Tuesday, March 03, 2009

Impressionismos























Um marciano que tivesse aterrado por cá na semana passada e percebesse o português falado e escrito, teria ficado surpreendido por o nível de desenvolvimento do nosso país não ser nada proporcional aos notáveis conhecimentos artísticos dos seus habitantes, pelo menos dos habitantes que publicitam os seus conhecimentos e interrogar-se-ia como é que um povo que aparece na cauda da Europa em quase tudo o que é estatística consegue ter tantos conhecimentos e tantos craques em pintura.

Infelizmente, nem todos são craques, não senhor! Como é óbvio, existem sempre uns quantos nabos que vieram ao mundo só para estragarem as estatísticas e chatearem os outros: os senhores agentes da polícia de segurança pública de Braga que, aparentemente a pedido dum cidadão mais incomodado, apreenderam meia dúzia de exemplares dum livro que tinha na capa uma senhora de barbas e…eu!

Sim, só eu e aqueles pobres representantes da autoridade é que não sabíamos que a capa do livro retratava uma conhecidíssima e famosíssima obra de arte, um desenho dum também conhecidíssimo e famosíssimo gajo chamado cu-qualquer-coisa, uma obra notável que está exposta, para admiração, (num quiosque qualquer) num igualmente conhecidíssimo e famosíssimo museu que fica num lugar de que já esqueci o nome.

Dada a minha santa ignorância, se fosse eu a dar de caras com o exemplar – só me sujeito a este violento exercício de imaginação em benefício da minha escrita – calculo que teria uma de três reacções possíveis: sentia um súbito desejo de juntar os trapinhos com um ser do mesmo sexo que eu, tinha um ataque de icterícia e entrava em coma profundo ou tornava-me simpatizante e apoiante do grande e querido líder inscrevendo-me, de imediato, no partido. Tropelias que eu não desejo nem ao meu pior inimigo!

Em matéria de pintura, além das tintas dyrup e robialac, pouco mais saberei que os agentes, o que constitui uma falta grave – eu sei e admito! No meu caso, ainda assim, a coisa é desculpável mas no caso dos agentes da autoridade a falha é intolerável. Nem quero pensar no perigo que corro se precisar, um dia, da presença dos agentes da autoridade no Tourigo e me mandarem uns elementos que não saibam dizer de cor, por ordem alfabética e em dez segundos o nome de catorze pintores dos séculos quinze, dezasseis e vinte. A segurança das populações é um assunto muito sério com o qual não se pode brincar!

É verdade que, ao contrário dos agentes, eu não teria confiscado o produto, sou mais do género “se não gosto não como mas também não tiro os pratos aos outros”; a diferença talvez seja a de que eu (ainda) não corro o risco de ser obrigado a cumprir um determinado tipo de ordens para ganhar a minha vida e receber o meu salário no fim de cada mês.

Se tivesse vergonha na cara, em vez de vir para aqui publicamente admitir que não passo dum bronco inculto, devia era aproveitar este espaço e malhar nos coitados dos senhores agentes e, a bem da segurança do país, lançar um peditório a nível nacional e angariar uns trocos para os levar numa visita de estudo (à zona da luz vermelha de Amesterdão) ao tal museu, dar-lhes a hipótese de aprenderem alguma coisa de jeito e útil à prossecução duma boa actividade policial na cidade de Braga, a cidade dos três ou cinco “pês” consoante se é visitante ou natural do local.

Thursday, February 19, 2009

Quem diria!

(foi o que consegui com a minha pesquisa "Salazar e botas" para esta crónica. Enfim...afinal tem algo a ver, a pequena chama-se Luciana Salazar e ... está de botas, e acho que a série falava em "gajas", portanto...)



Salazar era, de facto, o homem da dita dura, um verdadeiro Zézé Camarinha nos paços do conselho de ministros do país!
Como não vi, socorro-me do relato de familiares, amigos e desconhecidos que perderam tempo foram abençoados com tempo livre para acompanhar a mini-série da SIC sobre a sua vida; embora ainda sem acesso livre e total aos documentos usados como suporte para a história, tenho a certeza de que, se passou na televisão, só pode ser verdade, eles não iam inventar uma coisa daquelas assim sem mais nem menos.

Está portanto provado que não foram motivações de indole politica que fizeram o antigo presidente do conselho perseguir uns quantos desgraçados mas assuntos mais comezinhos, fruto da sua deriva sexual. Possivelmente, a cabeça que desapareceu da sua estátua depois do vinte e cinco de setenta e quatro, terá pura e simplesmente explodido à passagem dalguma moçoila mais bem apetrechada fisicamente e não tenha sido fruto de um roubo ou dum acto de vandalismo.

Num desses documentos, uma página do diário dum ministro dos negócios estrangeiros de então, que mão amiga mas anónima me fez chegar, lê-se que, estando este numa sala contigua a aguardar vez para uma reunião de trabalho com o chefe, terá ouvido palavras soltas como “é minha…sim…tira a gola…invade, invade…quere-la…ahh lindos planaltos…” que o levaram, indignado e por iniciativa própria, a contactar de imediato a organização das nações unidas no sentido de lavrar um protesto pelas tentativas da tomada de assalto duma das nossas colónias por bandos armados.
Outro documento, um pouco amarrotado e com nódoas de gordura, dá conta da irritação do antigo estadista quando os indianos lhe tiraram Damão uma coisa bem interessante que ele já tinha fisgado e da punição imposta aos nossos militares que lá estavam de guarda: “não me apareçam cá vivos e sem ela!”.

Chegado à governação numa altura em que as finanças nacionais estavam num estado lastimável, totalmente de pau parado, o professor depressa tomou em mãos o problema e, tomando-lhe o gosto, por lá ficou durante décadas.

Insaciável, fundou a mocidade portuguesa, instituição que, alegadamente, terá funcionado como um verdadeiro harém do chefe do governo; especialista em contra informação, lançou a ideia de que o “s” estava ligado à primeira letra do seu nome, desviando as atenções do verdadeiro significado: o cinto do sexo.

À luz desta nova teoria, tem toda a lógica que a obra emblemática do seu regime – a ponte sobre o rio Tejo – seja uma coisa dura e comprida e é de louvar que os comunas do prec tenham conseguido mudar-lhe o nome porque as criancinhas não podem (nem devem!) saber coisas destas.
Ainda segundo a mini-série, o antigo governante terá morrido, não por causa duma queda numa cadeira, mas afogado numa banheira e longe, muito longe das botas. Ao que parece, a senhora dona Maria, já entradota na idade e farta dos avanços do professor, arrefinfou-lhe, à socapa, com um naco de sabão clarim para dentro da banheira tendo-o apanhado desprevenido, provocando a sua queda e impedindo-o de apanhar as botas a tempo de ter um final feliz, um final digno da sua fama (como é sabido, é muito mais fino e chique os tipos da dita dura morrerem com as botas calçadas do que descalços).

Monday, February 09, 2009

Láparos




Este domingo fui à missa. O meu amigo Vítor diz que é esta prática que me dá uma sorte do caneco no ténis, única explicação para a quantidade exagerada de pontos esquisitos que, regra geral, viram o resultado final a meu favor, levando-o a clamar que jogar contra mim é uma luta desigual por causa da mãozinha invisível que me ampara. Ele, que acumula três das principais características que hoje definem a maioria do eleitorado português – agnóstico baptizado, socialista e benfiquista – acha mais fácil acreditar nesta teoria da cabala divina do que fazer o que lhe compete dentro do campo, dar o litro em cada ponto em disputa, cumprir a regra básica dum tenista: dar mais uma pancada na bola do que o adversário e fazê-lo de maneira a que ela caia dentro do campo dele.

O celebrante, um visitante e bispo da diocese de Viana em Angola, aconselhou-nos durante a homilia a usar a paciência de Job para lidarmos com as chatices actuais e comparou a sua comunidade com a nossa, dizendo-nos que é no exterior que celebra as suas duas missas dominicais, uma às sete e meia da manhã e a outra ao meio-dia, porque nenhum templo comporta os cinco a seis mil fieis que assistem a cada delas, sendo que, noventa e muitos por cento deles são jovens.

Vim para casa a pensar nisto e, nem sei bem porquê, do nada, vieram-me à memória outras palavras, as palavras do tele-evangelista frrrrrrrei Louçã, o pregador preferido das nossas elites comunicacionais, no seu sermão anti-capitalista aos crentes da esquerda caviar, naquele tom de voz de missionário que tem um elefante a pisar-lhe os calos:

“Alguém já viu o capital a produzir? Imaginem dois coelhos numa cova, de certeza que vão sair coelhinhos…se forem um casal. Mas experimentem pôr duas notas de cem euros numa caixinha; imaginam que vão sair notas de vinte dessa caixinha? O capital nada faz. É o trabalho que tudo faz.”

Numa cova? Como sou jovem, ainda só vi coelhos na caçarola, em gaiolas ou em tocas, mas não ponho em causa que, entre os láparos, o truca truca numa cova esteja muito na moda – humildemente confesso que eu, de geografia, não percebo nada; poderá obviamente ter sido apenas um lapso do tele evangelista, uma alusão a alguma fantasia recalcada, não sei.

Experimentei e esfreguei – à fartazana – duas notas de cem euros uma na outra e, de facto, mesmo com musica de fundo a ajudar – o bolero de Ravel – não consegui que elas produzissem chispa, quanto mais uma nota de vinte euros. Não que eu estivesse à espera disso, não senhor! Quanto muito, ter-me-ia dado por satisfeito com uma moedinha de um cêntimo, já que, com algum carinho, ela haveria de crescer, cantar-lhe-ia os parabéns quando chegasse aos dois cêntimos, aos cinco cêntimos, aos dez, aos vinte, aos cinquenta, ao euro e, quem sabe, à bonita idade de quinhentos euros.
De modos que estou ainda mais parvo e baralhado do que o normal: se o fruto do truca truca é sinonimo da produção do trabalho versus o capital, porque carga de água é que os esquerdistas, dos modernaços aos progressistas, andam muito atarefados a promover casais de homossexuais já que, segundo palavras do próprio chefe, nada vão produzir? Para isso não será preferível ficarmos com o capital, sempre dá para pagar as bejecas?

Andei eu, todos estes anos, a julgar que para aquela malta o truca truca era um ritual de afirmação de liberdades e prazer mas afinal, vai-se a ver, aquilo é uma grande seca, é a mesma coisa que trabalhar numa fábrica (ainda por cima, a julgar pelas estatísticas e mesmo com a ajuda dos sindicatos, sempre prontos a dar uma mãozinha, a produção é fraquinha…).
Não admira que Angola tenha níveis de crescimento anuais do produto tão elevados com os católicos a produzirem assim certinho enquanto nós por cá, andamos murchos e a empobrecer.

Sunday, February 08, 2009

São rosas senhor!




- Já o tenho! – sussurrou o homem, abrindo ligeiramente o sobretudo e olhando, desconfiado, por cima do ombro do vulto de gabardina branca que, iluminado pelas luzes do carro cujo motor ronronava baixinho, emergira do espesso manto de nevoeiro que descera sobre a noite e que, conforme combinado, viera ao seu encontro.
- É puro? – perguntou o vulto.
- Puro? Está a gozar comigo patrão? Puro? A este preço?
O vulto não respondeu, observou a encomenda, o rosto contraído a denotar a tensão do momento. Não suportando mais o silencio prolongado o homem lamentou:
- Foi o combinado chefe! Não é puro mas é tipo puro. Dê-se por muito feliz por eu e os outros amigalhaços termos conseguido arranjar este prefaciozinho.
- Ah bom, então quer dizer, ao menos é tipo puro?
- Sim, claro! – responde-lhe o homem, pegando na encomenda, abrindo-a e folheando-a até encontrar a marca que procurava. Olhe só aqui para. Hum, que tal?
O cara do vulto foi-se iluminando à medida que os seus olhos percorriam as duas páginas seleccionadas, acabando num sorriso rasgado depois de identificado o nome da celebridade que o assinava.
- Excelente, Débora! Bravo! – exclamou.
O vulto protegeu o livro entre a gabardine e a camisola castanha de gola alta, arrastou o homem pelo braço, fez um sinal em direcção às luzes e disse:
- Venha, temos que fazer, há convidados a seleccionar e convites para mandar! Mas não se esqueça: vamos fazer tudo como se este material fosse do legítimo, do verdadeiro.
- Mas ó chefe, será prudente vender assim…gato por lebre, não sei, olhe que a situação não está famosa, isto agora com os gajos dos blogues sempre à espreita, tenho um mau pressentimento, pode dar mau resultado…
- Não se acanhe, homem! Tenho-os a comer na palma da mão e, além disso, aquela dica que os nossos bem colocados amigos andam a martelar na populaça de que ou ganhamos outra vez com maioria ou isto vai mesmo para o galheiro está a ir muito bem. Muito bem mesmo. Vá lá, vamos ter com a Lurdinhas. Quem não arrisca não petisca!

A limusina arrancou com um chiar de pneus (sem um grama de emissão de carbono mau porque os seus dois passageiros adoram um bom ambiente, são bué de verdes), guinou mais à esquerda no semáforo que logo virou vermelho e percorreu, veloz, a distância que a separava da ralé baixa.
Dois dias depois, rodeado por dezenas de microfones e câmaras de filmar, sozinho no palco como gostava, o vulto, decidido e sorridente falou:
- Há muitas décadas que leio relatórios da OCDE sobre Educação e nunca vi uma avaliação sobre um período da nossa democracia com tamanhos elogios".
Ainda inebriado pelo sucesso da apresentação da véspera, confrontado na casa da democracia com a pureza da encomenda, desafiado por um pequeno e gordo traste da definhada mas desprezível oposição, o vulto, arrogante e corajoso como sempre, arrasou:
- Eu nunca disse que o relatório é da OCDE! Nunca! Os senhores não suportam é o sucesso do país, os senhores estão contra o sucesso do país (...) Têm apenas ciúmes e inveja.

O presidente do júri disse que chegava, já tinha uma ideia da coisa, mandou ligar as luzes da sala de projecção e, após votação dos presentes, ficou decidido não renovar o subsidio ao publicitário e realizador da peça apresentada.

Análises cientificas




Por causa da nota final atribuída às contas da nossa república, uma nota final que é pior do que a conseguida num exame anterior, não só vamos pagar mais caro pelo dinheiro que já devemos e pelo que ainda teremos de pedir emprestado, como também vamos ter mais dificuldade em encontrar caramelos lá fora dispostos a emprestar-nos o guito, mesmo que a gente se atravesse com o nosso aval colectivo, o famoso aval do estado.
Como o examinador que nos deu a dita (má) nota tem acertado tantas vezes quantas as vezes que acertam os árbitros que apitam os jogos do futebol da nossa liga principal, ainda há por aí gente que, optimista, desdenha e chuta para canto, os gajos estão outra vez enganados e a coisa não vai ser tão preta como a pintam. Pode ser que sim mas também pode ser que não!

Embora os nossos governantes tentem impingir-nos que tudo isto que nos está a acontecer é uma surpresa do caraças, eu, especialista encartado na arte da adivinhação politica e económica – entre outras aptidões igualmente notáveis e úteis – há muito tempo que andava a prever estas maleitas, graças ao estudo aprofundado que venho fazendo a um órgão do nosso primeiro-ministro.
Em abono da verdade devo reconhecer que nem sempre acerto, por acaso às vezes até erro, ainda recentemente falhei rotundamente na previsão da capacidade do novo messias americano em conseguir o milagre prometido da mudança do mundo logo após a sua tomada de posse (quando soube que teve de repetir a posse por se ter enganado na cerimónia oficial, ainda pensei “ah bom, o truque não funcionou à primeira, falta de prática, no problem, à segunda vai ser canja” mas não, já nem num messias se pode confiar.). Mas acredito que não vou errar na minha previsão de que ele e os seus discípulos vão nacionalizar os grandes bancos americanos e que os europeus seguirão o exemplo. Vai uma aposta?

O meu método, que patenteei em todo o mundo com o nome de “método nasal by joãozinho”, consiste no estudo dos movimentos dos narizes dos indivíduos alvo e a sua comparação com a minha base de dados.
Adquiri esta técnica a observar o meu próprio nariz, milhares de horas passadas em frente de espelhos reflectindo sobre muita coisa, a ver a reacção do dito, analisado na sua individualidade intrínseca, na sua personalidade própria ou no todo, no conjunto a que vulgarmente chamo face (ou tromba quando a véspera foi longa e bem regada).

Em pensamento, em surdina ou em voz alta, testei-me em múltiplos temas: a estética e a arte, a filosofia da religião, a metafísica e, evidentemente, o sexo e a filosofia política. Como, felizmente, esta minha protuberância tem um volume razoável, tive um grande e fantástico campo de acção, tornando-me no famoso especialista que, modéstia à parte, hoje sou.

Os movimentos nasais do engenheiro na cena do seu canudo e dos seus projectos, como caixeiro-viajante na promoção e venda do Magalhães e no actual episodio das aprovações confusas num empreendimento em Alcochete, não deixam margem para dúvidas e levam-me a concluir: tal como eu, o seu tio e o seu primo, o homem é um verdadeiro chico esperto!
Se um chico esperto já faz mossa, quatro então nem se fala. Mais tarde ou mais cedo, esta característica comum, despromove-nos, baixa-nos as notas. Para já, ainda é só o que nos baixa; no futuro logo veremos se nos baixa mais alguma coisa.

Cantigas de embalar



Um belo momento de poesia, coisa rara no cardápio das minhas preferências, um conjunto de versos cantados pelos pequenitos do exercito português ao senhor que chefia o nosso governo, uma brilhante actuação que teve lugar no principio do ano e que me levou às lágrimas, lágrimas salgadas que dançaram nos meus olhos esbugalhados, enfim, um momento complicado e difícil para a minha masculinidade, incapaz que fui de reprimir a minha faceta sensível, aquela que escondo por detrás desta minha cara trombuda:

Viva o nosso primeiro-ministro,

Viva o nosso dirigente

Seja sempre iluminado

Pela estrela mais fulgente

Temos todo o desejo

Não o podemos negar

Cantar para o ano as janeiras

Outra vez neste lugar

Os que não forem socialistas, quando pararem de rebolar, quando tirarem a esfregona dos olhos, limparem toda a água que caiu no chão e quando voltarem a portar-se como pessoas adultas, façam o favor de parar de ler e vão mas é tratar de coisas sérias.

Socialistas, entre nós, agora que não está cá mais ninguém, vá lá…confessem…até vocês coraram de vergonha, não foi? Não? Mentirosos!

Aposto que, nostalgicamente, o vosso pensamento associou logo esta magnifica ode a outros grandes líderes, passados e presentes, também eles iluminados dirigentes, altamente cantados e adorados pelos seus povos, dos chineses aos norte-coreanos, dos cubanos, bolivianos, venezuelanos e pelos que ainda restam no Zimbabwe. É, a mim também me passou logo pela mona essa feliz associação.

Eu que não sou nada dado a grandes emoções, arrepiei-me todo, fiquei com pele de galinha, coisa que é muito raro acontecer-me, só me dá isto quando há uma grande baixa de impostos, quando o vinho que tenho no copo não presta ou quando o meu clube não ganha o campeonato.

Mas pronto, não fiquem assim…afinal de contas, tendo em conta os resultados das múltiplas eleições livres e democráticas já realizadas e pelas sondagens actuais, a esmagadora maioria dos portugueses é sadomasoquista, adora a vossa ideologia, esteja o produto à venda com rótulo brando ou radical. Dizem as sondagens que, se somarmos os possíveis resultados de todos os partidos que publicitam a vossa ideologia, não devemos ficar longe dos oitenta por cento.

É assim a modos que um vício, a coisa está entranhada, agimos como sonâmbulos, há décadas que não passamos da cepa torta, empobrecemos alegremente mas, graças ao estado todo poderoso e à cumplicidade dos órgãos de comunicação social e dos seus lacaios funcionários do regime, insistimos na (asneira) receita. É a vida!

Artistas portugueses




Titulo Um (actual mas já requentado): dois funcionários do banco estatal e governamental – a CGD – reformados por invalidez naquela instituição, estão a trabalhar noutras instituições financeiras, acumulando a respectiva reforma com o salário.
Titulo dois (Maio 2005): O ministro das finanças Campos e Cunha recusou pressões de José Sócrates para substituir a administração da CGD alegando que o mandato de quatro anos seria para levar até ao fim. Isto porque a administração indicada pelo Executivo de Santana Lopes tinha tomado posse há menos de um ano, em Outubro de 2004.
Titulo três (Junho 2005): Luis Campos e Cunha, ministro das finanças, acumula reforma com ordenado do governo mas salienta que é legítimo e legal – por ter sido vice-governador do Banco de Portugal durante apenas 6 anos, conseguiu, aos 49 anos de idade, obter uma pensão desta instituição no valor de 114 784,00 Euros anuais (cerca de 8.000,00 Euros mensais).
Titulo quatro (Julho 2005): Campos e Cunha esgotado deixa a pasta das Finanças depois de ter entrado, dentro do Governo, num braço-de-ferro com os ministros da Economia e das Obras Públicas (ambos muito influentes junto do primeiro-ministro).
Titulo cinco (Agosto de 2005): o novo ministro das finanças do governo socialista substituiu o presidente do banco público, Vítor Martins (figura respeitada e secretário de Estado dos Assuntos Europeus de Cavaco Silva), por este, alegadamente, recusar financiar os grandes projectos públicos, nomeando para o cargo Carlos dos Santos Ferreira, tido como um homem próximo do socialista António Guterres.
Titulo seis (Agosto de 2005): o socialista Vara foi nomeado pelo novo ministro das Finanças do governo socialista, para administrador da Caixa Geral de Depósitos (CGD).
Nota um: é após os acontecimentos dos títulos cinco e seis e a consequente despromoção a simples directores que se detectam os primeiros sinais das doenças que hão-de, alegadamente, provocar a invalidez relatada no título um;
Nota dois: um dos inválidos é administrador da SLN (a do BPN), eleito na lista de Miguel Cadilhe, antigo ministro de Cavaco Silva e o outro, a outra neste caso, é assessora do banco Santander, administradora na ECS (uma empresa de capital de risco) e numa construtora que pertence a um cidadão de Ansião, uma autarquia, desde sempre, totalmente laranja.
Nota três; com os inválidos saiu também Luis Alves Monteiro (secretário de estado da indústria dos governos sociais-democratas liderados por Cavaco Silva) nomeado por Santana Lopes.
A questão óbvia: que embrulhada do caneco, hem?
A resposta habitual: não não, tudo legal, tudo nos conformes!
O desabafo do reformado pacóvio, rotineiro e inofensivo: grandes *#/$%*..! A conclusão oficial e publicada: é a prova do falhanço das políticas neoliberais de direita que dominam o mundo e o país e que têm provocado o acentuar das desigualdades entre os portugueses e, simultaneamente, a prova da crescente necessidade da implementação de politicas verdadeiramente socialistas, através duma maior intervenção do estado e do aumento da regulação para evitar que casos futuros sejam publicitados na comunicação social e cheguem ao conhecimento dos reformados eleitores que, coitados, têm coisas bem mais interessantes para saber do que estas – olha, por exemplo, como ligar à internet os Magalhães distribuídos aos netos.

Thursday, January 15, 2009

Cantigas de embalar

À falta de foto do nosso exército, aqui vai esta. Vai dar ao mesmo...

(foto daqui)

Um belo momento de poesia, coisa rara no cardápio das minhas preferências, um conjunto de versos cantados pelos pequenitos do exercito português ao senhor que chefia o nosso governo, uma brilhante actuação que teve lugar no principio do ano e que me levou às lágrimas, lágrimas salgadas que dançaram nos meus olhos esbugalhados, enfim, um momento complicado e difícil para a minha masculinidade, incapaz que fui de reprimir a minha faceta sensível, aquela que escondo por detrás desta minha cara trombuda:
Viva o nosso primeiro-ministro,Viva o nosso dirigente Seja sempre iluminado Pela estrela mais fulgente Temos todo o desejo Não o podemos negar Cantar para o ano as janeiras Outra vez neste lugar

Os que não forem socialistas, quando pararem de rebolar, quando tirarem a esfregona dos olhos, limparem toda a água que caiu no chão e quando voltarem a portar-se como pessoas adultas, façam o favor de parar de ler e vão mas é tratar de coisas sérias.

Socialistas, entre nós, agora que não está cá mais ninguém, vá lá…confessem…até vocês coraram de vergonha, não foi? Não? Mentirosos!

Aposto que, nostalgicamente, o vosso pensamento associou logo esta magnifica ode a outros grandes líderes, passados e presentes, também eles iluminados dirigentes, altamente cantados e adorados pelos seus povos, dos chineses aos norte-coreanos, dos cubanos, bolivianos, venezuelanos e pelos que ainda restam no Zimbabwe. É, a mim também me passou logo pela mona essa feliz associação.

Eu que não sou nada dado a grandes emoções, arrepiei-me todo, fiquei com pele de galinha, coisa que é muito raro acontecer-me, só me dá isto quando há uma grande baixa de impostos, quando o vinho que tenho no copo não presta ou quando o meu clube não ganha o campeonato.

Mas pronto, não fiquem assim…afinal de contas, tendo em conta os resultados das múltiplas eleições livres e democráticas já realizadas e pelas sondagens actuais, a esmagadora maioria dos portugueses é sadomasoquista, adora a vossa ideologia, esteja o produto à venda com rótulo brando ou radical. Dizem as sondagens que, se somarmos os possíveis resultados de todos os partidos que publicitam a vossa ideologia, não devemos ficar longe dos oitenta por cento.

É assim a modos que um vício, a coisa está entranhada, agimos como sonâmbulos, há décadas que não passamos da cepa torta, empobrecemos alegremente mas, graças ao estado todo poderoso e à cumplicidade dos órgãos de comunicação social e dos seus lacaios funcionários do regime, insistimos na asneira receita. É a vida!

Artistas Portugueses


Titulo Um (actual mas já requentado): dois funcionários do banco estatal e governamental – a CGD – reformados por invalidez naquela instituição, estão a trabalhar noutras instituições financeiras, acumulando a respectiva reforma com o salário.
Titulo dois (Maio 2005): O ministro das finanças Campos e Cunha recusou pressões de José Sócrates para substituir a administração da CGD alegando que o mandato de quatro anos seria para levar até ao fim. Isto porque a administração indicada pelo Executivo de Santana Lopes tinha tomado posse há menos de um ano, em Outubro de 2004.
Titulo três (Junho 2005): Luis Campos e Cunha, ministro das finanças, acumula reforma com ordenado do governo mas salienta que é legítimo e legal – por ter sido vice-governador do Banco de Portugal durante apenas 6 anos, conseguiu, aos 49 anos de idade, obter uma pensão desta instituição no valor de 114 784,00 Euros anuais (cerca de 8.000,00 Euros mensais).
Titulo quatro (Julho 2005): Campos e Cunha esgotado deixa a pasta das Finanças depois de ter entrado, dentro do Governo, num braço-de-ferro com os ministros da Economia e das Obras Públicas (ambos muito influentes junto do primeiro-ministro).
Titulo cinco (Agosto de 2005): o novo ministro das finanças do governo socialista substituiu o presidente do banco público, Vítor Martins (figura respeitada e secretário de Estado dos Assuntos Europeus de Cavaco Silva), por este, alegadamente, recusar financiar os grandes projectos públicos, nomeando para o cargo Carlos dos Santos Ferreira, tido como um homem próximo do socialista António Guterres.
Titulo seis (Agosto de 2005): o socialista Vara foi nomeado pelo novo ministro das Finanças do governo socialista, para administrador da Caixa Geral de Depósitos (CGD).
Nota um: é após os acontecimentos dos títulos cinco e seis e a consequente despromoção a simples directores que se detectam os primeiros sinais das doenças que hão-de, alegadamente, provocar a invalidez relatada no título um;
Nota dois: um dos inválidos é administrador da SLN (a do BPN), eleito na lista de Miguel Cadilhe, antigo ministro de Cavaco Silva e o outro, a outra neste caso, é assessora do banco Santander, administradora na ECS (uma empresa de capital de risco) e numa construtora que pertence a um cidadão de Ansião, uma autarquia, desde sempre, totalmente laranja.
Nota três; com os inválidos saiu também Luis Alves Monteiro (secretário de estado da indústria dos governos sociais-democratas liderados por Cavaco Silva) nomeado por Santana Lopes.
A questão óbvia: que embrulhada do caneco, hem?
A resposta habitual: não não, tudo legal, tudo nos conformes!
O desabafo do reformado pacóvio, rotineiro e inofensivo: grandes *#/$%*..! A conclusão oficial e publicada: é a prova do falhanço das políticas neoliberais de direita que dominam o mundo e o país e que têm provocado o acentuar das desigualdades entre os portugueses e, simultaneamente, a prova da crescente necessidade da implementação de politicas verdadeiramente socialistas, através duma maior intervenção do estado e do aumento da regulação para evitar que casos futuros sejam publicitados na comunicação social e cheguem ao conhecimento dos reformados eleitores que, coitados, têm coisas bem mais interessantes para saber do que estas – olha, por exemplo, como ligar à internet os Magalhães distribuídos aos netos

Thursday, December 11, 2008

Escuridões


Estou a escrever na sala, sentado no meu sofá favorito, aquele que coloquei ao lado da lareira. Ainda bem que obriguei a Maria a ir buscar lenha e a pegar-lhe fogo porque a luz eléctrica foi-se e levou as outras formas de aquecimento com ela. Lá fora, tudo o que é visível da minha casa, está, também, às escuras o que me leva a pensar que, ou a EDP acabou de dar o berro ou que, simplesmente, se trata de uma avaria cá na minha zona. As sombras tomaram conta da residência e, se os técnicos da empresa de electricidade meteram férias antecipadas como aqueles trinta deputados do pê-esse-dê que se baldaram a uma votação importante na semana passada, estou feito ao bife.
A falta de luz trouxe o silêncio e as sombras, sombras que distorcem a realidade dos objectos cá de casa, objectos que eu devia conhecer bem, tão bem como a palma das minhas mãos.
A realidade que me rodeia está manipulada, estou refém e escravo das trevas. Porque me faltou a luz, deixei de ver e ouvir bem. Mais ou menos como os surdos e ceguinhos dos nossos jornalistas na opinião do economista João César das Neves:
"A nossa imprensa traz pouca informação. Muita análise, intriga, provocação, boato, emoção, combate, mas pouca informação (...). Assiste-se a uma verdadeira caça ao deslize, empolado até à hilaridade. (...) Aliás, relatar o sucedido é o que menos interessa. O jornalista vai ao evento para impor a agenda mediática que levou da sede.O mais curioso é que, embora a imprensa escrita e falada seja intensamente opinativa, nunca se assume em termos políticos. (...) O público não é informado da orientação do meio que escolheu, porque todos dizem apenas a verdade. Todos os repórteres têm opinião, mas todos são isentos de orientações e partidarismos…
"O actual Governo goza de clara benevolência jornalística. Apesar da contestação e inevitáveis 'gaffes', o tratamento não se compara com o dos antecessores. (...) Muitos dos que relatam o jogo participam nas equipas. Quando o jogo se suja, avolumam-se as suspeitas. Isto ainda não afecta o poder da imprensa, mas já degrada a classe."

Felizmente tenho aqui uma pila grande, perdão, felizmente tenho, no computador, uma pilha com uma hora de autonomia e assim posso continuar a trabalhar enquanto os meus vizinhos estão ceguinhos de todo.

Não me levem a mal, mas não imaginam a maçada que é esta coisa de também escrever para jornais espanhóis! Estou sempre a confundir as línguas, meto-me em cada alhada, ainda por cima eu, que sou quase tão envergonhado como o senhor Dias Loureiro ou o senhor Coelho, passo por cada uma, às vezes apetecia-me enfiar num buraco e esperar que a confusão passasse. Como lhes deve estar apetecer àqueles dois agora. Coitados, como eu os compreendo!

A Maria já anda por ai, de vela na mão, a tentar pôr um pouco de luz em tudo quanto é sitio.
Como é hábito nestas situações de falhas de luz, especulamos sobre a possibilidade desta ser uma avaria muito prolongada e fazemos o inventário do nosso kit de sobrevivência.
É o inventário mais rápido de todo o planeta: na dispensa temos duas velas, uma caixa de fósforos semi-vazia, dois pacotes de chá preto, uma lata de sardinha em molho de tomate e piripiri ainda no prazo de validade e, naquilo que eu chamo “o meu bunker”, setenta e três garrafas de oxigénio, no estado líquido, com um grau de aquecimento nunca inferior a doze graus e meio. Estamos portanto equipados para sobreviver quase três dias. Com a água da chuva, talvez conseguíssemos prolongar a nossa sobrevivência por mais uma dúzia de horas.

Pelas estatísticas e segundo os estudos comparativos divulgados pelo governo civil , parece que até nem ficaríamos muito mal classificados mas, para mim, não chega. Exijo mais! Estou farto de dizer à Maria: chica, tens obrigação de fazer melhor!
Quando eu acabar de escrever a crónica e a luz estiver de volta, vou elaborar um novo kit de sobrevivência, vou acrescentar mais uns produtos, pelo menos mais uma lata de sardinha e uma lata de feijão frade e mais umas quantas garrafas de oxigénio, devidamente classificadas por região demarcada, para mais fácil utilização em caso de emergência e incluir um volume de maços de tabaco, para juntar fumo às sombras.

Monday, December 01, 2008

Engenharias


O doutor Vítor Constâncio, que além de ser um socialista empenhado, acumula, desde a pré-história, com o cargo de governador do banco de Portugal, anda furibundo, pior do que uma barata por causa do atrevimento de alguns dos deputados da nação que, imagine-se, ousaram acusá-lo de ter sido, não uma mas por duas vezes, incompetente e desleixado nas suas funções de fiscal.
O homem, cujo salário, segundo consta, anda na casa dos dezassete mil euros por mês (corresponde a mais de 40 meses de salários mínimos…), empertigou-se, disse que parecia impossível acusarem-no e andarem a linchá-lo na praça pública por coisas de que ele não pode ser responsabilizado, essa agora, uma acusação destas nunca se viu, jamais em tempo algum em nenhum outro país do mundo civilizado e que a sua reputação está a ser injustamente prejudicada. Em português simples, está a ver se sacode a água do capote.

Como o canal de televisão de propaganda do governo está lá para fazer fretes e favores, este empenhado socialista foi, há dias, convidado para uma entrevista onde confessou as suas angustias e desvendou que o choradinho de setecentos e tal milhões de euros feito pelo BPP (banco privado português) não só não ia fazer chorar as pedras da calçada como também não iria ter a sua socialista aprovação; quanto muito, visto tratar-se duma banqueta e não dum banco com peso relevante no financiamento da economia nacional, poderia candidatar-se a uma verba correspondente ao seu verdadeiro peso na nossa economia, uma bagatela de quarenta e cinco milhões de “aéreos”.

Este tal de BPP, banco privadíssimo, criado com a massa de empresários do regime e os do costume, publicita, na página de internet, que “a sua missão primordial consiste na preservação e valorização do património dos clientes, através da implementação de estratégias de alocação de activos adaptados às expectativas de rendibilidade e ao perfil de investimento evidenciados”.
O notável sucesso no cumprimento desta missão – a preservação e valorização do património dos clientes – levou João Rendeiro, o seu fundador e maior accionista (cuja carreira de sucesso é contada num livro, ironicamente, apresentado a semana passada), a pedinchar aquela brutalidade de milhões ao nosso banco central; a tal irrelevância no financiamento da economia nacional valeu-lhe o dito manguito.

A feliz conjugação de conversas com as pessoas certas, da reunião dos ditos empresários entalados e da generosidade do espírito natalício (ou da influencia dos entalados), qual conto da Cinderela, e eis uma banqueta sem relevância na nossa economia, transformada, num passe de magica, num banco de prestigio cuja falência – ai Jesus – arruinaria a imagem de Portugal.
Constâncio, depois de bem baralhadas as coisas, com base na penhora dos activos do BPP, vai, afinal, avalizar seiscentos milhões de euros que outros seis bancos nacionais vão adiantar para o BPP cumprir a sua missão: salvar o património dos clientes accionistas, entalando o tuga contribuinte!

Chamem-me burro, ignorante, chamem-me o que quiserem mas, por mais que me esforce, não consigo enfiar nesta minha mona, estúpida e casmurra, porque carga de água é que os tais seis bancos não dispensam, pura e simplesmente, o aval do nosso banco central e aceitam directamente os activos do BPP como garantia do tal empréstimo que lhe vão fazer. Se os activos do BPP são bons para o banco central para que raio é que eles precisam de ter o aval do estado?
Será por esses activos – tipo, acções de empresas como o BCP, a Brisa, etc. – aos preços de hoje, não valerem um chavo, a ponta dum dito? Será? É que eu também preciso de liquidez e tenho uns prejuízos potenciais em algumas acções que gostava de partilhar com o resto dos meus compatriotas (só os prejuízos; dos lucros, se e quando ou houver, eu encarrego-me sozinho, muito obrigado!).

Já agora, se não for pedir muito, será que sua senhoria, o governador do banco de Portugal, poderia dizer, aos paspalhos que o sustentam com os seus impostos, que valor acrescentado trouxe, ou traz, ao banco que dirige e que tenha uma relação directa com o salário que recebe?
Entretanto, hoje comemoramos a restauração da nossa independência! Boas celebrações.


Critérios

(foto daqui)


Escrevo depois de ter tomado o meu pequeno-almoço, um copo de sumo de laranja natural, duas canecas de chá preto e quente com uma pitadinha de leite frio (influências da ascendência aristocrática da Maria) e cento e vinte e oito gramas de manteiga que, à rasquinha, embrulharam os dois brutos e únicos croissants que ainda havia na padaria. É uma chatice esta coisa de ter que me levantar cedo aos sábados para os conseguir arranjar; se não chego cedo, se não chego pelo menos antes das onze e vinte da madrugada, é certo e sabido que já não apanho nenhum.
Quem me conhece deve estar a admirado: cento e vinte e oito gramas de manteiga? Pois é, é verdade! Eu sei, é triste mas é verdade!
Por causa do ácido não-sei-dos-quantos tive que reduzir, drasticamente, o consumo desta delícia e longe vão os bons tempos em que eu mamava trezentos e vinte e dois gramas por pequeno-almoço! Mais grama menos grama, a coisa rondava aí o meio quilo por fim-de-semana. Como muitos de vocês devem estar carecas de saber, a idade não perdoa e a gente tem que se adaptar às ineficiências do organismo, aos vícios que os estafermos dos órgãos e dos ossos ganham com o passar das velas e dos bolos de aniversário.
Agora, de cada vez que vou buscar as análises que me obrigam a fazer – para aí três exames por década – por causa deste maldito ácido que me impede de alambazar naquele maravilhoso derivado do leite, fico numa excitação tal para saber os resultados que mais pareço um professor de matemática quântica a ser avaliado pelo seu colega, o setor de musica.
Será que passei? Ou será que chumbei? No meu caso, ficar abaixo de sete é um feito notável, um alívio do caneco, um resultado digno duma comemoração à maneira, dúzias de bifinhos e de papos-secos bem encharcados no molho daquela especialidade da vóvó Jújú (pronto, já babei a porcaria do teclado! …).
Se a excitação de levar com um sete me põe tão contente como se tivesse ganho o primeiro prémio do sorteio de Natal do café da estação – um Magalhães – o mesmo, provavelmente, não se aplicará na avaliação do tal professor; aí, imagino, qualquer resultado abaixo de dez significará que ou o colega avaliador lhe está a mesmo a dar música e ficar ele com uma nota melhor ou que, no mínimo, o gajo não percebeu a ponta dum dito do que é a matemática quântica.
Se eu celebro os meus sete valores com batatas fritas e bifes, já os professores em situação semelhante talvez sejam obrigados a ficar-se pelos ovos, não a cavalo como eles tão bem sabem, mas crus e peganhentos. As inúmeras sessões de treinos que, por esse país fora, a garotada está a realizar no arremesso desses produtos oriundos dos cus das galinhas não são um bom prenúncio.
Confesso que sinto pena dos desgraçados dos professores que são obrigados a aturar as hordas de bárbaros imberbes que as televisões nos mostram; arrepia-me vê-los aos saltinhos e a gritar palavras de ordem como “os putos unidos nunca mais serão não-sei-o-quê”. Não tarda, vou vê-los a desfilar de boina e com uma t-shirt do Che e, aos berros, a entoar aquela da gaivota que voava, voava, voava e que – filha da mãe! – não se cansava. Agora vão desculpar-me mas vou deixar-vos. A ministra da educação está fora, as escolas estão fechadas e as ruas, a esta hora da matina, estão livres de cromos, o sol brilha, o dia está um espectáculo e eu vou aproveitar para pôr um pouco de bronzeado na tromba; vou pegar na Maria – não literalmente porque as cruzes já não me deixam fazer de burro de carga – e vou dar uma volta pela marginal e apreciar o mar (é claro, se o messias Barraca Hussein Abana não tivesse ganho, todas estas coisas boas não seriam possíveis, não senhor, hoje trovejaria e choveria a potes. Ámen! …

Monday, November 10, 2008

Interpretações




Se pudesse viajar até ao passado e escolher uma outra maneira de ganhar o caroço, sabendo o que sei hoje, escolheria a profissão de jornalista. Por achar que, no que estes profissionais fazem – ver, ouvir, escrever, relatar – está aquela que eu considero a mais importante de todas as liberdades: a liberdade de expressão. Toda a gente deve ser livre de pensar e de dizer o que lhe apetece; duma maneira ou de outra, é-se influenciado, por mais ou menos tempo, por aquilo que se vê, por aquilo que se lê e por aquilo que se ouve. Somos moldados por muitas coisas e muitas dessas coisas são-nos dadas por jornalistas. A profissão ideal para um gajo como eu, um gajo que gosta de aldrabar os outros.

Se eu fosse jornalista, daqueles com muita saída, a trabalhar para uma grande estação de televisão ou para um grande jornal, a minha liberdade de expressão daria para, por exemplo, eu informar e convencer o mundo, com ar grave e solene, de que o meu porto tinha dado uma abada de todo o tamanho nos leões e que só não tinha ganho por uma diferença de catorze ou quinze golos por ter tido um azar do caraças. Quem tivesse visto o jogo saberia que eu, além de ceguinho e aldrabão, era parvo todos os dias; quem o não tivesse visto e não escutasse ou não lesse o que outros jornalistas escrevessem sobre o tema, engolia a minha treta e o resto seriam cantigas…

Esta capacidade dos jornalistas em moldar as opiniões tem, repetidamente, dado para o torto! Quando eles não os têm no sítio e se entregam nas mãos de gente desmiolada percebe-se até aonde pode ir esse poder. De jornalismo passa a propaganda.
Uma mentira repetida vezes sem conta transforma-se em verdade para a maioria das cabeças expostas ao tratamento. Exemplos? O Benfica é o melhor do mundo! Sim, pois…e eu sou mais cabeludo que a Maria Alice! Outro exemplo: a liberdade na antiga União Soviética! Durante décadas, a imprensa local convenceu milhões de pessoas de que viviam no paraíso e de que o inferno estava ali ao lado, no ocidente decadente e capitalista. Os povos dos estados oprimidos pela foice e pelo martelo só souberam que a “verdade” que lhes vendiam era uma treta quando puderam ser eles próprios a julgar ou quando puderam comparar e ver, ler ou ouvir outras interpretações da “verdade”.
Se os jornalistas locais podiam justificar a sua falta de vergonha na propagação de mentiras com o medo que tinham em levar na tromba, já os jornalistas estrangeiros, os que viviam em liberdade, tinham mais dificuldade em explicar porque carga de água é que vendiam a sua honra, mentindo em nome de regimes mais perigosos do que a claque dos super dragões. Se este exemplo já é do passado, a coisa continua para milhões de pessoas por esse mundo fora, na Coreia do Norte, na China, em Cuba, etc.

Pior do que a minha aldrabice na afirmação de que o meu porto deu uma trepa e uma lição de bem jogar no último jogo contra os leões, é a “verdade” que o partido do politicamente correcto, anda a impingir, com a preciosa ajuda dos “seus” jornalistas, sobre a crise do subprime, as suas causas, os seus responsáveis.

A seu tempo, tal como aconteceu em relação às verdades comunistas e ao homem novo que aí vinha, também sobre as explicações desta crise internacional os jornalistas vão ter que engolir sapos atrás de sapos. Escreverem ou dizerem, sem se rirem, que a culpa é dos tipos que querem menos estado – portanto menos impostos, menos desperdícios com subsídios a quem não precisa, menos compadrio – e mais liberdade individual, é duma lata de todo o tamanho.

Quando também este muro cair, no bando dos verdadeiros culpados estarão: o antigo presidente americano Carter e a sua legislação de 1977 (o Community Re-investment Act, no original) que “sugeria” aos bancos privados a atribuição de empréstimos a quem não tinha capacidades para os reembolsar; o senhor Clinton com e o reforço daquela legislação, forçando (já não apenas sugerindo…) os bancos privados a financiar toda a espécie de gente para a compra de casa, com a hipoteca da dita, mas com a garantia última do estado americano; por último, dezenas de deputados – democratas (na sua maioria) e republicanos – que, ao longo de décadas, e apesar da vasta regulação existente e dos múltiplos avisos, não souberam ou não quiseram tirar as palas dos olhos.
Até lá, até à queda deste muro, como aconteceu até à queda do de Berlim, eu e outros como eu que destoam do actual celestial consenso (felizmente somos uma minoria…segundo se diz) vamos ter que aguentar e levar tautau no tutu por causa destes pensamentos maldosos.

Tuesday, November 04, 2008

Preces




Quando o safado e bem anafado ouriço se soltou do castanheiro e aterrou em cheio na minha pinha, fui o único que não teve vontade nenhuma de rir. Naturalmente que o meu primeiro gesto foi coçar com ternura a careca ferida, mandar as castanhas para os carvalhos e ir, a seguir, de trombas, alapar-me à lareira em vez de continuar ali, no quintal assassino, a dar cabo da espinhela na apanha das oito toneladas de castanhas que os meus pais fizeram o favor de deixar caídas no chão para me escravizarem.
Dá-lhes gozo…o que é que eu hei-de fazer!

Sai um gajo da cidade, farto daquela confusão de gente que a crise empurra para os centros comerciais e da correria que é procurar uma caixa de Multibanco que ainda não tenha sido assaltada, com intenções de passar um fim-de-semana sossegado e agradável na província e acaba a ser gozado por aquela malta do campo.

Depois queixam-se e dizem que as aldeias estão a ficar sem gente, admiram-se que a malta troque o campo pela cidade.
Pudera! Na cidade, quando quero castanhas não sou eu que as vou apanhar não! Isso é que era bom! Aliás, na cidade, a malta está tão avançada que a castanha já nem vem com o ouriço; pode vir com bicho, mas com picos, isso é que não! Castanha em árvores, embrulhada em ouriços, é mesmo coisa do século passado, coisa do campo! Às tantas ainda pensam que Magalhães é nome de gente!

Portanto, lá estava eu, a tola mais picada do que carne para esparguete à bolonhesa, a mola toda dobrada e aqueles dois marretas ali ao alto, na galhofa, a gozar o panorama.
Como sou católico, especialmente quando está a trovejar mesmo em cima de mim, rezei para que, também eles, fossem presenteados com, pelo menos, uma dúzia de ouriços cada um.
Contudo as minhas preces não surtiram efeito; segundo informações recebidas do além, há congestionamento grave nas linhas que levam as orações dos tubarões que, como eu, só se lembram que são católicos quando se aleijam e os pedidos estão a ser entregues ao destinatário com muito atraso.

Um santinho, que falou comigo na condição de eu manter o seu nome no anonimato, disse-me que, por causa da avalanche dos pedidos, as cunhas eram tantas, vindas de todo o mundo e de gente tão importante que parecia o nosso país; confidenciou-me alguns dos nomes, o que é que eles suplicavam, as cunhas que metiam, nomes que, bem, a vocês nem vos passa pela cabeça! A nata da nata das sociedades, ou como dizem os venezuelanos “la créme de la créme, carago”. E a procissão ainda vai no adro!

Eu, se já não fosse uma besta, acreditem nisto, tinha-me tornado numa! Logo ali! Em maior numero do que políticos no poder – que eram bastantes – estavam os banqueiros, de todas as cores e de todos os feitios. No meio de toda aquela gente importante a pedir coisas muito sérias, havia um anónimo caramelo a rezar pela repetição dos dois últimos jogos realizados pelos dragões (eu disse ao santinho para, à socapa, apagar esse da lista, ainda nos arriscamos a levar mais na repetição se o pedido for aprovado).
Que me lembre, este meu pedido anónimo era o único pedido totalmente egoísta. Os outros não, os outros só queriam a paz na terra e o bem geral.
Embasbacado com a quantidade e qualidade da lista dos banqueiros pedintes, perguntei-lhe o que é que o Espírito Santo achava daquilo mas fiquei sem moedas para prosseguir a conversa e o santinho foi-se. Quanto a mim, continuo picado e cheio de dores nas costas!

Penduras




Convoquei uma reunião de emergência da minha malta, uma espécie de assembleia-geral extraordinária dos moradores lá de casa, para lidar com a nova realidade politica e económica da comunidade em que estamos integrados.
Por causa da urgência da coisa, em vez das habituais cartas registadas com aviso de recepção, convoquei a malta com três valentes berros. O cão dos meus filhos, que me tem mais respeito do que eles, foi o primeiro a comparecer e, sentados, esperámos pelos outros que, diga-se em abono da verdade, quando chegaram não pareciam, ainda, nada despertos.
Meu povo – comecei eu depois de confirmadas as identidades de todos os presentes – sabem por que é que convoquei esta assembleia-geral extraordinária?
Não, ninguém sabia! Passados dez minutos fui forçado a concluir que nenhum deles fazia a mais pequena ideia do que estava ali a fazer. Pelas faces misericordiosamente raivosas, supunham que eu, para os ter acordado, aos berros e às seis da manhã, tivesse pifado de vez mas, quanto ao resto, mais nada.
Entretanto, imitando o nosso ministro das finanças na segunda apresentação do orçamento geral do estado, eu distribuíra pela mesa e para uso dos estremunhados presentes, meia dúzia de rebuçados de mentol, quatro fatias frias de pão torrado, dois pasteis de nata e, para mim, um sumo de laranja natural, três croissants carregadinhos de manteiga e uma caneca de chá preto e quente com uma pitada de leite frio.
Nada desencorajado, continuei: “Se vocês andassem atentos ao que se passa lá fora, teriam percebido que, como eu já desconfiava, desde há dias que foi oficializada a união socialista da Europa e que, do outro lado do atlântico, foram criados os estados socialistas da América do norte. A meu ver, a coisa teve que ser oficializada porque, com o tremendo sucesso do projecto democrata americano de atribuição de empréstimos para compra de casa – baratos e à fartazana – a quem os não podia comportar, tornou-se impossível tapar os buracos que esta, imposta mas disfarçada, redistribuição da riqueza acabaria por provocar nos grandes bancos mundiais, bancos geridos por seres humanos espertos, atentos, activos, venerandos e salvos por árbitros comprados.”
Para dar tempo a que as minhas palavras fossem bem digeridas, bebi um gole de chá e dei mais uma trinca no croissant; passeei o olhar pela mesa para ver o efeito inicial. O mais atento era o cão, não sei se pela partilha das preocupações se por cobiça à minha comida; os restantes mantinham-se irritantemente apáticos, com excepção da Maria que, de cabeça baixa e olhos fechados, parecia meditar na gravidade da situação que eu ali expunha.
Esmorecido pela reacção da plateia, fui directo aos finalmente: “Bem, isto quer dizer que os juros mensais do empréstimo que contraí para construir aquela bela ponte que liga o meu quarto à adega vão ser muito superiores ao esperado e mais do que todas as minhas receitas. Por isso, como tu, meu filho mais velho, já começaste a trabalhar, é-te imposto entregar-me uma parte do teu salário para eu ter algum para dar ao teu irmão mais novo, para ele gastar no tabaco, nas bejecas e em tudo o mais que precisar.”
O desgraçado do cão foi o segundo a ganir antes de eu poder concluir; o primeiro foi o meu puto mais velho cujo salto, desesperado e brusco, provocou a dor ao animal; o meu mais novo, finalmente com ar de quem tem qualquer coisa parecida com um cérebro naquela coisa que lhe fica por cima dos ombros, perguntou-me: e isso é a somar à mesada que tu já me dás?
A minha esmerada educação e a censura do director deste jornal impedem-me de transcrever o resto da reunião.

Santos Populares



(Magnífico trabalho do artista NATHAN SAWAYA a ver aqui)

Ainda a propósito da rebaldaria que tem sido, desde há décadas, a gestão das casas, lojas e outros espaços que pertencem à Câmara Municipal de Lisboa, foi publicada uma lista dos felizardos, uma lista que tem quarenta páginas. Ao mesmo tempo, gente lá da câmara, gente distraída mas, ainda assim, gente importante, foi comentando o assunto:
José, um dos irmãos Sá Fernandes – o conhecido duo maravilha do bloco justiceiro, mistura do Zorro da Mouraria com o Robin de Alcântara – ficou de boca escancarada por causa do valor das rendas cobradas pela autarquia onde, supõe-se, é vereador do ambiente e de mais umas coisitas (a notícia não esclarece sobre a causa do espanto: se ele se deve aos baixos valores das ditas ou ao facto da tramóia ter sido desvendada);
Ruben de Carvalho, o comunista, outro veterano da autarquia e também ele membro do chiquíssimo clube dos vereadores distraídos, concluiu – brilhantemente – que a autarquia não anda a fazer uma boa gestão do seu património;
Carmona Rodrigues, o independente, lamenta que a câmara tenha sido um mau senhorio durante tantos anos e Fernando Negrão, membro recente, sim, sabia que havia umas rendas baixas mas assim, tão minúsculas, ah não, isso não, nunca tal lhe passou pela cabeça.
Até agora, hora do fecho desta edição, desconheço comentários de Jorge Sampaio, João Soares e Santana Lopes, antigos dirigentes desta agremiação da cunha.

Caso, por inveja e dor de cotovelo, estejam a pensar em aderir a este distinto clube e fazer companhia a este notável ramalhete de servidores da causa, convém que não se esqueçam de que a coisa não é fácil, que a lista de espera está à cunha e que há uma prova importante a cumprir, ignorar conhecimentos, conhecimentos difíceis de esquecer mas cuja ocultação é fundamental. Por exemplo, entre muitos outros exemplos, os candidatos têm de saber esquecer que:
a) Fernando Ka, ex-deputado do partido socialista e activista dos direitos dos imigrantes, paga a enormidade de cinco euros e sessenta cêntimos por mês por uma casita social, uma barraquita com cinco assoalhadas e quintal, localizada perto da praça de Espanha;
b) Dina Aguiar esturra vinte e seis euros mais trinta e cinco cêntimos no atelier no palácio dos Coruchéus;
c) A Associação dos Arquitectos Portugueses paga, por uma fracção num palacete, desde 1990, uma renda de…zero euros;
d) O Restaurante Gôndola – restaurante de comida italiana com oitenta lugares no interior e oitenta na esplanada, com preços por refeição a variar entre os vinte e os trinta euros por pessoa – paga cento e noventa e nove euros mensais;
e) O PS, PSD e CDS-PP pagam rendas mensais de setenta e cinco euros, quarenta e seis euros, trinta euros e trinta cêntimos respectivamente. Em 2005, o PCP pagou quatro euros e cinquenta e cinco cêntimos por um espaço na Ajuda.
(Ainda à espera de esclarecimentos, a indicação de que o colégio de São João de Brito – um dos mais caros colégios privados e cujo lema é “Divulgar a Fé promovendo a Justiça” – paga uma renda de cinquenta cêntimos).

Pela (insignificante) amostra já devem ter topado a trabalheira que dá um tipo armar aos cucos e querer fazer parte de clubes selectos; deixem-se de coisas, façam como eu, esqueçam essas ideias chanfradas e dediquem-se à pesca. Deixem as coisas difíceis para quem sabe!

Pândegos

(Harold Escalona/EPA)

Aí está ele de novo: Hugo Chavez, turista acidental, amigo de peito dos camaradas Soares e mi amigo José, em mais uma visita de negócios! Como ele tem muito petróleo e muita lata (refiro-me a paleio e não ao material das casas onde vivem milhares dos seus desgraçados apoiantes) este é o género de crápula com quem os nossos mandantes não se importam de ser vistos em público, sem embaraços de maior.

Há quem me jure que esta amizade, este apoio e atestado de credibilidade internacional, é só fachada, uma farsa montada pelos camaradas e comparsas para proteger os milhares de emigrantes portugueses que lá estão a fazer pela vida e que, sem a peça de teatro montada, ficariam expostos a terríveis consequências.

É, eu acredito que sim, até porque é essa mesma politica que os camaradas aplicam a outros países que também têm petróleo e milhares de emigrantes nossos, também eles subjugados por regimes opressivos, internacionalmente isolados, evitando insinuar uma leve critica ou um insulto que exponham os nossos compatriotas a umas valentes nalgadas. É o caso dos USA, onde a presença de milhares de emigrantes, impedem os nossos camaradas (os governantes e os amigos) de falar grosso e do alto da burra!

O Huguinho – diz ele – veio para vender petróleo a pataco e comprar bacalhau, azeite, casas e um milhão de “Magalhães”, aparelho de computação que o órgão de propaganda oficial do governo – a RTP1 – insiste em classificar como um produto genuinamente português, o primeiro portátil inteiramente português. Alertado por escritos de Pacheco Pereira, pesquisei na Internet e fui ver o telejornal das 13 horas da terça-feira da semana passada, dia 23 e fiquei com a certeza de que não foi o excesso de esparregado de nabiças do Tourigo que me pôs enjoado.
Com tão descarada propaganda, tanta insistência numa evidente mentira, parece-me que já não é a mim nem a vocês que o canal estatal quer convencer mas que são eles – os jornalistas – que precisam de ser convencidos, obrigados a acreditar na verdade oficial que lhes é distribuída por quem manda, por quem comanda e por quem puxa os cordelinhos daquela tasca.

Ou então, simplesmente, limitam-se a achar que o povo português é tão burro que já nem a aparência é preciso manter e, que se dane, afinal de contas a maior parte da malta está-se nas tintas e dependente do mesmo patrão, desde que, no fim de cada mês, o taco venha, o resto é paisagem.
Imagino-me sentado na cadeira do apresentador, minutos antes do programa ir para o ar, a passar uma vista de olhos pelo material que vou ler, a perguntar ao chefe da direcção se o que está ali escrito é mesmo verdade, ele a encolher os ombros enquanto responde: faz de conta!

No sítio da Internet do “Magalhães” informa-se que cada aparelho custa 180 euros a produzir mas que será vendido a preços que vão dos zero aos cinquenta euros, consoante os rendimentos do agregado familiar que o adquirir. Atendendo a que a birra do engenheiro é distribuir meio milhão destes aparelhos, isto quer dizer que o custo, para os contribuintes, pode variar entre 65 e 90 milhões de euros por cada meio milhão desta coisa!
Fixe! Assim, até os cerca de três mil pobrezinhos – entre amigos, artistas, jornalistas, familiares e outros necessitados – a quem a câmara municipal de Lisboa atribuiu casas, moradias, palácios, lojas e apartamentos com uma renda média de EUR 35.48, podem ter condições para comprar um “Magalhães”. Fico tão contente e tão aliviado…

Tuesday, September 09, 2008

Tiques




Eu ando a fazer pela vidinha, pela minha vidinha, vocês andam a fazer pela vossa e, se não andam, deviam andar.
Nesta labuta pela minha vidinha, sempre a tentar mais e melhor para mim e para os meus, vou esticando a corda até aonde o meu grau de desenvolvimento me deixa ou até aonde me deixam ir o conjunto de leis que regem o nosso comportamento.

Sendo um tipo vagamente educado tenho consciência de que, passando certos limites nesta corrida por uma vidinha mais rica e mais próspera, o mais certo é pisar alguns calos e alguns traços contínuos, brincadeiras que me habilitam a ganhar uns quantos despistes, dos quais poderei sair com mais ou menos escoriações, ou a levar na corneta pela medida grande e apanhar um cartão vermelho mostrado pelos árbitros que representam o conjunto dos outros senhores que também labutam pelas suas vidinhas.
O conjunto dos árbitros que regulam este pandemónio todo e que nos representam a todos nós cidadãos, é o “estado”. É o estado que deve refrear o apetite individual da minha ganância, mas sem interferir no jogo, sem ajudar nenhum outro ganancioso em especial.

Esta sensação de que sou vagamente educado sugere-me que devo ser o único a pagar o preço dos meus prejuízos e que não devo andar a lamuriar-me aos outros pelos espetanços que me causei; verdade seja dita que, quanto maior é o prejuízo do meu espetanço tanto menor é o número dos interessados na minha lamúria. A acabar na maior parte dos árbitros que integram o estado!

Esta mesma sensação de ser vagamente educado força-me a partilhar o lucro dos meus êxitos, não apenas com quem eu muito bem escolho, mas com gente que nunca vi mais gorda ou que, simplesmente, nunca verei; verdade seja dita que, quanto maior for o meu êxito maior será o numero dos interessados no meu sucesso. A começar por todos os árbitros que integram o estado.

Por causa desta minha tresloucada maneira de pensar é que eu fico cheio de urticária quando me falam em socialismo e me tentam explicar porque é que os impostos são tão necessários à minha sobrevivência como a sarna ou a peneira da batata.
Hoje estou pior do que estragado, não por causa de nenhum árbitro cá do burgo mas por causa do Freddie e da Fannie, bimbos que a maior parte de vocês não conhecem mas, acreditem, que nos vão dar água pela barba.

O Freddie e a Fannie, ao contrário do que o nome sugere, não são gente de carne e osso; são um par de jarretas gigantes, são duas empresas americanas, dois mamarrachos inventados há quase cem anos e que detêm quase metade das casas compradas pelos americanos com o recurso à sua hipoteca.
Estes mastodontes empresariais, monopolistas em terra de gente supostamente adepta ferrenha da livre concorrência, foram crescendo à custa de muita protecção, muito compadrio e aldrabice e mantendo certos privilégios, como regras menos rigorosas na concessão dos empréstimos (era quase garantido que o “estado pagaria” se/quando algo corresse mal); agora, acumulados que estão biliões e biliões de dólares em prejuízos, foram nacionalizados porque, segundo a opinião politicamente correcta, são empresas tão grandes, tão grandes, que não se podem deixar falir. Ironia das ironias, não é?


É, lá isso é, mas ironias à parte, esta nacionalização, beneficia os infractores (aos ricos são garantidos os seus lucros, com o risco eliminado por parte do governo) e vai castigar os pobres dos contribuintes americanos que pagarão estes truques através dos impostos (aumentos) e de taxas de juro mais altas. É a via para o socialismo, um regime capitalista sem risco para quem pode e para quem manda!

Como a gente se constipa quando os americanos espirram, já estou todo arrepiado com tanto tique socialista nas terras do tio Sam e nas implicações que aquela decisão vai ter por cá. Vou já enfrascar-me em óleo de fígado de bacalhau!

Apre!



Estou tão furioso que até espumo, é tão grave que alguém já sugeriu que o melhor era eu dar um saltinho ao hospital mais próximo, de preferência bem amarrado a uma maca, fazer uns testes para ver se não estou infectado com a raiva e, se for caso disso, levar umas quantas vacinas.
Nada a ver com os falhanços dos toscos dos avançados tripeiros nem com o monumental frango que o seu nababo guarda-redes deu na primeira visita à capital e que nos impediu de dar (mais) uma sova aos lampiões; também não tem a ver com o (alegado) silêncio do partido dito da oposição o maior, nem por causa da festa anual dos comunas, que vai ocorrer por estes dias. Nenhum dos três assuntos mencionados me aquece nem arrefece, para mim é rigorosamente igual ao pífaro. Já vos conto o que me transtornou!
Depois de uns dias de férias cá pelo burgo, como já tive ocasião de dizer, fui passar uns dias a Espanha, aproveitar os preços mais em conta e águas marítimas mais quentes.
Na minha pasta, que vai comigo para todo e lado e que é, graças às novas tecnologias, uma espécie de escritório ambulante, levei o meu portátil, a minha agenda, sais de frutos, cartões de visita, o carregador do telefone, um isqueiro e a menina da placa de acesso à Internet móvel da TMN, brinquedo que me permite estar em contacto com o mundo inteiro em qualquer local e que usei regularmente enquanto não atravessei essa linha imaginária que nos separa da Espanha.
Chegado ao país vizinho, não mais importunei a dita menina da placa, mantive-a quieta e bem sossegadinha, bem enfiada no escuro e no fresco do cabedal.
Por razões imperativas e por volta da uma da manhã, hora local, necessitei de transferir dinheiro para um dos meus filhos; despertei a menina da placa do seu sono de princesa e, em três minutos e meio, estava despachado! Durante os dez dias em que andei mergulhado nas águas do mediterrâneo, só mais uma vez fui forçado a recorrer à menina, desta segunda vez, entrada e saída completadas em oito minutos e picos.
Ontem recebi a factura daqueles onze minutos de prazer (curiosamente correspondentes a 69 centenas de KB de dados descarregados): EUR 47,20 ou, em moeda antiga, nove contos e quatrocentos pacotes! Parafraseando o anúncio dos CTT: fonix!
Podia ter sofrido uma apoplexia ou um ataque qualquer que me tivesse fulminado em dois tempos; já não basta o mês de Setembro ser um dos meses em que mais me vão ao bolso – forçam-me a fazer o segundo empréstimo do ano ao estado central sem me pagaram qualquer juro pelos adiantamentos, cobram-me a segunda prestação do imposto sobre os imóveis e, a cereja em cima do bolo, obrigam-me a pagar o IRS – vêm também estes salafrários da TMN depenar-me ainda mais.
Não gostei, zanguei-me, telefonei-lhes, ah…pois claro, compreendemos muito bem o seu problema mas…está na tabela, não podemos fazer nada, blá, blá, blá!
Perguntarão: quem é, ou quem foi burro? Respondo: eu, eu, eu, só eu e mais ninguém!
Aos apalpões do estado eu não posso fugir, pago e não bufo e, ano após ano, tenho que gramar a pastilha; a coisa muda de figura no caso dos beliscões da TMN, felizmente neste caso há outros a prestarem o mesmo serviço, de maneira que escrevi-lhes uma carta de despedida, sem lágrimas derramadas, mudei-me para a Vodafone, o meu contrato e mais três contratos da família e hei-de continuar a tentar levar mais uns quantos.
Ah, eu sei, eu sei que os gatunos da TMN se estão nas tintas para mim, sei que a Vodafone – como os outros – também devem fazer coisas destas mas se a gente não faz nada quando pode, mais tramados seremos no futuro.

Investigando

(foto daqui )

(Nota da Maria: aquilo sim era uma obra de arte, deviam ter visto!!!! Batia esta verdadeira obra da artista Tracy Emin em qualquer exposição de arte contemporânea. Sim, sim, não acreditam? Esta é uma fotografia de uma obra de arte chamada "My Bed" apresentada, em 1999, pela dita artista na prestigiada Galeria Tate de Londres, tendo sido uma das obras nomeadas nesse ano para o Prémio Turner. O nosso menino ganhava de certeza com a sua "obra de arte")

Os especialistas da meteorologia mundial e europeia andam nitidamente a apanhar bonés. Ainda a primavera mal tinha começado e já nos anunciavam um verão quente, dos mais quentes dos últimos anos, um verão que ia fazer suar as estopinhas ao mais refinado dos friorentos, música para os meus ouvidos e para os do avô paterno dos filhos da Maria.
Filhos esse que, armados em carapaus de corrida, à medida que foram crescendo em tamanho e em número de anos, foram também criando alergias à companhia dos que, com tanto amor e carinho, se fartaram de sujar as manápulas na limpeza dos seus rabiosques enquanto bebés. Eu, por acaso, nunca sujei as minhas! Sempre que fazia esse sacrifício, borrifava a minha tromba com o frasco de perfume que estivesse mais à mão, tapava o nariz com a mão direita, enfiava a esquerda num rolo de papel higiénico e depois gritava pela mãe da criança, para que ela viesse segurar e levantar as duas patas do bicho enquanto eu, de costas, tentava acertar naquilo que era suposto limpar. Ainda hoje desconheço porque é que, ao fim de dois sacrifícios, eu que até gostava daquilo, nunca mais fui requisitado para o serviço.
Esta alergia tem as suas vantagens nas férias mas tem, também, as suas desvantagens.
Do lado positivo, as viagens ficam mais baratas, somos menos elementos e viajamos com muito menos bagagem – excepto, claro, quando passamos mais do que uma noite fora, situação que a Maria aproveita para arejar toda a sua roupa, duas toneladas e meia de panos que ocupam sete dos três armários lá de casa, mais os quase cento e trinta e seis pares de chinelas, sandálias e sapatos, metade dos quais parecem, pelo menos a mim e à vista desarmada, iguaizinhos uns aos outros.
Do lado negativo, deixamos a habitação entregue aos bichos, o que transforma o regresso numa espécie de filme sobre a caça a assassínios em série, descobre-se a primeira vitima, reduzem-se os suspeitos a dois mas, depois, há todo um trabalho de investigação forense a fazer para descobrir quantos mais crimes foram cometidos, a sua real gravidade e aonde estão enterradas todas as vitimas. Sendo conhecido o hábito que os bichos têm para, quando sozinhos, se juntarem em alcateias violentas, sedentas e famintas, nem sempre é fácil arranjar um sólido conjunto de provas que incriminem os nossos dois suspeitos principais e todos os seus cúmplices.
Com o passar dos anos tornou-se mais fácil detectar os crimes; não é o desenvolvimento das nossas capacidades de investigação que contribui para esse êxito mas sim o desleixo dos criminosos, que passaram a estar-se nas tintas para os indícios que – agora – deixam à vista do mais ceguinho dos detectives; recentemente, demos de caras com os restos mortais de cento e vinte e três garrafas de cerveja, sobranceiramente largadas num caixote do lixo sem tampa. À laia de suborno, os mafiosos lá deixaram meia dúzia delas, cheias, no frigorífico.
Há duas semanas porém, chegados de um fim-de-semana passado no Tourigo, essa bela e cosmopolita cidade beirã, detectámos um novo tipo de crime, sem qualquer dúvida fruto duma mente desequilibrada, temos as pistas, temos os suspeitos do costume, achamos que sabemos o móbil mas faltam-nos as provas.
Movida por um pressentimento ou, sabe-se lá, se abençoada por um simples golpe da sorte, a Maria fez uma coisa que já não fazia há anos, foi trocar os lençóis da cama de um dos bichos; o seu rosto, quando me mostrou os lençóis trocados, espelhava o terror provocado pela descoberta de duas toalhas de mesa, de cetim verde a que fazia de lençol de baixo e, a que fazia de lençol de cima, uma toalha de linho, bordada à mão há quase oitenta anos, a Ferrari das nossas toalhas de mesa!
O principal suspeito mantém o seu depoimento inicial: não fez aquilo com más intenções, foi sem querer, se calhar foi por causa do sono que tinha quando fez a cama. Nós, a acusação, não acreditamos, prosseguiremos com as investigações e só as daremos por terminadas quando descobrirmos o que é que o estafermo esteve a comer na cama.