que é possível conseguir uma melhoria duradoura do nível de vida dos portugueses sem o aumento da produtividade e da competitividade da nossa economia e, por outro lado, o apoio social aos mais vulneráveis e desprotegidos e às vítimas da crise».

Para os muito distraídos, as banalidades apontadas podem ter sido causados pelo D. João II, pelo Marques de Pombal, pelo Salazar, pelos Marcelos (o Caetano e o Rebelo de Sousa) ou até pelos seis meses e meio da des(governação) do modernaço Santana Lopes.

Fruto da minha descontracção e estupidez natural, o recado pareceu-me essencialmente dirigido a quem, nos últimos quinze anos – desde 1995 – mandou no governo português durante doze anos e meio: o PS!

Sim, eu sei que é chato, mas há que não esquecer este pequeno detalhe quando se fala do nosso país e da sua situação, quando são divulgados, por entidades estrangeiras, os dados relativos aos nossos índices de desenvolvimento.

A questão é que, com a instrução do povo pelas ruas da amargura e com a maioria da imprensa anestesiada ou dependentemente domesticada, toda a gente é culpada menos a ideologia socialista, aquela ideologia em que um punhado de gente, de falinhas mansas e mamar doce, se apodera do estado, o engorda e o estende a tudo quanto mexe, com o objectivo de impedir o desenvolvimento da nossa verdadeira liberdade individual, fomentando o parasitismo e penalizando o sucesso do risco, formatando uma sociedade que reage como um bando de gente acéfala e acrítica, que bate palmas quando lhe mandam e que bate a bola baixa quando tem de ser. Veneranda e agradecida!

E, como é publicamente sabido, quem se mete com eles, com os socialistas, pimba, leva! Se “o gajo” tivesse barbas como o meu bisavô Ezequiel bem as podia pôr de molho; como não tem, que se ponha a pau!

Saturday, January 02, 2010

Adiantará?


A primeira década do século vinte e um está quase a dar o berro, está mesmo a acabar e, como é hábito, vai haver foguetório no final do ano, quando nos relógios tiver batido a décima segunda badalada. A julgar pelas primeiras noticias que ouvi desde a véspera de Natal até hoje, segunda-feira, havia gentinha interessada em que o fogo de artificio nos céus tivesse começado bem mais cedo do que o habitual. Um deles já foi apanhado.
Um adolescente nigeriano de dezanove anos, com a ajuda de uns amigos porreiraços, uns terroristas do bando do destrambelhado e desaparecido Bin Laden, coseu, nas cuecas, uma pequena quantidade de um explosivo e rumou da sua terra para as Américas, com passagem pela cidade holandesa de Amesterdão aonde, por portas travessas, embarcou num avião duma companhia aérea americana.
Já em pleno voo, em vésperas da celebração do nascimento de Jesus (o verdadeiro e não aquele marmanjo que treina aquela cambada de toscos), este incompreendido adolescente, tentou detonar o explosivo com a ajuda duma seringa mas, ou por incompetência ou por pura sorte, em vez da explosão só causou fumo e alguns dos outros passageiros fizeram-lhe a folha antes que fossem todos para os anjinhos.
Graças a este adolescente inconsciente, daqui para o futuro, as nossas cuecas passarão a ser um dos pontos com mais interesse para as equipas de segurança dos aeroportos; facilmente imagino um senhor muito circunspecto a olhar para um ecrã à sua frente, o tolão suicida a passar pela máquina especial, o segurança a franzir o sobrolho e a perguntar com ar de espanto “ó amigo, você tem mesmo três coisos ou aquilo ali é uma bomba?”.
Se entretanto, por qualquer razão de natureza técnica ou legal, não for viável pôr uma máquina a investigar-nos a artilharia, vai ser um espectáculo lidar com o caos causado pelo despe, apalpa e volta a vestir, de cada vez que se viajar de avião.
Já não me bastava ter a certeza de que estou com umas meias sem buracos porque nos obrigam a descalçar os sapatos; agora também preciso de ter cuidado com a apresentação do cuecame, que tem de estar impecável e pronto para uma inspecção aprofundada. Com tanta da minha concentração desviada para estas minudências ainda me arrisco a esquecer qualquer coisa importante – as calças por exemplo.
Ainda graças a este desenraizado adolescente, futuramente, quem for de avião para a terra do messias, não vai poder levar nada no colo (por acaso até pode ser um alivio porque alguns dos seguranças, depois de investigarem a lingerie dum passageiro poderiam sentir um forte impulso a meter-se no mesmo avião…) e durante a última hora de voo não se vai poder levantar do lugarzinho.
Se o presidente dos americanos ainda fosse o tolo do Bush, estas medidas teriam logo um rótulo de paranóia de um demente mental; como o presidente é o messias, ah bom…então é tudo pelo amor e carinho ao cidadão comum.
Por cá, só boas novas! Enquanto parece ser impossível esclarecer, no caso das escutas da Face Oculta, quais foram os factos criminosos imputados pelo juiz de instrução e pelo procurador coordenador ao senhor primeiro-ministro, o chefe do governo mandou-me uma mensagem pela televisão a dizer que está tudo bem, que a retoma da economia já se vê (eu sou míope e por isso não a topei) e que as obras públicas vão criar muitos mais empregos do que o número de vacinas contra a gripe A que não foram usadas.
Porreiro pá! Adiantará desejar um bom 2010?




Wednesday, December 23, 2009

Ano 2050, dia 20 de Dezembro – Diário de bordo


Cumprindo a profecia da cigana da Tojeira, morri há quatro anos, com a bonita idade de noventa e três anos. Pairo numa confortável concha de gás, algures no espaço etéreo e celestial e vivo sem preocupações, sem razões de queixa e tenho, além disso, uma belíssima vista sobre o planeta Terra.
Vista daqui, a terra está um bocadinho diferente do que era no final do ano dois mil e nove, ano da publicação deste texto.
Conforme então previam os especialistas, o gelo praticamente desapareceu do planeta, incluindo aquele que estava armazenado numa pista em Viseu e onde a malta arrefecia a pandeireta em graciosas quedas.
O pouco gelo que agora existe no planeta, caro e em pequenos cubos, está guardado em arcas frigoríficas especiais e só é vendido nas estações de recarga de baterias dos automóveis eléctricos.
Em Portugal, por exemplo, por cada minuto de carregamento de electricidade para o popó, o senhor automobilista tem direito a três cubos, um pechisbeque com a fotografia do Sócrates (actualmente é o presidente do conselho de administração da fundação Magalhães, fundação que é a proprietária de quatro das cinco regiões administrativas do país), uma bandeira da secção portuguesa do partido socialista mundial (cujo símbolo é o rosto enrugado mas sempre angélico do messias que mantém a presidência dos estados unidos e já ganhou trinta e dois prémios Nobel, todas da paz).
Se o carregamento for superior a quinze minutos tem direito a um prémio extra, uns óculos especiais com a projecção em três dimensões da última produção do realizador português Manuel de Oliveira, sobre o impacto da falta de água fria na extinção dos ursos polares que viviam nas florestas virgens africanas.
O prometido degelo e a consequente subida do nível do mar submergiu, como antecipado, o arquipélago das Berlengas, os estádios da Luz e o de Alvalade e ameaça fazer o mesmo à serra do Caramulo o que está a provocar o pânico entre as gentes de Besteiros, obrigadas a andar sem meias e com as calças arregaçadas, o que as expõe a morte súbita causada pelo ridículo.
Entretanto, a temperatura do planeta não aqueceu nem arrefeceu, contrariando estabelecido no tratado de Copenhaga 2009. Os mais conceituados especialistas mundiais procuram os responsáveis por essa falha administrativa grave.
Alguns desses responsáveis já vivem por aqui, são praticamente meus vizinhos e a maior parte deles, graças às cunhas das Nações Unidas, entrou para os quadros administrativos celestiais. Al Gore, o mais mediático dos seus membros, vive na constelação Taurus, na sua mais luxuosa e brilhante estrela, a Aldebaran, razão pela qual é conhecido como “o Alderabão conveniente”.
Consta que têm em preparação um movimento de protesto com vista à total eliminação de símbolos religiosos no céu e à legalização da fundição entre os anjos e os arcanjos do mesmo tipo de ectoplasma.
O sol está a pôr-se, sem os seus raios eu congelo, já só há tempo para vos desejar um Santo e Feliz Natal.

Vizinhos




Caxias, terra aonde habito, apesar de ficar a meia dúzia de quilómetros do centro da capital, não passa de uma aldeia com mais habitantes do que a maioria, razão pela qual, para além de mim, por cá vivem outros mânfios igualmente famosos.

O nome da terra é reconhecido no país inteiro não por eu cá morar mas por causa da famosa prisão para aonde eram recambiados, até ao vinte e cinco de setenta e quatro, os que não agradavam aos senhores que então estavam no poder. Não fora por isto, pouca gente no país saberia da sua existência.

Em Caxias, além da prisão e do seu hospital, está instalado, há mais de cem anos, um Instituto de reinserção social que tem, actualmente, como objectivo fundamental promover a prevenção criminal, através da reinserção social de jovens adultos delinquentes e, do apoio a menores em perigo ou com difícil adaptação social.

Por exemplo, jovens como o pê-esse-dê Pedro Passos Coelho que, numa entrevista, disse “fumei haxixe com uns amigos e, por acaso, só posteriormente percebi realmente o que tinha fumado” não têm estatuto para vir para cá, topa-se logo que são demasiado distraídos, são encaminhados para outras escolas mais especializadas ou então abraçam a carreira artística, vão para cómicos.

Segundo parece, o Instituto também presta apoio técnico aos Tribunais na aplicação de sanções penais e de medidas tutelares e correctivas, através da elaboração de relatórios sociais e de personalidade sobre o arguido e/ou, a vítima, assegurando o acompanhamento dos arguidos, dos indivíduos condenados e dos indivíduos em regime de liberdade condicional. Apoia ainda os Tribunais a nível da protecção e defesa dos direitos e interesses dos menores. Por outro lado, assegura apoio técnico aos indivíduos e famílias, a nível psicológico, social, económico e, a Instituições Particulares e Outras Organizações e à Comunidade em geral, no desenvolvimento de projectos e acções de Reinserção Social e de Prevenção da delinquência e da marginalidade e exclusão sociais.

Por ser um pouco daquilo tudo, um marginal e um excluído social é que José António Saraiva, director do semanário o Sol, foi, por três vezes, intimado por carta registada a comparecer no Centro de Reinserção Social, na “companhia de pessoa idónea, de preferência adulta”.

À terceira foi de vez e, conta o próprio, dado que a diligencia se referia a uma violação ao segredo de justiça no famoso caso de pedofilia, enquanto tentava dar com a morada calculou que a intimação à reinserção social fosse uma diligência para que “caso fosse condenado ao pagamento de multa, a juíza estaria interessada em saber quanto ganhava, se era casado, se tinha ou não filhos ou outros familiares a meu cargo, se vivia em casa própria, se tinha bens, etc.”.

Na morada, no número cinco da Estrada da Cartuxa, a pouco mais de duzentos metros da minha casa, diz ele que duas individuas não o questionaram sobre a sua capacidade financeira para pagar multas mas que “o interrogaram como se estivesse na policia, um interrogatório sobre o segredo de justiça, o que pensava da violação desse segredo, sobre a Lei de Imprensa, sobre o relacionamento dos jornalistas com as fontes, sobre a presunção de inocência e a preservação do bom nome da liberdade de imprensa, etc., etc., etc.”.

A “coordenadora da equipa” de inquisidoras informou-o de que ele "voltaria a ser interrogado por outras pessoas nos próximos dias. E que depois teriam de ir à sua casa, interrogar vizinhos e conhecidos".

Embasbacado, o jornalista diz que só há uma explicação para esta coisa aberrante: "Tratou-se de uma tentativa de intimidação".

Como não ouvi ninguém falar na coisa, nomeadamente o sindicato dos jornalistas ou a ERC, certamente que o episódio não terá nada de esquisito nem de grave, deve ser apenas um biscate que o Centro e as duas senhoras arranjaram.

Resta saber para que “Poder” andarão elas a biscatar.

Sacrifícios


Embora tenha uma energia fora do vulgar, de ser um daqueles seres humanos que não conseguem parar quietos e que precisam de estar em perpetuo movimento, a cada ano que passa, depois da quadra natalícia e quando se arruma a caixa com as decorações no sótão, os pneumáticos que circundam a minha (por enquanto esbelta) cintura mostram um ajustamento pela positiva, apresentam um significativo, embora pequeno, aumento de volume.
E eu, ao contrário do Paulinho das feiras, até sou um miúdo com muito juizinho e tenho muito tento na língua. Quando muito, às vezes – raramente, muiiiiiito raramente – sou capaz de me alambazar com manteiga e, em vez de só pôr metade, por distracção enfio um papo-seco inteiro num pacote de duzentos e cinquenta gramas. Mas isto, como disse, com papos-secos acontece muito raramente. Já com os croissants é mais habitual mas também o que é que adianta um gajo viver a vida toda e não ter uma porcaria dum vício para confessar ao Criador?
Além do mais, para manter esta elegância de hipopótamo raquítico, obrigo-me a praticar desporto durante o ano inteiro e, chova ou faça sol, jogo ténis três vezes por semana. Normalmente treino sempre com o mesmo parceiro, temos os dois tanta classe e as jogadas já estão tão bem ensaiadas que o mesmo par de meias e a mesma t-shirt dão-nos para mais de três jogos (o recorde está em seis jogos sem que nada fique amarrotado).
Pois bem, apesar de todos estas preocupações, este ano optei por ter ainda mais cuidado com o esqueleto, a idade exige cada vez mais sacrifícios, pus a cabeça a funcionar e delineei um programa suplementar de apoio ao pobre do pneumático, programa que passa por ir andar a pé aos fins-de-semana. Vivendo tão pertinho do mar e havendo tanto passeio marítimo aqui na zona, só mesmo um calão como eu é que não aproveita e não tira partido destas benesses.
Acabei agora de vir da estreia mundial deste novo programa e, devo dizer-vos que estou muito contente com a opção tomada, arrependido até por não me ter lembrado disto há mais tempo, de facto o que custa é a gente sair de casa, depois de estarmos na rua até lhe apanhamos o gosto, sinto-me bastante mais revigorado, pareço outro.
Como ainda não conhecia o paredão de dois quilómetros e tal que liga a praia de Paço de Arcos à praia de Santo Amaro de Oeiras, saí de casa, guiei até à marginal e parei o carro num parque de estacionamento mesmo em frente ao mar.
O céu estava cheiinho de nuvens escuras e, como de costume, à beira-mar o vento era mais forte o que leva à diminuição da temperatura exterior, mas eu estava bem equipado e, acima de tudo, estava determinado.
Deixei sair a Maria e o cão, apertei bem o anoraque até ao pescoço, tranquei as portas porque dizem que há ladrões por ali, aumentei o volume do rádio, encostei o banco um pouco mais para trás e encerrei as pálpebras.
Uma hora depois, quando um bater insistente na janela me acordou, o exercício físico feito e a satisfação do dever cumprido, não pude evitar de pensar: porque é que eu não me sacrifico mais vezes?

Wednesday, December 16, 2009

Às claras





Já não é só o rabo do gato que está de fora. O gato está todo ele de fora, a cauda, a cabeça, o tronco e os membros. Destapado e exposto. Todinho. Bastaram dois meses depois dos patos terem votado para que o felino deixasse o esconderijo, arreganhasse as beiças e afiasse as garras, pronto para as habituais e dolorosas carícias ao desgraçado do rato contribuinte.
Seguindo a táctica do polícia mau e do polícia bom, táctica muito utilizada nos filmes policiais americanos antes da era do Messias – agora, por lá, no paraíso, os policias e os ladrões juntam-se à esquina a tocar a concertina e a dançar o solidó – os felinos do governo socialista retomaram o tratamento ao nosso pêlo, voltaram ao assunto do aumento dos impostos. Nos filmes, o suspeito é primeiro confrontado com o trombudo polícia mau que em vez de chá e bolos o ameaça de todos os males possíveis e imaginários; depois vem o polícia bom, de cigarro na mão e sorriso nos lábios, todo ele mesuras, simpatia e promessas. No fim, destroçado, cansado e rendido o suspeito, os dois polícias acabam a noite nos copos, em grande e alegre farra com os amigos.
No papel de policia mau, o senhor governador do banco de Portugal, o tal que ganha mais por mês do que o presidente do banco central norte-americano, deu o mote em entrevista às televisões, largando a sua caríssima opinião de que, está na cara, para reduzir o défice até 2013 como nos impõem os malandros da união europeia, o aumento dos impostos é uma forte probabilidade.
Logo de seguida, no papel de policia bom, vem, não um mas dois senhores, o senhor ministro das finanças e o senhor primeiro-ministro, não pensem nisso, então, então, aumento de impostos?, esqueçam, nunca tal nos passou pela carola, que a velha caia já redonda no chão se nós estamos a mentir!, pelo contrário, se pudéssemos, até os descíamos, de tão bondosos que somos.
O felino actor que faz de polícia mau é o mesmo que fez, há anos, uma previsão até às centésimas para o défice do estado, com nove meses de antecedência. Também nessa altura tinham decorrido apenas cerca de dois meses desde as últimas eleições legislativas e a actuação do excelentíssimo técnico serviu de desculpa para que o então recém-empossado primeiro-ministro mandasse às urtigas a promessa, feita durante a campanha eleitoral, de não subir a carga fiscal. Afectado na sua capacidade de adivinho pelo aquecimento global do planeta em que vive, o actor que faz de policia mau, mostrou-se, há duas semanas, surpreendido pelo défice do estado ir atingir 8 por cento este ano, coisa que ele, apesar da sua sábia pessoa, nunca julgou possível. A idade não perdoa, até ao melhor dos cartomantes se evaporam as qualidades.
Os felinos actores que fazem, em conjunto, o papel de polícia bom, são igualmente criaturas reputadas, uma delas até é muito escutada mas, independentemente das suas excelsas qualidades, o desgraçado do rato contribuinte já percebeu o que lhe vai acontecer, vai mesmo levar nas ventas com mais aumentos nas suas contribuições em beneficio do grande esbanjador.
Como nos filmes americanos, estes nossos felinos que fazem o papel de policia mau e de policia bom, apesar de parecerem, aos olhos do suspeito rato contribuinte português, como sendo diferentes no tratamento e na preocupação com o bem estar do bicho, vão, também eles, acabar a noite na farra e nos copos com os amigos. São zangas públicas que escondem acordos e amizades privadas. E a gente a vê-los…

Muros



Celebrou-se há dias o vigésimo aniversário da queda do muro de Berlim, o muro que, durante décadas, dividiu aquela cidade alemã em dois modelos de sociedade, dois modelos completamente diferentes: num dos lados a malta tinha a liberdade para falar e decidir, por si próprio, uma catrefada de coisas que a só a ela lhe diziam respeito e, no outro lado, do lado de lá, o maralhal tinha todo e o exclusivo direito de levar no focinho se não calasse a matraca o que, mesmo assim, atendendo ao alargado lote de mimos à disposição dos queridos lideres e dos seus amigos, era um género de mimo para o suave.
A parede foi construída para impedir que os felizardos que ficaram do lado leste da cidade dessem de frosques, mandassem tudo para as urtigas e que, com os seus testemunhos, dessem cabo da maravilhosa propaganda que o politicamente correcto fazia, nos órgãos de comunicação social do ocidente, ao que se passava do lado de lá do muro, supostamente o paraíso onde o homem novo viveria como nos filmes da carochinha, sem chatices e feliz para todo o sempre.
O tal do homem novo era assim como um totó ceguinho que, após a aplicação duns cremes e dumas gotas feitas a partir dum produto químico chamado socialismo, virava um atlético e visionário socialista, apelidado de comuna nesta variante.
Por cá, expressar em público a mais pequena dúvida quanto às qualidades dos comunas era sintoma de disfunção do metabolismo do marmanjo e mesmo em privado havia que ter algum cuidado porque o comuna é um ser muito sensível e dado a reacções alérgicas que podem causar contundências nos órgãos de terceiros.
Como o bicho homem sempre quis imitar o pássaro e voar livremente, tem sido impossível manter um elevado número deles aprisionados durante muitos anos. O vírus da liberdade, que é triliões de vezes mais perigoso do que o vírus da gripe suína e contra o qual, felizmente, nunca foi descoberta nenhuma vacina, acaba sempre por atacar os homens subjugados e o desencadear duma pandemia é uma questão de mais tempo ou menos tempo.
Muitos dos homens portadores da estirpe mais forte do vírus da liberdade apanham tareia de criar bicho enquanto os ditadores os tentam curar e alguns acabam mesmo por esticar o pernil não ficando para ver os efeitos da pandemia que ajudarem a espalhar.
Como causas e contributos para a queda do dito muro de Berlim eu já tinha ouvido muita coisa e muitos nomes, mas foi preciso chegar a este aniversário para ficar a conhecer mais uma teoria, uma teoria vinda, nada mais nada menos, que da boca do Zézito, o nosso querido líder e primeiro-ministro que, sem se rir, disse:
«Há muitos que dizem com justiça que as revoluções democráticas precursoras do movimento que levou à queda do Muro foram as revoluções ibéricas as revoluções democráticas em Portugal e em Espanha, e eu faço essa leitura histórica»
O que me provocou um ataque de riso maior do que a piada do querido líder foi uma filiada no partido do frei Anacleto dizer que o antigo presidente americano Ronald Reagan não teve qualquer influência ou impacto na queda do muro.
Como antigamente, há um politicamente correcto que mete dó e…medo.

Atchim!!



Na semana em que dois vírus fulminantes griparam as aves e um pastel de Belém me atacou o fígado, uma das irmãs da Maria – uma das gémeas – ao perceber que o marido largara o tabuleiro com o pequeno almoço do lado de fora da porta do quarto onde partilham o leito conjugal, concluiu que cumpria os requisitos para recorrer à linha de Saúde 24, o primeiro passo a dar, seguindo os conselhos das autoridades competentes, para quem desconfia que está a ser atacado pela gripe.
Às apresentações, o meu nome é fulana de tal, nascida no ano da graça de mil nove e troca o passo, etc., seguiu-se um extenso interrogatório sobre as queixas que a levaram a fazer a chamada: sim, dói-me isso, sim…isso também, não…isso não tenho e por aí fora. O veredicto, uma ida devidamente mascarada ao centro de saúde mais próximo foi contrariadamente cumprida pelo marido que, forçado à condição de chauffer ocasional tentou, sem sucesso, transportar a carga infectada no banco de trás.
No centro de saúde em questão, o departamento da guerra à gripe só abria às 16 horas, pelo que o marido a despejou na rua onde, juntamente com uma dezena e meia de saudáveis doentes, esperou cerca de meia hora antes que um senhor, equipado para detectar fugas radioactivas, lhes abrisse a porta e os levasse para o segundo conjunto de apresentação dos dados pessoais e de repetição das queixas.
Duas horas e meia depois, a irmã da Maria, sentada à frente duma senhora doutora e terminada a terceira etapa de apresentação e da reconfirmação das queixas, foi informada que só não ia para casa devidamente medicada porque tinha vindo do estrangeiro uns dias antes e, assim sendo, seguindo o manual da gripe A, tinha que ir às urgências do hospital São Francisco Xavier.
Trouxa aviada, febre e dores em crescendo, a saudável doente chegou ao novo estabelecimento de saúde pelas dezanove horas, cumpriu a quarta etapa de apresentações e do menu das queixas e sentou-se numa sala aonde só estavam quatro novos colegas.
Umas míseras cinco horas depois, a dolorida doente, entretanto impedida de se pirar do rápido, compassivo e magnânime sistema de saúde público por manifesta falta de forças e por falta de solidariedade do marido que aproveitava ao máximo aquelas horas de liberdade no exterior do estabelecimento, cumpriu mais uma etapa, a quinta, de apresentação dos seus dados pessoais e das queixas e foi levada para um novo compartimento, uma sala, onde foi, finalmente, vista por uma médica.
Pensou que a sala, parcialmente dividida por um biombo de modo a que dois médicos aviassem dois pacientes em simultâneo, já teria sido testada e usada uma catrefada de vezes depois de tantos meses de preparação para a pandemia. Pensou mal! Só quando a senhora doutora, intervalando o seu exame médico com dicas sobre o modo de funcionamento do equipamento informático do seu colega do lado, pediu à furibunda doente que se despisse para a auscultar é que notaram que, do lado de lá do biombo, o outro doentinho mirava os contornos do seu busto nas janelas na perspectiva dum espectáculo de strip à borla, o olhar esgazeado e a língua de fora. Ou então era da febre.
Pelo sim pelo não, para benefício dos doentes futuros e como prevenção contra o voyerismo mórbido, foi colocado um lençol nas vidraças.
À uma da manhã, dezasseis horas depois do telefonema, engolido o primeiro comprido contra a amigdalite, a irmã da Maria fez o que há muito lhe apetecia: deitou-se e adormeceu. No pesadelo, nevava e ela voltava àquele hospital, havia trinta e quatro realmente doentes à sua frente, esquecera-se dos seus cartões de visita e no farnel para seis dias que o marido levava às costas não havia nada para ela.

Thursday, October 15, 2009

Hossana




Para estar de harmonia com as novas regras mundiais já alterei todos os programas que tenho no meu computador, eliminei as referências ao antes e ao depois de Cristo (A.C. e D.C). e introduzi no calendário o ano um da nova era, a era antes e depois do Obama (A.O e D.O.), o novo messias.
Não sei se vai ser fácil alterar o meu bilhete de identidade, lá diz-se que nasci no ano de 1953 D.C quando na (nova) realidade nasci no ano 56 A.O., mas acredito e tenho fé que mesmo a má fama da burocracia portuguesa desapareça graças e estes novos tempos.
Esta é portanto a primeira crónica do novo calendário e é com o peito inchado de felicidade e com os ouvidos prenhes de música celestial – harpa e dança aos molhos – que a escrevo.
Lá fora, para lá de janela do meu escritório, os pássaros chilreiam e voam em círculos perfeitos, descrevendo miríades de ós de Obama, que depois, a brisa suave que embala a doçura da manhã, transforma em coraçõezinhos pirosos como o caraças, as folhas das árvores que há dias jaziam na relva voltaram aos ramos e as flores do jardim perderam as suas rugas outonais e recuperaram o viçoso aspecto primaveril.
Cinco marmanjos escolhidos pelo parlamento norueguês – entre os quais dois socialistas à maneira e um bloquista lá da zona – atribuíram o prémio Nobel da paz ao messias, utilizando, na minha opinião, o mesmo efeito de alavancagem da chamada economia de casino.
Na economia de casino, um artolas como eu, com base na pífia garantia do pinhal dos Chaninhos, consegue dum banco o acesso a linhas de crédito dez, vinte ou cinquenta vezes superiores ao valor do dito pinhal, para tentar fazer fortuna investindo em produtos complicados nos mercados bolsistas por esse mundo fora. Quando a coisa dá para o torto, quando começa a desalavancagem, quando os investimentos em que o artolas se meteu com toneladas de dinheiro alheio começam a derrapar mais do que as contas públicas portuguesas, o desgraçado arrisca-se a perder o pinhal mais as peúgas e as cuecas e o banco talvez nem a transformar os pinheiros em palitos se consiga safar do buraco que ajudou a cavar.
O que os marmanjos noruegueses fizeram foi uma coisa do género: atribuíram ao messias o Nobel da paz, não por aquilo que ele fez mas por aquilo que ele disse que ia (ou vai) fazer. Justificaram eles, os marmanjos noruegueses, que o prémio dado é para encorajar os extraordinários esforços para o fortalecimento da diplomacia mundial, para a facilitação na relação com o Islão e para o êxito do conceito dum mundo sem armas nucleares. Tipo a academia de Hollywood premiar um actor com o Óscar de melhor interpretação num filme que nem sequer começou a ser rodado.
A garantia do messias – as suas boas intenções – foi agarrada e alavancada pelos marmanjos noruegueses com o objectivo de que empedernidos investidores taliban, iranianos, sudaneses, norte-coreanos, russos e chineses entre outros jogadores do xadrez diplomático mundial, abram as suas mentes, os seus corações e os seus mercados à bela retórica e aceitem trocar pontapés, caneladas, facadas nas costas, armas e ogivas nucleares por pétalas de rosas, rebuçados para a tosse e boiões de creme contra a espinhela caída e os joanetes.
Quando a estúpida e dura da realidade das coisas malhar forte e feio nas costas do messias, a listagem das suas boas intenções poderá ter sido suficiente para a atribuição prematura dum prémio mas a desalavancagem da fantasia vai, à maneira da economia de casino, provocar muitos e péssimos estragos. Veremos quem apanhará mais por tabela.

Monday, August 24, 2009

Directivas





Segundo relatou o Correio da Manhã (CM) do passado fim-de-semana, foi com socos, cadeiras pelo ar e ameaças de morte que terminou uma eleição para o secretariado do Partido Socialista da freguesia da Sé, na cidade do Porto, cidade que também tem uma catedral e onde mora, desde o último domingo, mais um título (para si caro leitor que, de há uma catrefada de anos para cá, não sabe o que é que é isso dum “título”, aqui fica o meu abraço de compaixão e os meus votos sinceros de que para o ano…a coisa continue na mesma).

Pequeníssimas diferenças de opinião entre elementos afectos a duas facções que lutam pela presidência da Junta daquela freguesia nas próximas autárquicas terão estado na origem da excitação que levou a esta democrática forma de resolução das diferenças internas destes militantes do aparelho socialista.
Em pequenas, mas bem localizadas comunidades, o cheirinho a eleições, principalmente o cheirinho a eleições autárquicas e legislativas, é mais perigoso do que o vírus da gripe agá-ene-não-sei-das-quantas, provoca febrões altíssimos e reacções estranhas como a relatada pelo CM, enfim, todo um conjunto de sintomas já investigados e a que os estudiosos classificam como a Pandemia-do-tacho.

Consta que muitos membros dessas comunidades escapam às formas mais graves da doença e, por muito que já se esteja familiarizado com o fenómeno, não se conhece ainda a existência de qualquer tratamento totalmente eficaz. Alguns dos maiores especialistas na matéria defendem a teoria de que todos nós, em maior ou menor escala, somos portadores duma variante do bicho, sendo vulgar o comum dos mortais esticar o pernil sem sofrer uma crise séria, desde que mantido longe das tais comunidades localizadas.

Embora não haja indicação de que a moléstia possa alastrar a toda a população assim por dá cá aquela palha, sabe-se que em certos países – como Cuba, Venezuela, Coreia do Norte, entre outros – alguns dos portadores, os mais iluminados e mais esclarecidos, se isolam do resto do maralhal e, num gesto de despojada filantropia, eliminam totalmente as eleições de modo a que o cheirinho não se propague aos compatriotas e os efeitos nefastos fiquem restringidos aos mais próximos.

O filantropismo despojado é aliás o efeito secundário benigno mais visível na versão mais preocupante da doença. Pode não parecer mas ele está lá! A populaça que fique descansada que os iluminados e os esclarecidos, mesmo que os seus actos o não mostrem, através de boas directivas só têm uma coisa em mente: zelar por nós e pelos nossos bens.
E, para isso, o recurso aos membros da comunidade afectados pela forma mais grave do vírus é fundamental para assegurar níveis de estabilidade e controlo desejáveis.

Embora eu seja uma potencial vitima do vírus da dita gripe – estou sempre a meter-me com ele de tal maneira que já quase esqueci a anedota daquele famoso computador totalmente português – podia jurar em publico e pela rica saúde de qualquer um dos meus vizinhos, dos lagartões empedernidos e dos lampiões assumidos, que nunca, jamé e em tempo algum, seria afectado por esse febrão que, em épocas eleitorais, ataca as ditas comunidades. Podia mas não juro!

Promessas



- É claro que eu também quero! Há anos que falamos sobre isso e tu sabes muito bem como eu ficaria feliz e além disso não estou propriamente a ficar mais nova e, concordo, sim, quanto mais depressa engravidar, melhor. Mas tu tens bem a certeza do que me estás a dizer? – perguntou ela surpreendida, afastando bruscamente a sua cara da dele.
- Claro que tenho. Absoluta! Chica, não me digas que não ouviste falar disso, na comunicação e na explicação do simpático porta-voz? Na ausência de resposta, rematou: deu em tudo o que é noticiário, foi uma jogada inteligentíssima, de mestre, os outros partidos ainda estão em estado de choque. Com esta medida surpresa, a próxima eleição está no papo!
- Hum…e já fizeste bem as contas, vocês já fizeram bem as contas? – disse ela, voltando-se ligeiramente na cama e esticando o braço esquerdo em direcção ao interruptor do pequeno candeeiro cujo abajur vermelho escondia a lâmpada de energia verde renovável. Aos poucos, a escuridão em que o quarto estava mergulhado deu lugar a uma crescente luminosidade. Tens mesmo a certeza de que alguém fez bem as contas? Tens a noção da fama dessa malta, com anúncios e mais anúncios e mais anúncios…?
António levantou-se bruscamente e, sem responder, vestiu os calções do pijama, calçou os chinelos, pegou no copo com água que todos os dias levava para a sua mesinha de cabeceira e aonde sonhava, um dia, poder afogar a sua prometida dentadura postiça, bebeu um gole e saiu do quarto sem fechar a porta.
Quando voltou, pouco depois, trazia a máquina de calcular e duas bolachas; sentou-se na borda da cama e finalmente disse:
- Queres uma? A Maria estendeu a mão, sorriu agradecida e ele continuou: és mesmo do contra e desconfiada! Só porque são meus amigos tu hás-de estar sempre a embirrar com eles! Ora bem, supondo que o banco nos dá uma média de 3% de juros por ano, já vais ver a pipa de massa que ele terá quando fizer os dezoito anos.
A Maria sentou-se na cama para sacudir algumas migalhas da bolacha que se tinham espalhado pela almofada e pelo seu corpo nu e ficou à espera enquanto o marido, de costas voltadas para ela e a cabeça tombada sobre a máquina, prosseguia com os cálculos. O tempo passou – a Maria engomou uma dúzia de camisas e fez um apetitoso salame de chocolate – até que ele disse:
- Dá quase trezentos!
- Trezentos? Trezentos quê, perguntou a Maria, trezentos só de juros?
- Não – respondeu baixinho o António – trezentos tudo junto, os duzentos euros que o Sócrates dá pelo nascimento dum filho e mais os juros que ganhamos pelos dezoito anos que o dinheiro tem que ficar depositado, sem que a gente lhe possa mexer.
- Tanto? – ironizou ela. Ajoelhou-se, pôs-lhe as mãos nos ombros e, espreitando por cima da cabeça do António, ficou a olhar para os números no ecrã da máquina de calcular. Uma fortuna dessas daqui a dezoito anos? Tens a certeza que não te enganaste? António, envergonhado, atirou com a máquina de calcular para cima da cadeira aonde estavam as calças de ganga e a camisa de linho branca que vestira durante o dia, descalçou os chinelos, despiu os calções do pijama e deitou-se na cama, também ele nu, virado para a mulher, o cotovelo esquerdo espetado no colchão e a mão esquerda a apoiar a cabeça:
- Tenho e não, não me enganei! – balbuciou amuado.
A Maria, deitou-se de barriga para cima e, pensativa, pôs-se a brincar com o piercing que tinha no umbigo. Então perguntou:
- O que é que preferes: enfiar o preservativo ou tomar um duche de água gelada?

Virus II



Azar o vosso, desgraçados leitores!
Depois da alucinação da semana passada, muitos de vocês ficaram na esperança de que eu entretanto deixasse de respirar ou que fosse internado num hospício, enfiado num colete-de-forças e largado bem longe dum teclado.
Acontece que os hospícios precisam é de gente calma e tranquila, infelizmente todos eles disseram que estavam cheios, sem uma única vaga que fosse. A Maria, que tal como vocês também acha que lhe fazia bem pôr-me a saltar dum avião com um bruto rasgão no pára-quedas – estou a imaginá-la a olhar para o céu, a ver-me cair desamparado, a levar uma mão à boca, envergonhada e a dizer ooopppps, querido, esqueci-me de cozer aquilo – bem se fartou de chorar, implorar mas esta gente não tem sentimentos.
Deve ser um grande negócio este, tanto manicómio com a lotação esgotada mesmo com a crise do Sócrates que por aí vai, bem bom, quem me dera a mim gerir uma coisa destas! Isto se a minha cabeça funcionasse.
Ou então os responsáveis por aquelas chafaricas acharam que o mais acertado era fazer de contas que a lotação estava esgotada só porque, de vez em quando, dá-me para desatar a abrir muito os olhos, a encolher os ombros e a tremer os braços, pontapear bolas imaginarias e berrar como se estivesse a tomar banho à noite, todo nu, no pólo norte em plena noite de passagem de ano sem ter consumido uma única gota de álcool. Nada de grave mas parece que é embaraçante para quem tem uma relação familiar ou de proximidade comigo.
Não tendo ficado internado, lá terei que continuar com o relato da minha aventura à procura de gente infectada com o vírus dos porcos, dentro daquela furgoneta velha como eu sei lá o quê, um calor lá dentro que nem queiram saber, o único sitio fresco era um frigorifico minorca onde estavam guardadas as lamelas com as amostrar de sangue que iam para análise e aonde só dava para enfiar uma cabeça humana de cada vez.
Sabem o que é mais chato? É que, tantos sacrifícios que fiz e tantos perigos que corri e afinal não encontrei nem um só caso para amostra.
É quase tão frustrante como o crescimento da nossa economia: muitas promessas, muito alarido e depois, zás, é assim uma coisita ainda mais murchita e mais pindérica do que um girassol às duas e um quarto da manhã.
Vi porcos a espirrar, isso eu vi! Com o meu brio profissional cheguei-me tão perto deles que um acabou por espirrar mesmo em cima da minha tromba. Parecia o fim do mundo!
O pessoal entrou logo em alvoroço, a sirene a tocar como se as cuecas da motorista estivessem a arder, a velocidade nos limites do motor e da segurança, por pouco chegámos aos trinta e dois quilómetros por hora, um stress danado.
Grunhir ainda grunhi, mas a gripe não apanhei! Os exames ao sangue vieram perfeitos e limpinhos mas as autoridades competentes acharam por bem pôr o suíno de quarentena; também me pareceu um exagero tanto cuidado com o animal, afinal de contas a minha cabeçada não lhe acertou, acabei enfaixado junto ao tampão do depósito da gasolina, ainda tenho a marca na testa e os óculos no oculista. Se alguém precisava de cuidados era eu. Assim sendo, pode ser que vá mesmo de férias.