Monday, May 12, 2008

Incestos Públicos





Beber vinhos topo de gama sem os pagar é raro, provar vinhos topo de gama e cuspi-los em vez de os beber é ainda mais raro mas foi exactamente o que tive oportunidade de fazer num evento gastronómico que decorreu em Lisboa, numas instalações no Terreiro do Paço, perto do local onde tiraram o trono à monarquia.

Quem também por lá andou na mesma noite foi o actual presidente da Câmara de Lisboa, o socialista António Costa que, pela comparação das nossas barrigas, me bate por KO absoluto nestas empreitadas, embora, a julgar pelos avisos das minhas calças, não deva faltar muito para eu o apanhar.

O dinheiro que a edilidade a que ele preside deve aos quinze maiores credores – para aí uns cento e oitenta milhões de euros – dava para me governar, a mim e a mais todos os meus, durante as próximas décadas, desde que eu deixasse já de fumar porque, ao ritmo a que aumenta o imposto sobre o vicio, daqui a uns trinta anos aquela verba dará, quando muito, para dois ou três macitos. Os porquês da dívida global não são discutidos, presume-se portanto que não haja qualquer dúvida sobre a sua exigibilidade.

A coisa estava complicada para o autarca e seus compadres pois, desde a campanha para a eleição intercalar ocorrida no verão passado, ainda não tinha sido possível arranjar o guito, nem mesmo através de empréstimos bancários muito badalados e muito chumbados e, já se sabe, quando a corda se aperta no pescoço é cá uma sensação de falta de ar que até chateia; isto para não falar no que a autarquia deve aos patos pequenos, armados em comerciantes que, distraídos ou não, lá foram fiando o descalabro da municipalidade.
Mas uma minuta de acordo entre a câmara e os principais credores promete trazer alguma tranquilidade. A ser aprovado, resultará num perdão de juros de mora anual no valor de EUR 12 milhões e num plano de pagamento ao longo de não sei quantos anos.

O que dá mais vontade de chorar, de rir, ou de chorar a rir conforme o gosto de cada um, é o nome dos accionistas das empresas na lista desses grandes credores, dos 6 principais, e os respectivos valores:
SIMTEJO – EUR 26,7M (Único accionista: os portugueses, através da AdP – Águas de Portugal SGPS, SA, Municípios de Lisboa, Loures, Vila Franca de Xira, Amadora, Mafra e Odivelas;
EDP – EUR 22,7 milhões (Principal accionista; os portugueses, através de uma quota de cerca de 28%);
CGD – EUR 19,7 milhões (Único accionista: os portugueses, através do Estado);
EMEL – EUR 18 milhões (Único accionista: os portugueses, através da Câmara Municipal de Lisboa
EPUL – EUR 15,9 milhões (Único accionista: os portugueses, através da Câmara Municipal de Lisboa);
VALORSUL – EUR 13 milhões (Único accionista: os portugueses, através da Câmara Municipal de Amadora, da Câmara Municipal de Lisboa, da Câmara Municipal de Loures, da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, da Empresa Geral do Fomento, S.A. e da Parque Expo’98, S.A).

Tudo somado, só a estes credores, são cerca de 118 milhões de “aéreos” que a autarquia de Lisboa deve a empresas que criou e que lhe pertencem, ou que também pertencem a outras câmaras, ou que são empresas públicas (com excepção da EDP que ainda o é parcialmente); são, em todo o caso, empresas que vivem à custa dos nossos impostos e que se preparam para oferecer um perdão de juros de mora anual de doze milhões por ano, repito, de doze milhões por ano.

Teria o Zé dos Quintais, que também é dono destas empresas todas, o mesmo tratamento de luxo por atrasos, às vezes só de um dia, no pagamento de dezenas, de centenas ou de poucos milhares de “aéreos” dos seus impostos? Teria? Então não!
Parece aquela confusão criada no banco do jardim, com uns empréstimos esquisitos e perdões de juros um bocado fatelas a alguns dos seus donos e/ou familiares.
Dá gosto ser um espectador contribuinte destes, ou para estes, filmes eróticos! É cá uma excitação!

Monday, April 07, 2008

À vontade!



Ontem, sábado, eu e a Maria fomos dar um passeio de popó até Sesimbra, a capota aberta, pelo menos a Maria foi com os cabelos a esvoaçar ao vento já que eu, para evitar que as minhas guedelhas compridas me caiam para os olhos e impeçam uma boa e segura condução, sou sempre obrigado a usar boné. Fomos cedo, saímos de casa aí por volta da uma e meia da tarde, foi logo a seguir ao pequeno-almoço, somos assim, gostamos de sair cedo para termos tempo para desfrutar do sol que dá a luz e o calor ao dia.

Demos um salto ao Cabo Espichel, apreciámos aquela bela vista e umas obras que parecem ser de reconstrução das hospedarias para os peregrinos e depois fomos comer umas amêijoas – um espectáculo – num restaurante da vila, mesmo em frente ao mar, apreciámos os praticantes de vela e, como está na cartilha, falámos dos filhos dela, das novas preocupações que eles lhe causam, enfim coisas de galinha que vê os pintos que antes abrigou nas suas asas armados em galifões de capoeira. Porque é que eles não vieram, perguntei, ao que ela respondeu, ficaram a dormir, deixa lá!

Os filhos da Maria, que já quase não querem ir com ela a parte nenhuma, não sabem o precioso tempo que andam a desperdiçar teimando em ficar na cama até às duas ou três da tarde; eu já disse à Maria que aquilo não é saudável, que ela devia obrigá-los a deitar cedo e a cedo erguer porque dá saúde e aquelas cenas todas, mas ela é mole, sempre foi, não os castigou quando eles lhe chegavam à cintura e se agarravam às suas pernas e agora bem pode torcer a orelha que não sai sangue nem eles lhe obedecem.

Fosse comigo e outro galo cantaria, sim, que eu cá não vou em cantigas nem em falinhas mansas (só em época de eleições mas já ando em tratamento) e, se eu tivesse sido ou se fosse o responsável pela educação deles, podem ter a certeza de que os putos andavam ali na ordem, direitinhos que nem uns fusos, caminhas feitas e quartos arrumadinhos, a minha roupa sempre a salvo e engomada no meu armário e não toda amarrotada no chão ou nas gavetas dos armários deles.

Se há coisa que me irrita como eu sei lá o quê, é ter que andar armado em detective a investigar o paradeiro das minhas cuecas e ir encontrá-las no meio das coisas deles, muitas vezes por baixo das calças que eles trazem vestidas, calças sempre em risco de caírem pelas pernas abaixo!

Estou farto de dizer à Maria “Ó Maria, como os estafermos dos teus filhos andam sempre com as calças pelo meio do rabo, fazes-me um favor e compra-me só cuecas com desenhos pirosos, tipo corações, patinhos, ursinhos, o emblema do Benfica ou do Sporting, coisas assim muito foleiras, para ver se eles se envergonham e, ou passam a usar as calças bem presas na cintura, ou então só usam o material deles em vez de andarem a gamar o meu”. Acham que ela me liga? O tanas, ah e tal, coitaditos, os meninos depois ficam traumatizados, disfuncionais ou coisa do género e pronto, eu lá vou aguentando e sofrendo, o que é que se há-de fazer, não é? Santa paciência!

Há outra coisa ainda mais desagradável que, por ser íntima, eu até nem ia falar nela mas enfim, já que estou num daqueles dias em que me apetece desabafar, aqui vai: como eles são maiores do que eu, muito maiores do que eu, alargam-me aquela coisa toda e depois eu sinto-me assim…hum…coiso…muito solto, mas um solto assim para o desconfortável, estão a ver? É muito chato!

Tri(pas)!




Eu resisti, eu bem que lutei, juro, a sério que resisti e que lutei, mas a tentação foi mais forte, ganhou o marmanjo “da consciência má”, o diabo que sussurra à minha orelha esquerda, porque é lá, sempre à esquerda, que ficam os meus diabos, aqueles diabos que me obrigam a fazer coisas feias, coisas que, depois, estragam a minha vida e interferem com a vida dos outros; à minha outra orelha, é um anjo que sussurra, o anjo “da consciência boa”, que fica do meu lado direito.

O anjo está amuado e triste, fez a trouxa e abalou deixando-me aqui sentado à frente do meu computador, à mercê do esquerdista, que não pára de me azucrinar “vá lá minha grande besta, tu estás tão mortinho como eu para gozares com aqueles seis milhões e tal de portugueses por causa do tri, anda lá, casca-lhes, dá-lhes, salta-lhes para cima, não sejas mongo, sabe-se lá quando é que vais ter outra oportunidade igual!”.

Num derradeiro esforço de resistência, olho para o céu azul salpicado de nuvens, à procura, a ver se ele vem, se o anjo “da consciência boa” me acode, mas não, ele está ressentido, consigo vê-lo naquela nuvem pequena, ali, aquela à direita, toalha estendida, perna traçada, as mãos enlaçadas a servir de apoio à cabeça, óculos de sol, auscultadores nos ouvidos e as asinhas a dar a dar. Quando o sol se puser ele volta, acho eu.

Perdido que estou para o danado do esquerdista, as pupilas dilatadas e a boca distorcida por esgares irónicos, repletos de malvadez, que substituíram o sorriso humilde e tímido, então seja, pronto, está bem ganhaste, aqui vou eu, pé na tábua e prego a fundo, valha-me são Lisandro mais são Quaresma, vou comemorar a vitória do terceiro campeonato seguido, o tri do meu FCP, quando faltam ainda uma pipa de jogos para o fim, é mesmo sobre isso que vou, excepcionalmente, escrever.
Somos os maiores, somos uma nação, para o ano há mais, vamos a caminho do tetra, depois do penta e não continuo por aqui fora porque não sei como é que se escrevem as palavras para seis, sete, oito, nove ou dez vitórias consecutivas.

Para bem dos lampiões e dos lagartos e até para bem da competitividade no nosso futebol, melhor seria que, com início já no próximo ano, a nossa equipa começasse logo com menos uma dezena de pontos do que os outros todos; assim, talvez se conseguisse fazer de contas que a incerteza quanto ao vencedor se arrastasse até para aí umas três jornadas antes do fim.

Mas – hesito – será certo e justo inebriar-me pelos vapores do êxito, ir-me assim, tresloucado, para a reinação, gozando com tanta gente que eu conheço, gente importante e gente simples, gente rica e gente pobre, tantos amigos meus, tantos familiares meus, pergunto-me, será justo? Um dos filhos da minha Maria é lagarto, o outro é lampião, que raio de pai sou eu?

A estes meus nobres pensamentos, imobilizam-se as asinhas do meu anjo da “consciência boa”, o rosto virado para a terra, os óculos na ponta do nariz e os olhos fixos nos meus. Está expectante! Ele conhece-me, ele sabe que eu tenho alguma decência escondida algures numa parte recôndita do meu ser. Insisto, será certo, será justo eu ir achincalhar assim tanta gente, os meus dois queridos filhos incluídos?

Claro, carago! Olé…olé olé, olé, olé, olé…olé!

Pimba!


(carttoon de Mike Thompson)


Foram escolhidos pelos mesmos dois partidos os nossos ministros da educação dos últimos vinte e tal anos. Ou eram seus militantes ou seus simpatizantes e as suas siglas são PSD e PS, o S de socialismo como denominador comum, rosa avermelhado num caso e laranja no outro. Múltiplas experiências decorridas, temos o actual estatuto do aluno integrado no ensino obrigatório e inclusivo. Não sei qual dos dois partidos mais contribuiu. Conhecem-se – através de estatísticas, relatórios, etc. – os resultados e fazem-se comparações.

Sou culpado – por três vezes – através do meu voto, pela eleição dos que foram representar os interesses (de Portugal) do PSD; em minha casa, que eu saiba, não há culpados por aqueles que representaram os interesses (dos portugueses) do PS mas isso não me conforta. Como também não me conforta ter a noção de que este mesmo género de (laxismos) politicas foram e são aplicadas em muitos dos países da comunidade a que pertencemos, não sendo por isso um produto made in Portugal.

Presumo que também tenham sido escolhidos por esses partidos a maior parte dos milhares de (chulos) técnicos, assessores, etc., que por lá estão ou que por lá já passaram. Alguns dos que lá estão agora a (mamar) trabalhar deverão ser agora nomeados para mais uma comissão multidisciplinar, com o objectivo de (nos passar a mão pelo pêlo) explicar como é que tantos (sabichões) sábios conseguiram fazer tanta (merda) merda durante décadas de iluminados e sumptuosos gastos na deseducação dos nossos jovens.

A (energúmena) aluna do nono ano c do Carolina Michaëlis (já foi) pode vir a ser expulsa daquele estabelecimento de ensino devido ao seu furioso amor pelo (ensino) telemóvel.

A cena do que se passou naquela (cela do zoológico) sala de aula foi alegremente filmada e comentada por um (outro javardo) colega, devidamente aplaudida pela maioria dos outros (canalhas) colegas, dando-nos a oportunidade de verificar que a senhora ministra da educação (não) tinha razão quando, há uns meses, (confirmou) desvalorizou as denuncias do senhor PGR sobre a existência de um elevado número de agressões nas escolas portuguesas.

Parece que já no mês de Dezembro do ano passado uma outra (cavalgadura) aluna daquele antigo (circo) liceu da capital do norte tinha agredido uma professora tendo o rápido prolongado processo terminado na sua (expulsão) transferência para outro estabelecimento (estabelecimento esse para onde já era suposto transitar, por sua opção, mal findasse o ano lectivo). Os argumentos dos (treinadores) pais da (cavalgadura) aluna prevaleceram, aos olhos e aos ouvidos da DREN, sobre os argumentos da escola.

Na televisão, uma pedopsiquiatra disse que era preciso dar (um par de bofetadas no focinho) uma ajuda a estes (bandalhos) jovens e perceber os contextos não sei das quantas antes de mandar umas postas de pescada sobre a matéria.
Alguns educadores que ainda ousam (bater) utilizar as pastilhas de efeito rápido e de consumo imediato que trataram muitas das minhas febres e das alergias dos meus putos deverão ser internados para reeducação e compreensão dos dias de hoje.

Como o meu sentimento de culpa de voto se acentua a cada dia que passa devido ao acumular de evidentes maus resultados em múltiplas áreas, decidi que, para remissão destes meus pecados, (vou atirar-me da ponte abaixo) continuar a votar na mesma, só que em (tinto) branco até que novas ideias com mais liberdade individual, com mais rigor e com menos, muito menos estado, tenham rostos, nomes e organização.

Monday, March 17, 2008

Churrasco




Um amigo meu acaba de me dar uma pata de javali, o material vem limpinho e pronto para o tratamento culinário que se impõe, com excepção do pé do falecido que ainda traz o casco calçado como selo de garantia do produto. Está, da parte dele, cumprida a promessa, agora hei-de eu cumprir a minha.

A embrulhar a pata do bicho vinham algumas páginas de um dos jornais do regime, o semanário Expresso, a página da capa incluída e, da mistura das letras com o sangue da besta, sobressaiam em titulo as afirmações dum antigo dirigente centrista, arguido num processo que, em entrevista, afirmava ter entregue em 1989 dois mil contos a José Pacheco Pereira (JPP) para financiar uma campanha em Loures.

Aguçado o apetite pela carne e a curiosidade pela entrevista atirei-me – sôfrego – à leitura da dita, na busca das pistas para tão incriminatório titulo.
Espero bem que, ao malhar o bicho, não fique com o mesmo amargo de boca com que fiquei depois da leitura!
Ou tão “referente” jornal não publicou a totalidade da conversa ou então sou eu que – pató até dizer chega! – não consigo entender os porquês daquele título, supostamente seleccionando e atacando o peixe mais graúdo a ser alvo das acusações do entrevistado.
Presunto, perdão, presumo que sejam as minhas cada vez mais débeis capacidades mentais a não compreender a opção editorial e não uma mesquinha vingança do semanário (e do entrevistado) contra aquela que é, concorde-se com ela ou não, uma das mais independentes cabeças e uma das vozes mais incómodas que ainda restam no país politico e jornalístico, para aqueles que estão e para os que também querem instalar-se no bem-bom.
No meu miserável e absolutamente desnecessário ponto de vista, obviamente!

O acusado, no seu blogue o Abrupto, nega tudo e, através dum texto de Júlio Dinis, parte do qual eu transcrevo, retrata o caldinho preparado pelo Joãozinho das Perdizes (não, não sou eu, eu sou mais para o Joãozinho fogueteiro):

“…O morgado vinha, como já disse, à frente. (...) Atrás vinham os eleitores de Pinchões, velhos e moços, ricos e pobres, mas todos com o olhar tímido e estúpido, todos com movimentos enleados, todos com os olhos no caudilho, para saber o que deviam fazer; se ele parava a cumprimentar um amigo, paravam todos com ele; a direcção que tomava, tomavam-na todos a um tempo; apressavam ou demoravam o passo, segundo a velocidade que ele dava aos seus; se ria, sorriam; se praguejava, tudo ficava sério. O cortejo parou à porta da igreja. O morgado passou revista à sua tropa, à qual deu instruções. Os homens, com os cabelos para diante dos olhos, os braços estendidos e a cabeça baixa, não ousavam fazer um movimento e conservaram-se enfileirados até nova ordem do Sr. Joãozinho. Pareciam envergonhados de serem precisos a alguém. No bolso de cada um destes homens havia um oitavo de papel almaço dobrado, no qual estava escrito um nome; um nome de um homem que eles nem sabiam se existia no mundo. No momento devido, cada um deles, chamado pela voz do escrutinador eleitoral, respondia "presente" ; aproximar-se-ia da urna, entregaria ao presidente da mesa aquele papel e retirar-se-ia satisfeito, como se descarregado de um peso que o oprimia. Se lhes perguntassem o que tinham feito, qual o alcance daquele acto que acabavam de executar, não sabiam dizê-lo; se lhes perguntassem o nome do eleito para advogado dos seus interesses e defensor das sua liberdades, a mesma ignorância; se lhes propusessem a resignação do direito de votar, aceitariam com júbilo; se, finalmente, lhes dissessem que naquele dia estavam nas suas mãos e dos seus pares os destinos do país, abririam os olhos de espantados, ou sorririam com a desconfiança própria dos ignorantes.Inocente povo! Querem-te assim os ambiciosos, a quem serves de cómodo degrau.”

O que os ambiciosos, os instalados e os a instalar, querem fazer às (poucas) cabeças e vozes chatas, aqui personalizadas no JPP, é o que eu vou fazer ao javali: grelhá-lo e, à mesa com os meus amigos, comê-lo aos bocadinhos! Nham…nham…nham!

“P. S. – Quanto tempo esperarei até que uma das referências televisivas se digne falar sobre os sermões do “mentor espiritual” do senhor Barack Hussein Obama? Já estão, pelo menos, com semana e meia de atraso…”

Sunday, March 16, 2008

ASS



Com três letras apenas, independentemente do número das que compõem o seu nome próprio, se escreve a palavra Mãe. Esta simplificação é uma das principais ajudas que os putos têm quando, depois do nascimento, são largados às feras. Imagino como seria difícil o relacionamento se tivéssemos que chamar às nossas progenitoras “senhora-dona-maria-não-sei-das-quantas”! Com a palavra Mãe, que abrange, para aí, meio mundo, o assunto fica resolvido.

Facilitado assim o diálogo entre as duas partes, abrem-se alguns, e bons, anos de razoável relacionamento entre aqueles dois seres sendo desejável que os estafermozinhos tirem o maior partido dos ensinamentos que lhes vão sendo ministrados.

Esta mesma teoria pode também aplicar-se aos progenitores masculinos dos estafermozinhos que, de “senhor-dom-manuel-não-sei-dos-quantos” passam a Pai, outra simples palavra de três letras que abrange, para aí, o outro meio mundo.

É este mesmo critério que vou usar para, simplificando, não ter que dar muito ao dedo ao escrever sobre o ministro Augusto Santos Silva, o nosso ministro dos assuntos parlamentares e, daí, o título do meu texto, ASS, o conjunto das inicias que compõem o seu nome e que abrange eu sei lá que parte do mundo.

A cara do ASS é patusca e faz-me rir! ASS, durante a campanha eleitoral para a presidência da república disse que a eleição do actual presidente seria igual a um golpe de estado.
Por esta e por outras piadas, eu acho que o ASS é muito mais fedorento do que os gatos, quer dizer, acho que ele tem imensa piada, uma enorme queda para cómico, quase tanta como tinha (e ainda tem) o menino guerreiro, o tal menino que, de tanto sujar as fraldas de primeiro-ministro, não sobreviveu ao tempo da incubadora!
Ao contrário do nado morto, a quem bastava abrir a boca para logo entrar mosca acompanhada de bordoada mediática aos montes, ASS nasceu virado para a lua, nasceu com paio como se diz habitualmente. O menino guerreiro, esse, coitado, nasceu sampaio e por ele morreu.

ASS foi a Chaves e, como qualquer estremada mãe perante uma birra inoportuna do seu mal educado e mal habituado bebé, logo desancou nalguns populares que assobiaram e apuparam sua senhoria. Ò abrunhos, ouçam bem:
- ASS lutou contra o fascismo! Por isso:
- ASS é que tem moral!
- ASS distingue um democrata de um ditador!
- ASS é que é democrata!
- ASS é que sabe o que é bom para os outros!
- ASS é que é o último a calar-se!

Em resumo: ASS é socialista! ASS é mais, muito mais do que mãe e pai! A minha preciosa liberdade é devida ao ASS e aos seus socialistas amigos! A eles e a mais ninguém!

É ou não é um castiço? Ah, grande ASS!

Vénias

John Stillwell / EPA
Quando andava a estudar, uma das matérias de que eu mais gostava era da disciplina de história. Não tanto da história do tempo dos dinossauros, dos trogloditas mais as suas salas de jantar cheias de graffitis nas paredes e de outras velharias do género, mas dos acontecimentos mais recentes. Gostava especialmente da nossa história, dos nossos reis, das nossas heroínas e dos nossos heróis, das suas proezas e até das suas desgraças, sempre em pé de guerra na defesa dos seus ideais, dos seus interesses, das suas coisas.

Como quase todos os energúmenos do meu tempo, eu sabia de cor e salteado o nome e o cognome de cada um dos reis e as respectivas dinastias com excepção da última, da quarta, sobre a qual era, e continuo, um burro chapado.
Ainda hoje sou menino para me bater em duelo com qualquer um e recitar, de olhos abertos ou fechados, as três primeiras dinastias (só não desafio a minha Mãe porque ela teima em não se esquecer do que aprendeu no século passado).

Havia os actores principais, muitos, e os secundários, poucos, mais raros. O meu actor secundário preferido era o porta-bandeira na batalha do Toro, aquele bravo e desempoeirado alferes que, sem braços, se manteve firme e hirto em cima do cavalo com a bandeira sempre levantada, bem presa pelos dentes. Na altura nem sequer me passou pela mona que aquilo era publicidade enganosa já que, com os braços decepados e a esvair-se em sangue ainda vá, sim, ainda acredito que o gajo se aguentasse, agora conseguir aguentar a bandeira com os dentes numa época em que ainda não havia o pepsodente, o flúor nem a super cola 3, não, eu isso, hoje, já não engulo. Já a padeira de Aljubarrota nunca me disse nada, não só porque os mortos não falam mas também porque, em vez de a terem descrito como a Brigite Bardot do pastel de Belém, passou para o meu livro de história como uma gorduchona desgrenhada e pouco limpa.

Dos actores principais, o meu preferido era (ainda é!) o mestre de Avis, o D. João I, porque eu tenho o mesmo nome que Sua Alteza tinha, porque deu uma trepa das antigas nos castelhanos e porque, do seu casamento com uma duquesa inglesa, teve um conjunto de filhos com muita pinta, ninhada que ficou célebre na nossa história.

Hoje, republicano ferrenho, tenho muito pouca simpatia pelas realezas que ainda sobrevivem e que, na minha opinião, para pouco mais servem do que para ocupar as páginas dos mexericos e da imprensa cor-de-rosa.

Porém, respeitosamente me curvo perante o príncipe Harry, o filho mais novo da falecida princesa Diana – aquela baby que foi para a cama com a cara do Carlos sem apanhar urticária – e o terceiro na linha de sucessão ao trono inglês.

O jovem príncipe esteve, por ser esse o seu desejo, durante dois meses e meio no Afeganistão a ajudar na guerra contra os talibans, um dos grupelhos que quer mandar a nossa civilização de volta aos tempos do meu mestre de Avis, quando a liberdade, a dignidade do individuo e a democracia ainda não eram o núcleo dos valores que, penso eu, hoje, nos une.

Thank you Sir!

Monday, February 25, 2008

Espelho meu





Mergulhei numa espécie de mala que tenho no sótão da minha casa onde guardo coisas antigas e, cedo, fiquei como o céu, lavado em lágrimas.

Em muitas das fotografias que, em dias de arrumação e limpeza, lá armazenei, vi a cara dum castiço muito parecido comigo mas com mais cabelo, menos peso e a pele menos amarrotada do que a roupa. Tenho quase a certeza de o ter conhecido bem mas, assim de repente, escapam-se-me muitas das coisas que nos devem ter ligado. Estafermo de fotografias, é incrível o que elas mudaram desde os anos sessenta.

Nem só de fotografias vive aquela espécie de mala: cadernos e material escolar dos putos, prendas que fui recebendo no dia do Pai, clips, um apara-lápis, uma fisga, agendas e recortes de jornais, vários, com várias notícias, notícias da mesma época das fotografias. Para meu espanto, também elas mudadas:

“A maioria do povo português cubano está triste com a despedida do seu ditador presidente, cujo anúncio foi feito através do jornal da União Nacional do partido comunista cubano na passada semana.

Vítima de doença, o ditador Salazar el comandante Fidel foi obrigado sabiamente entendeu que era a hora de devolver o poder ao povo transferir o poder para o seu irmão Raul.

Salazar Fidel teve sempre, enquanto governante, enorme apoio por parte dos portugueses cubanos, do povo mais simples a intelectuais e artistas, facto que explica a longevidade da sua carreira à frente dos destinos políticos do país. Devido a um tão grande período de governação, poder-se-á mesmo dizer que quase três quartos dos portugueses cubanos não conheceram outro líder durante as suas vidas.

Salazar Fidel sobreviveu a sete nove presidentes americanos, governou com mão de ferro e impôs um corporativismo de estado autoritário, de inspiração fascista comunista, prosseguindo numa linha de acção económica nacionalista assente numa sociedade auto-suficiente, incapaz de produzir tudo o que necessita.

Centenas de milhar de portugueses cubanos fugiram do seu país a salto em embarcações precárias, com risco das suas vidas, em busca de novas oportunidades noutros países especialmente na França nos Estados Unidos onde hoje se existe uma enorme comunidade nacional.

Embora haja relatos de que muitos exilados portugueses cubanos tenham celebrado no estrangeiro esta anunciada mudança, nas ruas de Lisboa Havana não houve protestos nem pedidos para alteração das políticas actuais onde reina a calma, a tranquilidade e um sentimento de esperança enorme perda.

Vários líderes europeus e o presidente americano expressaram a esperança de que com a saída de Salazar Fidel possa, rapidamente, haver eleições livres e limpas num dos mais atrasados e pobres países da Europa América central”.

Estava a brincar! Mudei eu e os jornalistas, não as fotografias ou as notícias.

Monday, February 18, 2008

Detalhes


(foto de http://space.newscientist.com)
Um míssil, disparado de um dos seus navios de guerra, é a arma que os americanos vão usar para tentar escaqueirar um satélite espião, novinho em folha, lançado há pouco mais de um ano e que pertence a uma unidade do exército que se entretém a espiolhar o mundo lá das alturas.

O bicho está em queda descontrolada rumo à casa mãe e apesar de (ainda) não haver nenhum marmanjo a queixar-se de lesões na mona provocada pela queda de destroços espaciais desde que, há para aí uns cinquenta anos, foi lançado o Sputinik, os cientistas e os militares dizem que optaram pela sua destruição por temerem que algum dos milhares de elementos que o compõem possa aguentar a reentrada na nossa atmosfera e, pimba!, aterrar na cachimónia dum benfiquista ou sportinguista, terráqueos sobejamente conhecidos por terem um galo do caraças.
A maior preocupação, dizem eles, é com um depósito, altamente resistente, que está cheio de combustível, um produto altamente tóxico, capaz de por a pele de qualquer um a pender para o azul.

Pela inexistência de feridos devido a acidentes com esse tipos de destroços é que há muita e boa gente que acha que os caramelos têm é medo de que o bicho, carregadinho de tecnologia supostamente secreta, caia em propriedade alheia, em terrenos trabalhados por outras mãos, para quem essa dádiva dos céus cairia que nem ginjas.
Há também quem jure que esta decisão é uma mensagem para outras potências do globo, uma mera desculpa para testar novas armas no tiro ao alvo real, ou uma forma do primeiro-ministro Sócrates desviar as atenções dos seus achaques com jornalista do jornal Publico, o tal de Cerejo.

O Jornal de Tondela, graças aos seus espiões junto das mais altas esferas do poder internacional está, na procura de mais um exclusivo mundial, a analisar todas as comunicações de e para Portugal, de modo a poder confirmar ou desmentir o rumor sobre a interferência, neste assunto, do nosso governante.
Para os invejosos do sucesso do nosso pequenito, mas influente, jornal regional, adianto já que, nesta investigação, só estamos a usar o dinheiro da mulher do senhor director e desminto as absurdas, patéticas e ridículas acusações de que as couves, os grelos, as batatas, as cenouras, os ovos e os patos nos foram oferecidos pelo senhor engenheiro Belmiro de Azevedo, coitado, ainda tão chateado por causa daquela opa.

Ah, falta dizer que quer os pais biológicos – os militares – quer os pais de coração – os cientistas – entenderam-se e, em sintonia, atribuem o falhanço desta caríssima empreitada à falta de comunicação entre pais e filho – a NASA, o exército e o bicho – falta de comunicação essa que impossibilitou que o filho fizesse uso dos muitos recursos alternativos que os pais, previdentes, lhe incutiram.

Aviso já que a atribuição de um suposto qualquer grande significado filosófico à minha afirmação anterior não corresponde minimamente à verdade, trata-se apenas de transmitir correctamente um facto jornalístico, embora, mesmo já não sendo novinhos em folha, seja minha intenção esfregar a tromba dos meus filhos com a folha de papel onde vou imprimir este texto, quanto mais não seja para lhes borrar a cara.

Monday, February 04, 2008

Banalidades




Numa reunião de amigos, discutimos o que tínhamos ouvido num telejornal do canal um da televisão do estado, os detalhes da nova investida do jornal Publico contra o nosso primeiro-ministro, impressos nas suas edições de sexta e sábado.

Paródia digna do período de Carnaval em que estamos, pede-nos o number one que deixemos os senhores políticos descansar, daqui a pouco entramos na Quaresma e então veremos se a procissão se fica mesmo pelo adro ou se vai mais além, passear para as ruas da povoação.

A investida terá começado com base em declarações de um antigo autarca socialista que, no verão passado, aos microfones de uma rádio local, terá posto a boca no trombone, levantado alguma suspeição sobre a actividade profissional do nosso PM enquanto engenheiro.

Ao que parece, o senhor Pinto de Sousa terá assinado muitos projectos na Guarda, ao longo da década de 80, cuja autoria, alguns dos donos das obras, garantem não ser dele. Parece também que, nalguns casos, esses documentos eram manuscritos com a letra de um outro senhor, um amigo, colega de curso e que, sendo funcionário do município, não podia assumir a autoria de projectos na área do concelho. O jornal adianta ainda que ele terá também acumulado subsídio de exclusividade como deputado com funções privadas enquanto engenheiro técnico.

Cada lado esgrimiu os seus argumentos, cada um defendeu a sua dama; os que estavam do lado do engenheiro protestaram contra o facto dos jornalistas perderem tempo com pormenores e detalhes antigos, coisas banais, triviais, normais e que toda a gente sempre fez, faz e, calhando, continuará a fazer.

O outro lado, pé na tábua e prego a fundo, foi coleccionando argumentos contrários, alguns suportados em opiniões como a do Augusto Guedes (presidente da Associação Nacional de Engenheiros Técnicos (ANET)) que defende que “a assinatura de favor é uma fraude que devia ser criminalizada, porque quem assina um projecto que não elaborou está a subverter todas as regras da Engenharia e da Arquitectura e a pôr em causa a segurança dos cidadãos além de promover uma clara concorrência desleal”.

Eu, que normalmente fico calado nestas questões porque me recuso a falar com gente que defende os seus argumentos com decibéis, fiquei a pensar, enquanto esfumaçava mais um cigarrito que, no Quénia, por exemplo, esfolar um membro de uma tribo diferente, à vista de toda a gente, pode, ainda hoje, continuar a ser normal mas tenho algumas duvidas de que esteja certo.

Não deixa de ser irónico que, tendo o senhor Pinto de Sousa queda, jeito e feitio para engendrar e fomentar umas espécies de totalitarismos, com as suas ASAE’s, a lei anti tabaco, a publicação de listas mais o incentivo à bufaria nacional, fique agora todo enxofrado por andar por aí um jornal a investigar e a publicitar quando a bota não bate com a perdigota. Homem, você não é o Bush, aquele americano burro, a quem todo o mundo goza sem freio, não, você é um verdadeiro democrata, não se fique, vá, mande a sua ERC dar-lhes (ainda mais) no pelo!

Num exclusivo mundial, sei que houve tremendas pressões da UNESCO sobre o Público para que não fossem reveladas as fotografias das belas obras de arte assinadas pelo engenheiro por se temer que, ficando o mundo a conhece-las, todas as actuais candidaturas a património mundial da humanidade ficassem prejudicadas e fossem relegadas para terceiro plano. A sério, pá

Monday, January 21, 2008

Sotaques





Vendo terreno na Ota, óptima localização, água a dar com um pau e muito sol quando não chove.
Por razões de índole particular, tenho muita urgência na transacção, vendo a um preço muito barato e dou, como bónus, um cromo do Eusébio devidamente assinado (por mim) e o álbum “ó tempo volta para trás”, em vinil e em razoável estado de conservação (as duas metades do disco, se bem coladas, ainda fazem uma circunferência completa).
Ou então troco-o por qualquer coisinha no deserto do outro lado do Tejo. O que for mais rápido.

Os meus amigos bem me avisaram, a Maria zangou-se, durante três segundos não abriu a boca, mas eu não lhes dei ouvidos, sou teimoso que nem o Sócrates, e enterrei-me que nem um nabo naqueles doze metros quadrados, na esperança de que lá calhasse um balcão de “check-in” do (prometido) novo aeroporto ou, no mínimo, um WC para homens (se fosse um para mulheres não precisava de tanta terra, os delas são sempre mais pequenos, basta ver as bichas que elas fazem sempre que querem... vocês sabem... não é preciso fazer nenhum desenho, pois não?).

Eu devia ter desconfiado quando houve aquela algazarra toda com o diploma do nosso primeiro e foi publicada a cópia do seu exame escrito final da cadeira de inglês técnico; devia ter ficado em alerta vermelho quando o ouvi a falar em inglês na visita à Casa Branca e durante a presidência portuguesa. Além de crente e distraído, também nunca me passou pela cabeça que o ministro das obras públicas tivesse o mesmo grau de problemas, problemas de pronúncia, no francês. E estes erros de interpretação, pagam-se caros!

Se eu tivesse sido o único a interpretar mal o que o homem disse a propósito de “jamé, jamé, jamé” construir um aeroporto no deserto que é o lado sul do Tejo estaria a sentir-me pior do que estou; estou, felizmente, acompanhado por milhões de portugueses que pensaram que ele estava a dizer que construir o novo aeroporto do outro lado “nunca, nunca, nunca”.

Como estávamos todos enganados e que burro que eu sou! O homem quis dizer foi que “aeroporto do outro lado, no deserto, jémé, jémé, jémé” ou em francês de poesia “j´aimais, j´amais, j´aimais”.

Uma fonte que ainda fuma, próxima de mim e dos corredores do governo e que não se quis identificar por questões de saúde, contactou-me no sentido de me informar que a expressão em francês utilizada pelo senhor ministro e a sua posterior interpretação publicas tinham sido propositadamente encriptadas, a pedido do senhor Almeida Santos, para que os terroristas não ficassem a saber a verdadeira localização da nova infra-estrutura e da ponte que a vai ligar à capital, caso contrário correr-se-ia o risco de atentado.

Agora percebo porque é que o senhor ministro ainda lá está. Aposto que o senhor governador do banco de Portugal também deve ter alguma explicação deste género para explicar a sua distracção e, aparente, incompetência.

Hábitos


Então, o fim do ano, foi bom? Portaram-se bem e entraram no novo ano com o pé esquerdo bem levantado, comeram, sem se engasgar, as doze passas ao som das doze badaladas do sino que tocava na televisão mais próxima e juraram que – desta vez é que é – vão mesmo ser melhores, mais perfeitos, mais gordos e mais bonitos? Lindos meninos e lindas meninas! Sim senhor!

É, eu também sou assim, também minto muito! Das milhares de promessas e desejos que faço e peço em todas as passagens de ano enquanto espero que o gongo pare de me azucrinar os tímpanos para eu poder ir à minha vida e emborcar a minha primeira taça de champanhe do novo ano, só duas é que verdadeiramente têm uma taxa de sucesso bastante razoável, quase com tanto sucesso – modéstia à parte – como as reformas do estado e da administração publica feitas pelo nosso governo: vou acordando vivo, inteiro e sem mazelas graves como desejo e vou progressiva, mas firmemente, a caminho da perfeição na preguiça como prometo. Quanto ao resto, népia!

Prometi acabar com algumas rotinas e alguns hábitos de longa data. Um deles, a conselho do meu fisioterapeuta, é deixar de dar o pontapé diário na minha Maria mal acordo. Ela grita, portanto também está viva e eu fico logo mais relaxado! Diz ele, o fisioterapeuta, que a nódoa negra e a dor no dedo grande do meu pé esquerdo terão tendência a desaparecer. Vou experimentar, é bem capaz de ser verdade porque, quando aqui há tempos ela se refugiou num hospital para poli traumatizados durante duas semanas, eu melhorei bastante, já não tinha dores e até consegui andar o dia todo com os sapatos novos calçados sem andar torto.
Ele prometeu-me que ia investigar e ver se descobria outras formas de eu me certificar que a Maria acordava viva sem necessidade de me aleijar tanto. Não acredito que haja, mas enfim, não lho quis dizer logo porque, como um bom candidato, preciso dele e não quero ser frontal, não vá ele pensar que eu não o tenho em boa conta.

Porém, não quero elevar muito as expectativas da Maria porque depois, se não conseguir cumprir a minha promessa, vou ficar muito desapontado, arrisco-me a ficar tão deprimido como aqueles senhores que pensavam que viviam num regime de economia livre de mercado e acabaram recentemente atropelados pelo rolo compressor do estado empresa socialista, a propósito da oferta publica de aquisição do BCP.

Na sua coluna dominical no Público, a que deu o nome de “PS, SA”, o professor António Barreto, que os conhece de ginjeira, escreveu: “A sua penetração no mundo do dinheiro tem vindo a crescer, no que está a seguir a via inaugurada pelo PSD. Como é evidente, tal actuação é formalmente apresentada como uma prerrogativa do Governo, um dever cumprido no interesse nacional. Acreditemos ou não nessa versão, a verdade é que o PS está hoje directamente envolvido, através dos seus amigos, antigos dirigentes, filiados, sócios, simpatizantes e antigos governantes, em vários sectores da economia, banca, dos petróleos, da televisão, das telecomunicações, das redes de electricidade e gás e outros”.

Mas a quem é que eu quero enganar com os desejos que formulo e com as promessas de mudança a que me proponho a cada ano que começa? Um bom 2008 para vocês também!

Monday, January 07, 2008

Conspirações




“…Não sei se Sócrates é fascista. Não me parece, mas, sinceramente, não sei…O que ele não suporta é a independência dos outros, das pessoas, das organizações, das empresas, das instituições…(…)O primeiro-ministro José Sócrates é a mais séria ameaça contra a liberdade, contra a autonomia das iniciativas privadas e contra a independência pessoal que Portugal conheceu nas ultimas três décadas…temos de reconhecer: tão inquietante quanto esta tendência insaciável para o despotismo e a concentração de poder é a falta de reacção dos cidadãos. Será anestesia? Resignação? Acordo? Só se for medo…”.

A sorte do senhor que escreveu isto, e já agora a nossa, é que vamos ter mais um canal de televisão, mais um canal generalista, parece que vai começar a emitir algures durante o ano que vem, segundo nos informou, na semana que passou, o ministro SS (não confundir com a sigla da segurança social). Este novo canal, aposto, tudo há-de fazer para desmentir o autor do texto que citei acima, o concurso há-de ser ganho por gente com eles, gente sem medo, sem influencia politica nem dependência económica do governo e do estado português, investidores do planeta Plutão.

Como provável premiado, logo após o anuncio, um de dois potenciais concorrentes: o grupo dos Oliveirinhas ou o grupo Cofina.
Sobre a independência do primeiro em relação a quem manda, constatado pelo posicionamento, horizontal, dos seus dois jornais de referência, o JN e o DN, estamos conversados, acho que já nem mesmo quem acredita no pai natal deve ter dúvidas mas, anjinhos, com barrete, asas e tudo, ainda os há, portanto, se for esse o seu caso, não desespere, não está só.

Quanto ao segundo, ao grupo Cofina, a coisa apresenta-se um pouco mais complexa, os accionistas do grupo, além da forte presença no sector de media, têm também uma grande actividade industrial (pasta, papel, aços e sistemas de armazenagem) através de outra empresa, a Altri, também ela cotada na nossa bolsa. A Cofina, domina o mercado de publicidade, algumas das suas publicações são líderes destacados no segmento da imprensa escrita e escreve lá muita boa gente que, assumidamente, tem alergia ao açaime.

Coincidência ou não, no passado dia dois, um dia antes do anúncio publico do ministro SS, o nosso banco, a Caixa Geral de Depósitos, através da Caixagest, aumentou a sua participação na dita Cofina, detendo agora um pouco mais de dois por cento, participação que lhe dá uma posição qualificada, permitindo-lhe, para já, meter o bedelho.
Até ao resultado final do concurso se verá em que quantidade e de que modo vai ser administrada ao vencedor a dose necessária de respeitinho-que-é-preciso-teres-senão-não-comes!

Se o autor das tais frases que eu citei no começo do meu texto tiver razão naquilo que escreveu, estamos feitos ao bife e o melhor é emigrarmos para um país seguro, tranquilo, rico e amante da paz, como o Irão, Cuba ou a Venezuela.
Ah, antes que me esqueça: o autor é, mais uma vez, o socialista António Barreto, na sua crónica de domingo no jornal Público.

Tuesday, December 18, 2007

Brrrrrrrrrrrrrrrr!




Está aqui um frio danado, mesmo com dois aquecedores à minha volta e uma catrefada de roupa vestida não consigo aquecer. É suposto estar frio na época natalícia mas também não era preciso exagerar. Quatro graus de temperatura mínima previstos para a capital é o melhor convite (e pretexto) para eu ficar na cama o dia todo, mais ou menos como fazem os ursos, esses sim é que são espertos, dormem durante todo o Inverno e só acordam quando já se pode andar de tanga.

Por falar em tanga, entreguei, há minutos – voluntariamente forçado – a terceira prestação por conta da minha prendinha do ano que vem, ao senhor fisco, aquele monstro que tem uma carantonha muito, muito feia, igual à do gigante Adamastor, o brutamontes barbudo, sujo e malcheiroso que também assombrava os homens que tentavam, desafiando os ventos e as marés, dobrar um cabo de boa esperança. Eu, que sou tão ou mais curioso que os gajos do banco de Portugal quanto a tudo o que se passa nos nossos bancos, nomeadamente no BCP, roo-me todo para ver se adivinho o que vou receber em troca!

Felizmente há uma prenda que o estado me vai dar para o ano que vem e que vai contrabalançar estas mexidas, descaradas, no meu bolso.
Nem toda a gente se pode gabar de conseguir prever acontecimentos futuros mas eu consigo, tal como o professor Karamba-às-vezes-nem-sei-como-calha-mas-acerto. Não, por acaso não é só uma, por acaso eu até já sei duas das prendas que vou receber: uma é mais um (uuuaaaahhh, longo bocejo de monotonia!) título de campeão nacional para o meu clubezito e a outra, a tal de que falava atrás, é a nova lei anti tabaco.

A partir do primeiro dia do próximo ano vou deixar de gastar dinheiro em almoçaradas ou jantaradas em restaurantes. Não posso fumar? Então não vou! Como e bebo em casa!
Ou então recheio um taparuére com torresmos, pastéis de bacalhau, enchidos, azeitonas, carcaças, um garrafãozito de tinto – copos não que o plástico estraga o ambiente – e esfumaço até vir a mulher da fava rica ou até se lembrarem de inventar uma porcaria qualquer grave na camada do ozono, ou no recheio do taparuére, por minha culpa.
Ao menos consolo-me a pensar na massa que vou poupar só nos “couverts”, que na maior parte das vezes vão quase inteirinhos para trás, poupança que vai dar e sobrar para fazer face ao aumento do preço de cada maço; como dizia um antigo primeiro-ministro, o primeiro dos que fugiram por causa do nosso pântano, é só fazer as contas: para um aumento de, vá, trinta cêntimos por maço, fumando eu meio maço por dia, ora deixa lá ver, dá-me um aumento de despesa de cinquenta e quatro euros por ano. Isto dá para aí quantos “couverts”, por ano e por pessoa? Dez? Doze? É nas calmas! Sem contar no que poupo nas gorjas!
Interessante vai ser a solução para as prisões: os governantes têm que proibir o tabaco mas querem dar seringas para injectar um substituto nos viciados noutras substâncias (menos perigosas, suponho!). Os agarrados do tabaco vão ser discriminados ou também vão, como os outros agarrados, ter direito a uma regalia especial? Ainda vão ver que um gajo, para poder fumar à vontade, num espaço público, pequeno, fechado e sem ventilação, tem que ir dentro.

Mas pronto, é Natal, não vale a pena falar de coisas tristes, se tem que haver frio então que haja, se não se pode fumar que se dane, manda quem pode e obedece quem deve, tenham umas Festas felizes e, cuidado, muito cuidado com o que comem!

A máquina do tempo



112 Lexington Avenue, Bridgeport, USA.

Esta não é uma morada ao calha. Esta é a morada, cujo passado eu andei a investigar durante este fim-de-semana, aproveitando as maravilhas da tecnologia, confortavelmente sentado na minha cadeira e em frente ao meu computador, sem vontade para sair de casa por causa da confusão da cimeira.
Ali, há quase cem anos, a 28 ou 29 de Junho de 1917, o Ezequiel e o Custódio terão dado um abraço, um abraço apertado, umas quantas palmadas nas costas, sorrisos largos, o Custódio disse "estás com bom aspecto, primo, as gringas tratam-te bem!", e o Ezequiel retorquiu "e tu, deste-te bem lá pelas terras do Brasil?". Devem ter morto as saudades, partilhado esperanças e brindado a um futuro melhor. Não consta que tenham ressonado apesar da quantidade de bebida ingerida.
O Custódio Marques tinha chegado ao porto de Nova Iorque, no navio "Vauban" vindo do Brasil, via Buenos Aires. Às autoridades aduaneiras, disse ter 23 anos e a fortuna de 10 dólares, de ter sido ele a pagar a sua viagem e que ia para a casa do primo Ezequiel Henriques. Vinha para trabalhar mas fazia tenção de regressar para o seu país de origem. As autoridades registaram-no como física e mentalmente são, capaz de ler e escrever, sem cicatrizes ou marcas especiais, de olhos castanhos e cabelos pretos.
No mesmo navio vieram, de Santa Comba, o João Almeida, com 24 anos e 32 dólares e o Augusto Leonardo, de 22 anos e com 35 dólares, mas foram para outras paragens.
Em Setembro do ano seguinte, no dia 12, o Custódio foi obrigado a ir à inspecção militar. Apesar da primeira grande guerra se aproximar do fim os americanos queriam toda a gente alistada.
No cartão de registo, o Custódio escreveu que tinha nascido a 25 de Agosto de 1893, que era operário na Remington Arms Co. de Bridgeport, uma empresa de fabrico de armas e munições, e assinou-o declarando que tudo aquilo era verdade. As autoridades atestaram que o meu avô não tinha perdido nenhum braço, perna, mão ou olho, não estando obviamente desqualificado para o serviço. Na história da Remington, este dia ficou marcado por uma missa em comemoração do fabrico do ultimo rifle dum grande contrato com o exército dos EUA, a que compareceram, entre importantes figuras do exército e da marinha, mais de 14,000 dos seus empregados.
Diz o ditado, e é verdade, que quando vai um português vão logo dois ou três! A dada altura, naquela morada terão habitado o Custódio, o Ezequiel, o Moyses Mattos Affonso, o Júlio Reis e o José Henriques. Outros mais se juntariam:
O Roberto Ventura, filho de Manuel M. Ventura, que chegou no dia 18 de Fevereiro de 1920 no navio "Britannia", com 22 anos e 50 dólares; com ele vieram também o Sabino de Matos e o Alberto Mattos Almeida.
No dia 5 de Outubro de 1920 atracou no porto de Nova Iorque o navio "Providence". Um dos passageiros era o Joaquim Ventura, agricultor, que vinha para casa do irmão Custódio. Declarou 20 anos e 20 dólares, que não era nem polígamo, anarquista nem aprovava o uso de força para derrubar o governo americano e não sabia quanto tempo ia ficar. As autoridades consideraram-no mental e fisicamente são e sem quaisquer deformações. Com ele vieram o Joaquim Marques Matos de 28 anos e o Manuel Antunes de 38, com 30 dólares cada um.
Aos habitantes do 112 da Lexington avenue em Bridgeport, Connecticut, as autoridades americanas chamaram Tourigo Boys e, durante anos, mantiveram uma apertada vigilância.

Tuesday, November 27, 2007

Xaropes

(Única, 09.06.2007)


Vá lá, todos quietinhos agora, toca a olhar para o passarinho… isso… só mais um bocadinho!
Não, não, não, não, assim não! Ou ficam quietos e se juntam o mais possível uns aos outros ou então não saímos daqui hoje!
É só mais um instante e vocês, os adultos, podiam muito bem dar o exemplo! Tira a mão do nariz, não, não és tu, é o teu irmão. Santa paciência, mas o que é aquele matulão está ali a fazer à frente? Eh pá, mas eu já não te tinha dito que os mais altos têm que ficar na fila de trás? Tirem-me o cão daí! Ó filha põe as saias para baixo!
Olhem, sabem que mais: desisto! Estou farto de vos aturar, vão todos para o diabo que vos carregue!

Qualquer infeliz a quem tenham impingido uma máquina fotográfica com o objectivo de conseguir, para a posteridade, uma fotografia de família, fica automaticamente proibido de ir medir a tensão arterial nos dias seguintes. Até desabafos com a sua cara-metade são contraproducentes a uma razoável sanidade mental e física do desgraçado.
Podem, e devem, ser pensados mas são absolutamente interditos a qualquer tipo de verbalização, lamentos como “a tua irmã, além de estar muito mais gorda, está mais parva” ou “os ranhosos dos teus sobrinhos, os filhos do Anacleto, são uns maricas, sempre agarrados às saias da mãe, aquela insonsa” ou ainda “mas o que é que passou pela cabeça do estafermo do teu pai para ele autorizar o nosso casamento?”
Embora eu não tenha conhecimentos pessoais sobre o que estou a escrever, asseguro-vos que tudo isto deve ser verdade.

Recordei-me disto por causa da seguinte notícia que ouvi, neste fim-de-semana, num noticiário de uma estação de rádio: “Em entrevista ao DN (diário de notícias) Mário Soares acha que o PS devia chegar-se um bocadinho mais à esquerda”.
Se é o DN que o diz, então é porque o senhor deve ter mesmo dito aquilo, o jornal é unha e carne com essa gente, mais ou menos assim como os coisos do senhor padre Inácio, sempre juntinhos, nunca vi uns irmãos gémeos tão chegados como aqueles.

Como não tinha tempo nenhum para desperdiçar, não fui ler a entrevista e fiquei-me pelo título, mas imaginei-me logo no papel de fotógrafo do nosso antigo presidente (agora um velho e grande amigo desse exemplo vivo de democrata que é o actual presidente venezuelano) e de mais uns quantos elementos do agrupamento socialista, numa qualquer escadaria de um qualquer edifício público, eu a quere-los mais para a direita, ele a puxar pela manga do casaco do nosso primeiro e a dizer “bem, ó José, homem, aí aonde estás arriscas-te a não ficar bem na fotografia; chega-te mas é mais para aqui, mais para a esquerda, isso, só um bocadinho, aqui para o pé de mim, do frei Anacleto e do Huguinho do petróleo. Vais ver como aqui se fica muito mais aconchegado”.

A minha vesícula, desde que imaginei a cena, entrou em polvorosa e, desde então, ando enjoado e mal disposto! Há-de passar. Que remédio! E sem lamentos!

Disparates



Hoje vou chatear os anti-americanos! Também não é preciso muito para os pôr em órbita, basta sussurrar-lhes o nome do actual presidente e é vê-los em brasa, a espumar e a trepar pelas paredes acima, de cabeça perdida, completamente descontrolados.

Mais ou menos como eu estou com os resultados do meu FCP, que agora deu para andar armado em empata, o que me obriga a aturar umas estupidamente grandes doses de gozo por parte dos meus amigos lampiões que até já se dão ao luxo de dizer que, este ano, vão ganhar não sei bem o quê. Como eles pensam que são muitos, não sei quantos milhões, é quase um delírio colectivo que nos ameaça. Felizmente que a azia tem obrigado os lagartos a ficar em casa, de repouso, porque senão eu só podia sair à rua disfarçado, de burca enfiada pela cabeça abaixo. Viver na capital e ser dragão é obra quando a coisa nos corre mal. Felizmente é raro, mas quando acontece, nem vos digo nem vos conto, é preciso ter cá um jogo de cintura…!

Pertenço, já perceberam, ao reduzido bando de idiotas mentais – a última vez que contei éramos doze – que acumula ser dragão com ser pró-americano. Combinação mais desmiolada do que esta, de momento não me ocorre e duvido que seja fácil de encontrar. Pelo menos neste velho continente cheio de história e que se chama Europa.

Vejam bem que eu até acho que o nosso mundo ocidental, o nosso mundo de conforto e paz, deveria agradecer, e muito, aos soldados americanos, incluindo os que agora estão a dar o coiro no Iraque. Isto é mesmo doentio não é? Depois, quando fizer algum acto ainda mais tresloucado, não digam que não tinha dado pistas suficientes para que me internassem a tempo.

Sei que estou só neste sentimento mas eu sinto enormes saudades de ouvir reportagens sobre o que se passa no Iraque, de ver repórteres ocidentais, de colete e capacete, a cascar nos gringos. Se calhar muita boa gente ainda nem se apercebeu do manto de silêncio que, desde há uns meses, se abateu sobre o que (de mau) acontece naquela perturbada zona do mundo. Longínquos vão os tempos de monopólio que o tema tinha na informação publicada; agora ninguém me diz nada sobre as maldades que, os meus amigos do novo mundo, por lá fazem, sobre as torturas, sobre a guerra civil, sobre a falta de segurança, sobre as impossíveis reconciliação e reconstrução daquele país. Nada!

Novo mundo, sem séculos de história, que ainda se rege por uma constituição que foi escrita há quase duzentos e cinquenta anos e a quem tantos querem – e podem! – dar lições de liberdade, desde os antigos países do leste europeu, que viveram em ditadura até há….hummm....vinte anos, até Portugal, Espanha e Grécia que têm uma longa tradição democrata de…vejamos…trinta anos, à França e à Alemanha cujas constituições têm (pouco) mais de sessenta anos ou à Bélgica (que por acaso nem sei se, hoje, ainda é um país).
Como já disse, só mesmo um desmiolado que acredita em dragões é que pode escrever tanto disparate em abono daquele bando de bebés grandes!

Sunday, November 11, 2007

Obrigações




Em teoria, nos contos de fadas ou em Marte todos nós somos iguais, todos nós temos as mesmas oportunidades, todos somos amigos, tretas desse género e por aí fora.
Acredito que, talvez, quando nascemos sejamos todos iguais: inocentes, nus, sujos e feios!
A partir daí, acho que tudo muda. No início, cada um terá alguém que lhe vai tratar da vidinha, depois calçam-se sapatos próprios e, toca a andar, cabecinhas na estrada a furar pelo trânsito.

Quem prega que somos todos iguais, é tão aldrabão como os que têm a lata de dizer, na presença dum recém-nascido, “mas que menino tão lindo!”. Recém-nascido e bonito são coisas completamente distintas e opostas (excepto para essa interessante e intrigante categoria de primatas que dá pelo nome de avós).

Quando pela primeira vez, oito minutos depois do nascimento, botei olho no meu filho mais velho – valha-me Santo Agostinho! – pensei que, ou ele tinha saído disparado com tanta força que não conseguira evitar o choque frontal com a parede oposta à marquesa ou então fora pela minha estúpida e perigosa condução a caminho da maternidade, guiada pelos nervos, pela ignorância e pelo cagaço, que a tromba do puto ficara assim, toda amarrotada.
Era então “aquilo” que eu ia levar para casa ao fim de nove longos meses de expectativa? Era “aquilo” que ia contaminar, com as suas fraldas borradas e os seus babetes azedos, o sadio ambiente lá em casa, impedir-me de dormir como aquilo que eu era, um anjo, e obrigar-me a preparar, ao frio e às três da madrugada, centenas de biberões? Quando nasceu o segundo, para evitar mais desilusões, só ao fim de onze dias ousei encará-lo de frente e, ainda assim, assustei-me.
É claro que, entretanto, se transformaram os dois em bonitos rapazes, com pais assim outra coisa não era de esperar mas, agora, estão outra vez feios porque não arrumam os quartos não querem regar a relva e nem querem pôr a louça do jantar na máquina, etc.

Se pai de recém-nascido tivesse estatuto, e se esse estatuto fosse igual ao que agora dizem ir ser aprovado para os alunos, não me teriam apanhado na sala de aula durante todo o curso, ter-me-ia baldado o tempo todo e se conseguissem obrigar-me, eu acabaria por responder às milhentas convocatórias da maternidade, quanto mais não fosse para dar uma meia dúzia de tabefes nas enfermeiras pela insistência em atribuir-me a responsabilidade de levar o pacote para casa.



O meu amigo Vítor, o meu socialista parceiro do ténis, professor de electrotecnia, coordenador dos directores de turma e ele mesmo director de uma turma de sete alunos do oitavo ano da via profissionalizada (com uma média de idades de 17,3 anos) numa das piores classificadas escolas públicas do país, localizada bem perto do palácio de Belém, tem o mesmo receio que lhes aconteça o mesmo que às enfermeiras e acredita que muitos dos agora responsabilizados progenitores só ponham mesmo os pés na escola para partir os dentes a quem vai insistir em chateá-los por causa dos filhos e das filhas. Em boa verdade os alunos já fazem bem esse papel e a ele ainda nenhum o agrediu porque, como ele diz, “quando os gajos começam com merdas eu também parto para a agressividade”.

“Mas sabes, lá no fundo – continua ele, agora a sorrir – dá-me um gozo danado vê-los a tourear a malta que por cá aparece a dizer que com uma postura de compreensão, de diálogo, de igualdade acabaremos por conquistá-los”. Sim, está bem!

Marmelos



Era de tarde, no relógio da torre da igreja tinham-se ouvido quatro badaladas, o dia estava lindo, no céu sem nuvens o sol brilhava e aquecia as minhas costas, eu olhava para a avó dos meus filhos que à janela aberta do seu quarto acabara de responder à minha pergunta dizendo-me que o que estava ali a fazer era a secar a marmelada.
Pensei ter ouvido mal mas ela, sorridente, repetiu. Olhei em volta à procura do seu marido mas não o encontrei. Pus-me em bicos de pés, tentei espreitar para dentro do bem iluminado quarto. Não o vi mas podia muito bem-estar escondido.
Parece-me que de cada vez que me vêem no Tourigo, este par de alucinados fazem o possível para gozar com a minha cara.
Ele, o marido, não descansou enquanto não me levou a ver, de perto, a beleza duma groselheira carregadinha, vista bonita, confesso, mas que não passou, afinal, duma matreira e engenhosa maneira de fazer com que fosse eu a esmagar os ouriços e a apanhar as castanhas que tinham caído naquele lado do quintal. Com a desculpa da sua idade e do seu actual estatuto de presidente quem teve que dobrar a mola para apanhar as seis castanhas fui eu. Sozinho!
Eu quero lá saber aonde é que ela seca a marmelada! Nem sequer quero saber aonde é que ela faz a marmelada. Na minha idade é óbvio que já sei mais ou menos onde é que ela, a marmelada, se faz naquela casa, mas, francamente, há informações que eu preferia não receber. A minha mãe a fazer marmelada! Até evito pestanejar não vá dar-se o caso de, com os olhos fechados, me passarem imagens estranhas à frente. A curiosidade dos meus filhos sobre estas questões culinárias morreu por volta dos cinco anos e, agora que já deixaram a adolescência, se eu ou a minha Maria lhes perguntamos se há perguntas a fazer sobre a matéria, fogem como Maomé do presunto, aos gritos e com as mãos a tapar os ouvidos. Como eu os compreendo!
Recordei partes da conversa à hora do almoço, o meu pai a pedir-me para ser eu a fazer os trabalhos mais pesados que incluíram abrir a garrafa do vinho porque lhe doíam as mãos de tanto descascar os belos marmelos e a mulher a dizer que ele gostava mais da que tinham feito primeiro porque era menos azeda do que a segunda. Ela gostava das duas. Queixas houve, sim, mas das castanhas e das nozes que, segundo ela, estavam todas piladas as primeiras e quase todas podres as segundas.
Mesmo a suave palmadinha que ele lhe deu e as estridentes gargalhadas que se seguiram quando a apanhou, quieta, os braços no ar, os dois indicadores esticados e o tronco a balançar ao som duma qualquer música que só ela ouvia, me fez juntar dois mais dois (bolas, até esta ultima parte da frase me soa estranha).
E tinha eu pensado, ingenuamente na altura, que o clima alegre e quente que envolvia a cozinha se devia à nossa visita, ao arroz de cabidela e ao tinto.
À noite, já deitado a ler o meu livro, ouvi foguetes. Desliguei e luz, tapei a cabeça com a almofada e obriguei-me a dormir.

O Saldanha





Nos últimos cinco minutos era para aí a quinta vez, o tom de voz a aumentar, que ela dizia “mas eu já lhe disse que só o Saldanha é que lhe pode resolver o seu problema” e era, para aí, a sétima vez que o homem lhe respondia, o tom também em crescendo “mas foi o Saldanha que me mandou vir aqui e disse que vocês é que me resolviam o problema!” quando ela entornou definitivamente o caldo ao proferir, alto e bom som “mas eu quero lá saber!”.

Antes que lhe desse um chilique e porque “eu não vou dar cabo da minha saúde por causa das asneiras do Saldanha” a funcionária chamou a policia, por acaso vieram dois, calmos e diligentes, tomaram conta da situação, não sem que um deles tenha levado as mãos ás algemas ameaçando prender o utente vitima do Saldanha que, a caminho do olho da rua e de estribeiras completamente perdidas, foi distribuindo elogios a todos quantos, na sua opinião, faça sol ou faça chuva, informem bem ou informem mal, não precisam de se preocupar com as consequências dum mau serviço porque o guarda-chuva aparece sempre no final do mês.

Por esta altura, eu e mais a outra dúzia e meia de utentes que comigo esperavam na sala, estávamos com tamanho pó ao Saldanha que, se o apanhássemos ali, bem à nossa frente, dávamos-lhe uma valente esfrega e uns quantos bananos nas fuças. O marmanjo estava mesmo a pedi-las. Estava ele e, achávamos nós, estava a funcionária, graças a quem, já conhecíamos todos os podres dos cinco desgraçadas utentes que ela atendera antes.

Levantei-me, pedi a atenção dos meus colegas, expliquei-lhes os porquês da minha profunda irritação com o comportamento do Saldanha, disse-lhes que tipos como ele que brincam com a vida dos outros não mereciam andar por aí à balda e, como todos mostraram concordância comigo, propus-lhes a minha solução: recambiar o Saldanha para o Jardim das Pichas Murchas!

Ainda agora todo eu fico pele de galinha e me comovo até ás lágrimas quando recordo a efusiva reacção dos colegas à minha proposta, as palmas, os gritos de “este mano para presidente, já!”, os abraços, os beijos e os apalpões. Foram, acredito, os meus cinco minutos de fama.

Infelizmente os sonhos duram pouco e, rapidamente, uma outra funcionária do atendimento ao público da Segurança Social do Areeiro se apressou a esclarecer que o Saldanha não era um homem mas sim um local, também em Lisboa e a cerca de um quilometro dali, onde havia outras instalações daquele organismo publico, também ele com dezenas de outros funcionários aptos a resolver os nossos problemas.

Atendendo a que o Jardim das Pichas Murchas, que fica perto do castelo de São Jorge, é um espaço muito pequeno, caiu também por terra a minha proposta já que, com tantos candidatos e candidatas a irem lá parar, aquele pacato recanto alfacinha tornar-se-ia inabitável e, sabe-se lá, corria até o risco de ter que ser rebaptizado.

Para acabar numa nota mais alegre, deixo-vos com a resposta do senhor Jardim Gonçalves quanto perguntado se dera o seu contributo para o perdão da divida de juros do seu filho para com o BCP: Ó pus dei!