Monday, April 27, 2009

Redacção




Eu gosto muito da Páscoa. A Páscoa é das alturas do ano mais bonitas e é uma daquelas de que eu mais gosto. É quase tão boa como o Natal. Mas eu gosto mais do Natal. No Natal há mais prendas e algumas até são para mim e só é pena haver mais frio no Natal. E chuva, também há mais chuva no Natal e eu não posso ir jogar à bola com os outros meninos tantas vezes como jogo na Páscoa.

Também gosto da Páscoa por causa das amêndoas e dos folares. Mas gosto mais dos folares de azeite. Algumas amêndoas são azedas e sabem mal e por isso é que eu tenho muito cuidado e não as trinco assim sem mais nem menos. E também porque é pecado ser guloso.

Na Páscoa, às vezes também há muito vento e muito frio. Na Pascoa às vezes também recebo umas prendas que a minha madrinha me dá. O meu padrinho não me dá nada! Mas eu não me posso queixar, não posso dizer nada porque senão ele depois não me defende dos meninos mais velhos que se metem comigo e me chamam caixa de óculos e que, ainda por cima, me querem bater e ele até me ensina alguns truques de boxe.
Temos treinado muito! Eu encosto-me à tileira, normalmente é assim que acabo por ficar lá na escola, com as costas coladas às paredes, ele faz de contas que é um dos meninos maus que me quer dar na tromba, depois ensina-me umas fintas, deixa que eu me desvie e até parece que já sou capaz de me defender sozinho. Quando as aulas começarem é que eu vou ver se estive com atenção ao que o meu padrinho me ensinou.

No domingo de Pascoa, o senhor Padre vem a nossa casa, traz uma cruz com o Nosso Senhor, a gente ajoelha-se e beija-lhe os pés, depois os adultos ficam a falar do tempo e doutras coisas sérias com o senhor prior, que também nos faz perguntas sobre a escola e a catequese. Quando ele sai a gente vai para a mesa comer.

Além da visita do senhor Padre, na Pascoa há outras pessoas que visitam a nossa casa. A tia Josefina é uma dessas pessoas que costuma vir cá a casa na Pascoa. Eu acho que ela deve ter quase noventa anos mas, como vive na cidade, ainda tem o cabelo todo preto. A tia Josefina diz que, lá na cidade, a retrete é dentro das casas e que há umas torneiras só para a água quente e outras só para a água fria. Como a toda a gente diz que a tia Josefina mente muito, eu não sei se é por isso que ela não tem cabelos brancos. A novidade da Páscoa deste ano é que ela jura que o namorado da filha mais nova, a Fernanda (cá em casa tratamo-la por Nandita), há-de vir a ser um grande político daqui a muitos anos. Anda muito orgulhosa, ri-se muito e pisca o olho quando conta que está sempre a dizer à filha “Fernanda, canse-o filha, canse-o!”. Eu nunca tinha ouvido uma mãe a tratar a filha por você mas acho que deve ser uma das tais modernices da cidade.

A minha professora é boa. Quer dizer, ela não é boa no sentido que eu lhe vou dar daqui a uns anos…não…ela é mesmo boa a ensinar os meninos da nossa classe a escrever, a ler e a contar, coisas que vão ser importantes se eu quiser ser alguém no futuro.
Eu gosto muito da minha professora e não estou a escrever isto só para ver se ela me dá uma boa nota. Estou a escrever isto porque andei no ripanço e agora o senhor director está à espera disto para o jornal ir para a tipografia.
Assinado: Joãozinho fogueteiro

Liberdades


Ilustração de John Dyson daqui

Gastei uma pequena fortuna numas sapatilhas xis-pê-tê-ó e agora ando todo torto; eu não devia escrever “sapatilhas” porque os idiotas dos meus filhos, de cada vez que digo “sapatilhas” reviram os olhos, ficam com aquela cara de enjoados que fazem quando a Maria lhes arrefinfa com peixe cozido no prato e tratam-me como se eu os obrigasse a partilhar o quarto com um extraterrestre. Para eles, uma sapatilha é aquela espécie de sapato que um bacano usa, sem meias, no ginásio da escola. Tudo o resto é um “ténis”.
Bom, dizia eu que, por causa do formato das sapatilhas, a unha do dedo grande do meu pé esquerdo está muito parecida a governação cá no burgo e com o nosso primeiro em especial: uma nódoa negra e em riscos de cair!

Ainda por cima, resolvi, por estes dias, vir de férias para o Algarve, bronzear a pernoca, e é uma vergonha andar de xanatos na praia com o dedão à mostra, parece-me que toda a gente olha exactamente para lá, o único sitio do meu esbelto corpo que devia estar, em obras de restauro, escondido atrás dum taipal bem opaco.
Como é que toda esta a gente, portugueses e estrangeiros, que se cruza comigo na praia tem conhecimento desta nódoa é para mim um mistério; a nódoa está em segredo de justiça, este nosso país está mesmo nas lonas, tudo se sabe..
Às tantas foi o telejornal da Manuela Moura Guedes que espalhou a notícia, a moça, com aquela boca enorme, tipo reforma de muitos jovens políticos, não sabe ouvir e calar como a maioria dos seus colegas da estação pública.

Ainda se ela só desvendasse segredos sobre a nódoa negra do meu dedo do pé, vá que não vá; agora, andar, todas as sextas-feiras, a noticiar coisas sobre o Zézito e algumas práticas de companheiros seus, isso é que é inadmissível e está mesmo a precisar de levar com um processo em cima para ver como é que elas lhe doem.

Em matéria de processos, o Zézito anda cá numa roda viva, numa azáfama tal que temo pela sua saúde, tanta excitação ainda acaba por lhe provocar um desarranjo nalgum órgão vital, logo agora que a crise fez como a Toyota, veio para ficar e ficou mesmo e esta coisa de passar o tempo e ler os jornais e a ver as televisões é capaz de interferir, negativamente, com o trabalho do homem.
Consta que na 11ª Vara – 3.ª Secção deu entrada a Acção de Processo Ordinário 783/09.2TVLSB, no valor de EUR 250,000 cujo autor é José Sócrates Carvalho Pinho de Sousa e tendo por réus o jornal Púbico, o seu director José Manuel Fernandes e ainda Paulo Ferreira e Cristina Ferreira. Repito: consta, não estou a afirmar que seja verdade!

Além dos processos aos marmanjos que referi lá em cima, o primeiro-ministro, alegadamente, também processou criminalmente João Miguel Tavares, um cronista que escreve no DN, para quem ver a pornográfica Cicciolina defender a monogamia teria tanta credibilidade como ver o senhor José Sócrates a apelar à moral na política portuguesa.
Na sua prosa, o cronista relembrou as declarações do primeiro-ministro, durante o congresso albanês do partido socialista, contra alguns directores de jornais e de televisão, lembrando que “quem escolhe é o povo porque em democracia é o povo que mais ordena”, uma versão revista e actualizada da tese defendida, com muito sucesso diga-se de passagem, pela Fatinha de Felgueiras e pelo major Valentim de Gondomar.
Bem, com tanta conversa dei uma topada, vou ter que recorrer a um especialista. Vou ali e venho já!

Saturday, April 25, 2009

Ilusões



Estavam à espera de quê? Que o pastor alemão fosse para terras de África distribuir camisinhas pela malta e incentivar o maralhal a mergulhar em orgias de sexo, drogas e rock and roll? Estavam? A sério…?

Bem, se realmente estavam (ou se estão…) então mais vale tirarem o cavalinho da chuva e ficar, sentados, à espera – recomendam-se uns sofás bem confortáveis para evitar lesões graves na coluna!

É uma maçada para a inteligência intelectual da nossa sociedade nacional e europeia, cada vez mais laica e, como é fácil de comprovar, cada vez mais perfeita, que os homens que ocupam a cadeira de São Pedro teimem em não ver a luz, a deles, a única luz que devia brilhar no nosso firmamento e se recusem a abraçar as suas progressistas ideias. É uma chatice, eu sei que é, a Igreja não ser exactamente aquela que cada um de nós tem na sua própria tola, vá-se lá saber porque é que isso não é possível.

Se, apesar das evidências, a Igreja quiser fazer finca pé e insistir na defesa de posições completamente fora da moda, então só vejo uma solução para entrar nas boas graças do politicamente correcto que nos rege: mudar de agência de comunicação e alterar radicalmente a politica de marketing.

Eu, membro do grupo de fiéis que a quer ajudar a mudar de imagem perante esta opinião publicada, tornando-a mais subserviente para com os poderes das republicas laicas reunidas em Bruxelas, humildemente aconselho a contratação da agência que criou o anúncio para a rádio pública (a tal que todos pagamos, todos não, quase todos, há sempre uns insensíveis que fogem ao pagamento deste justo imposto e que, assim agindo, não estão a contribuir para uma sociedade radiofonicamente mais justa), anúncio onde, justamente, se vende a ideia de que as manifestações são um entrave para quem quer chegar a horas.
Deixo uma dica para uma versão que caía que nem ginjas: um estafeta leva uma caixa de camisinhas para um cliente aflitinho e fica engarrafado por causa duma manif contra os chuchas e organizada pelos comunas. Um caos!

Sim pode! A Igreja pode mudar! Basta despir-se de certos tabus, aliar-se ao camarada ministro da propaganda Santos Silva e à sua ERC, assinar um contrato com o canal um da rtp para uma mais eficaz distribuição da Palavra mensagem, a coisa fica feita e o sucesso está claramente garantido (não é por acaso que a senhora que emprestou a voz ao tal anúncio se chame Eduarda Maio – uma clara alusão aos pastorinhos e ao mês de Maria – e seja a autora do famoso best seller “o menino de oiro do ps”).

Se – por absurdo! – mesmo assim a coisa não resultar, ainda há métodos um pouco mais drásticos a que a Igreja pode recorrer, pede ao engenheiro que meta uma cunha e manda uns quantos prelados para estágio com o camarada Chavez (estes cursos estão em saldo, o preço inclui uma peregrinação ao santuário de Cuba e uma saudosa homenagem ao assassino herói revolucionário Che Guevara e… um Magalhães em segunda mão mas sem erros).
Então verá então como é bom ser tratada com respeitinho!

Viganças




Ahhh que maravilha! O Sócrates foi para Cabo Verde e eles vieram para aqui!
Eles, são os dias quentinhos, dias que, para minha alegria, regressaram ao fim de ausência prolongada; graças a eles, estou quase a mandar de férias a máquina do aquecimento, uma das várias máquinas com quem mantenho uma complicada relação de amor e ódio, a malvada reconforta-me o esqueleto e arrefece-me a carteira a um nível que me põe doente.

Passam os anos e eu também me vou passando, dá a impressão que a minha pele está a ficar mais fina e menos resistente ao frio, não sei se isto é de série, quer dizer, se isto também acontece com vocês ou se, pelo contrário, é mais um defeito de fabrico de que eu devia reclamar, por escrito, aos progenitores.

Esta maior vulnerabilidade ao frio provoca também uma maior deterioração na saúde da minha carteira já que, para me manter relativamente menos enregelado, recorro cada vez mais ao gás natural, produto que é, em Portugal e só por acaso, mais um dos muitos que atiram para o carote. Com o preço a que ele está, qualquer aumento da temperatura é muito bem-vindo e é menos uma ralação para a carteira, a infeliz precisa de descanso, o que lhe fazia bem era ir para termas, seis anitos de cura a convite dum generoso vencedor do euromilhões.

Para poupar na factura, eu podia muito bem vestir para aí umas quatro camisolas mais aquelas ceroulas com ursinhos cor-de-rosa bebé que comprei há trinta anos quando tive aquele febrão e me quis mascarar de comuna, mas isso depois ia dar-me uma trabalheira do caraças a despir e arrepio-me só de imaginar todos aqueles minutos com partes do corpo ao léu antes de me poder enfiar no quentinho dos lençóis.

Para complicar ainda mais a coisa, os filhos da Maria são uns desleixados de todo o tamanho; aqueles energúmenos têm, entre outras coisas, o termóstato cerebral avariado, fazem tudo ao contrário do que deviam, quando estão presentes de corpo raramente têm os aquecedores ligados mas quando estão fora de casa, no laró, e calha eu passar lá pelos seus aposentos, sobe-me logo a tensão porque, invariavelmente, não está nada desligado. É mundialmente sabido que os aquecedores têm muito medo do escuro de modos que eles também deixam as luzes acesas – são duma atenção que me comovem quase até às lágrimas!

O conceito de ser avô, além de tonturas, boca seca e urticária, causa-me o mesmo tipo de entusiasmo e alegria fúnebre que tenho quando os lagartos ou os lampiões estão à frente do meu fcp na tabela classificativa; mas são tantos os desleixos daqueles dois idiotas que eu já dou por mim a pensar no gozo que me dava ver a Maria ser avó de trigémeos (ou mais…) para os gajos verem como é que elas doem. Como dizia a minha Avó materna: julgam que berimbau é gaita mas ele é um instrumento real.

Agora que penso nisto, às tantas é mesmo por vingança que os avós mimam e estragam os netos, como quem dá um recado aos filhos: tomem e embrulhem! Cá se fazem cá se pagam! Antes que me esqueça, um recado para os gajos: malta, bom dia do Pai para vocês!

Tortura

cartoon de Darko Drljevic



Se a minha escrita, hoje, parecer um pouco tremida vão ter que me desculpar mas estou com uma dor de dentes das antigas e, de vez em quando, sou obrigado a mexer-me para poder bater bem com a tola naquela parede que está ali, mesmo a jeito, à minha frente, sempre dá para ir mudando as queixas, ora me queixo da cremalheira ora me queixo da pinha.
Tanto assunto sério para ser tratado e denunciado e eu com o cérebro em ponto morto, tipo administrador do bpn, e cheiinho de erros como aquele jogo do Magalhães do Sócrates (eu não acredito em bruxas mas, que o primeiro computador verdadeiramente português está embruxado, lá isso está, coitado!).

A semana toda para me doerem à vontade mas não – não senhor…!!! – tinham que vir de visita na sexta-feira à noite, assim aproveitam o fim-de-semana e fazem-me companhia até abrirem as câmaras de tortura, aquelas salas com montes de aparelhos proibidos pela convenção de Genebra, brocas movidas por turbinas invisíveis, que zunem enquanto cospem água para tudo quanto é sítio, nariz, olhos e, como no meu caso, óculos, impedindo-me de ver com clareza o meu carrasco, o que complica a posterior identificação para a merecida devolução dos mimos.

Ainda deve ser por causa daqueles CT de chocolate que fumei quando fui a Viseu fazer o exame da quarta classe. Desde então – que me lembre – nunca mais (lá) comi nada que me pudesse danificar o corta palha. Bem pelo contrário: mesmo que não seja preciso, todos os natais e sempre que os lagartos e os lampiões conseguem roubar-nos um título qualquer, faço questão de escovar muito bem os meus dentes, de modos que não entendo como é que estou assim, nesta agonia.

Se já no início deste século me arrastaram uma vez para uma dessas câmaras de horror, como é que hei-de estar a precisar de lá voltar? Na volta, quando os tipos dizem que nos estão a dar uma injecção para “não termos dores” estão mas é a implantar coisas programadas que nos forçam a voltar ao fim de um determinado tempo, como os carros, que nos arejam as notas da carteira de não sei quantos em não sei quantos quilómetros. Admirem-se! Ele há teorias da conspiração para tudo e se o outro diz que tem uma campanha negra só para ele, porque é que eu não hei-de ter uma também só para mim? Sou menos que ele é? Ah bom…!

Se há coisa que me deixa furibundo é a expressão de gozo daqueles sádicos quando, de sorrisinho trauliteiro à ministro Augusto Santos Silva me dizem “se estiver a doer diga, não tem necessidade de estar a sofrer!”. Que não tenho necessidade de sofrer isso sei eu, basta não pôr lá as patas. O problema é um gajo assentar a pandeireta na cadeira! Mal nos apanham sentados e com o babete bem amarrado à volta do gasganete, transformam-se e perdem aquela falsa capa de humanidade e compaixão com que nos receberam e só a voltam a usar quando nos entregam a conta (quando já temos o livro de cheques na mão, finalmente, dizem “se tiver dores tome dois comprimidos de arsénico de hora em hora, não precisa de sofrer, ouviu?”). Hipócritas!
Ó Maria (eh lá, não posso berrar tão alto que me dói como o raio!): traz-me aí outra vez a caneca com o “milagron”.

Gentilezas







O Manuel, que é fino também de nome, é um dos artistas portugueses que, ao longo dos anos, foi pedindo e obtendo milhões de euros de empréstimo do nosso banco do banco do regime, a Caixa Geral de Depósitos CGD), para ir à feira à bolsa comprar acções, mas comprar como deve ser, em quantidade suficiente para mandar bitaites na gestão de certas empresas, como a Soares da Costa, o BCP e a Cimpor, entre outras.

Nestes casos, enquanto dura o bem-bom é tudo um mar de rosas mas quando vem a tempestade, quando o valor das acções começa a descer sem parar, quanto mais gente houver a vender mais o preço baixa e estes tubarões – os que emprestam e os que pedem emprestado – têm que se aguentar à bronca, ficam amarrados ao prejuízo e a tentar manter o nariz de fora da água à espera que a maré vire outra vez (supondo que vira mesmo).

A CGD e o Manuel, que é fino também de nome, com água pelo nariz por causa da desvalorização das acções que garantiam os empréstimos, chegaram a acordo para a renegociação da divida; parte será reembolsando em sete anos e parte liquidada de imediato – 300 milhões – através dum contrato de compra e venda de dez por cento de acções da Cimpor.
O interessante é o preço negociado – 4,75 euros por cada acção – ou seja 25% acima do valor que elas valiam no mercado.
Uma prenda de sessenta e poucos milhões de euros!
Trocados por bejecas, esta modesta mas merecida prenda, matava-me a sede a mim, aos meus amigos mais próximos e a todos os meus descendentes até o homem pôr a pata em solo marciano ou o Benfica ganhar dois campeonatos seguidos.

Além da prenda, o Manuel, que também é fino de nome, pode, nos próximos três anos, optar por recomprar o lote de acções ou, melhor ainda, escolher quem é que terá direito a ficar com ele, se a prima direita ou aquela empregada estrangeira que lhe dá massajens.

Bem vistas as coisas – não duvido – esta é o tipo de benesse em tudo idêntica à que qualquer um de nós, precisando, obteria do mesmo banco. Nas calmas!

Para a enrascada em que se meteu o banco público cheira-me que o Manuel, que é fino também de nome, não está só; pelas muitas noticias publicadas durante os últimos anos, muitos mais milhões de euros foram emprestados a outras importantes figuras para reforço de posições no BCP numa altura em que as acções deste banco valiam quase seis vezes mais do que valem hoje, a saber, ao camarada Berardo, a Pedro Teixeira Duarte, à família Moniz da Maia, entre outros nomes dum grupo de vinte e tal amigos. Curiosamente, no grupo, estão os primeiros a apoiar a ida do antigo presidente da CGD para a presidência do BCP.

Quando o Ministério Público tiver decidido de vez o que fazer em relação a umas gajas nuas que desfiguravam um pobre dum computador Magalhães no corso de carnaval de Torres Vedras, talvez possam dedicar algum do seu tempo a coisas mais banais e mais ligeiras como esta curiosa negociata entre o Manuel, que é fino também de nome, e a CGD, o banco que-é-do-estado-e-que-Deus-nos-livre-de-ir-parar-às-mãos-dos-privados.

Tuesday, March 03, 2009

Impressionismos























Um marciano que tivesse aterrado por cá na semana passada e percebesse o português falado e escrito, teria ficado surpreendido por o nível de desenvolvimento do nosso país não ser nada proporcional aos notáveis conhecimentos artísticos dos seus habitantes, pelo menos dos habitantes que publicitam os seus conhecimentos e interrogar-se-ia como é que um povo que aparece na cauda da Europa em quase tudo o que é estatística consegue ter tantos conhecimentos e tantos craques em pintura.

Infelizmente, nem todos são craques, não senhor! Como é óbvio, existem sempre uns quantos nabos que vieram ao mundo só para estragarem as estatísticas e chatearem os outros: os senhores agentes da polícia de segurança pública de Braga que, aparentemente a pedido dum cidadão mais incomodado, apreenderam meia dúzia de exemplares dum livro que tinha na capa uma senhora de barbas e…eu!

Sim, só eu e aqueles pobres representantes da autoridade é que não sabíamos que a capa do livro retratava uma conhecidíssima e famosíssima obra de arte, um desenho dum também conhecidíssimo e famosíssimo gajo chamado cu-qualquer-coisa, uma obra notável que está exposta, para admiração, (num quiosque qualquer) num igualmente conhecidíssimo e famosíssimo museu que fica num lugar de que já esqueci o nome.

Dada a minha santa ignorância, se fosse eu a dar de caras com o exemplar – só me sujeito a este violento exercício de imaginação em benefício da minha escrita – calculo que teria uma de três reacções possíveis: sentia um súbito desejo de juntar os trapinhos com um ser do mesmo sexo que eu, tinha um ataque de icterícia e entrava em coma profundo ou tornava-me simpatizante e apoiante do grande e querido líder inscrevendo-me, de imediato, no partido. Tropelias que eu não desejo nem ao meu pior inimigo!

Em matéria de pintura, além das tintas dyrup e robialac, pouco mais saberei que os agentes, o que constitui uma falta grave – eu sei e admito! No meu caso, ainda assim, a coisa é desculpável mas no caso dos agentes da autoridade a falha é intolerável. Nem quero pensar no perigo que corro se precisar, um dia, da presença dos agentes da autoridade no Tourigo e me mandarem uns elementos que não saibam dizer de cor, por ordem alfabética e em dez segundos o nome de catorze pintores dos séculos quinze, dezasseis e vinte. A segurança das populações é um assunto muito sério com o qual não se pode brincar!

É verdade que, ao contrário dos agentes, eu não teria confiscado o produto, sou mais do género “se não gosto não como mas também não tiro os pratos aos outros”; a diferença talvez seja a de que eu (ainda) não corro o risco de ser obrigado a cumprir um determinado tipo de ordens para ganhar a minha vida e receber o meu salário no fim de cada mês.

Se tivesse vergonha na cara, em vez de vir para aqui publicamente admitir que não passo dum bronco inculto, devia era aproveitar este espaço e malhar nos coitados dos senhores agentes e, a bem da segurança do país, lançar um peditório a nível nacional e angariar uns trocos para os levar numa visita de estudo (à zona da luz vermelha de Amesterdão) ao tal museu, dar-lhes a hipótese de aprenderem alguma coisa de jeito e útil à prossecução duma boa actividade policial na cidade de Braga, a cidade dos três ou cinco “pês” consoante se é visitante ou natural do local.

Thursday, February 19, 2009

Quem diria!

(foi o que consegui com a minha pesquisa "Salazar e botas" para esta crónica. Enfim...afinal tem algo a ver, a pequena chama-se Luciana Salazar e ... está de botas, e acho que a série falava em "gajas", portanto...)



Salazar era, de facto, o homem da dita dura, um verdadeiro Zézé Camarinha nos paços do conselho de ministros do país!
Como não vi, socorro-me do relato de familiares, amigos e desconhecidos que perderam tempo foram abençoados com tempo livre para acompanhar a mini-série da SIC sobre a sua vida; embora ainda sem acesso livre e total aos documentos usados como suporte para a história, tenho a certeza de que, se passou na televisão, só pode ser verdade, eles não iam inventar uma coisa daquelas assim sem mais nem menos.

Está portanto provado que não foram motivações de indole politica que fizeram o antigo presidente do conselho perseguir uns quantos desgraçados mas assuntos mais comezinhos, fruto da sua deriva sexual. Possivelmente, a cabeça que desapareceu da sua estátua depois do vinte e cinco de setenta e quatro, terá pura e simplesmente explodido à passagem dalguma moçoila mais bem apetrechada fisicamente e não tenha sido fruto de um roubo ou dum acto de vandalismo.

Num desses documentos, uma página do diário dum ministro dos negócios estrangeiros de então, que mão amiga mas anónima me fez chegar, lê-se que, estando este numa sala contigua a aguardar vez para uma reunião de trabalho com o chefe, terá ouvido palavras soltas como “é minha…sim…tira a gola…invade, invade…quere-la…ahh lindos planaltos…” que o levaram, indignado e por iniciativa própria, a contactar de imediato a organização das nações unidas no sentido de lavrar um protesto pelas tentativas da tomada de assalto duma das nossas colónias por bandos armados.
Outro documento, um pouco amarrotado e com nódoas de gordura, dá conta da irritação do antigo estadista quando os indianos lhe tiraram Damão uma coisa bem interessante que ele já tinha fisgado e da punição imposta aos nossos militares que lá estavam de guarda: “não me apareçam cá vivos e sem ela!”.

Chegado à governação numa altura em que as finanças nacionais estavam num estado lastimável, totalmente de pau parado, o professor depressa tomou em mãos o problema e, tomando-lhe o gosto, por lá ficou durante décadas.

Insaciável, fundou a mocidade portuguesa, instituição que, alegadamente, terá funcionado como um verdadeiro harém do chefe do governo; especialista em contra informação, lançou a ideia de que o “s” estava ligado à primeira letra do seu nome, desviando as atenções do verdadeiro significado: o cinto do sexo.

À luz desta nova teoria, tem toda a lógica que a obra emblemática do seu regime – a ponte sobre o rio Tejo – seja uma coisa dura e comprida e é de louvar que os comunas do prec tenham conseguido mudar-lhe o nome porque as criancinhas não podem (nem devem!) saber coisas destas.
Ainda segundo a mini-série, o antigo governante terá morrido, não por causa duma queda numa cadeira, mas afogado numa banheira e longe, muito longe das botas. Ao que parece, a senhora dona Maria, já entradota na idade e farta dos avanços do professor, arrefinfou-lhe, à socapa, com um naco de sabão clarim para dentro da banheira tendo-o apanhado desprevenido, provocando a sua queda e impedindo-o de apanhar as botas a tempo de ter um final feliz, um final digno da sua fama (como é sabido, é muito mais fino e chique os tipos da dita dura morrerem com as botas calçadas do que descalços).

Monday, February 09, 2009

Láparos




Este domingo fui à missa. O meu amigo Vítor diz que é esta prática que me dá uma sorte do caneco no ténis, única explicação para a quantidade exagerada de pontos esquisitos que, regra geral, viram o resultado final a meu favor, levando-o a clamar que jogar contra mim é uma luta desigual por causa da mãozinha invisível que me ampara. Ele, que acumula três das principais características que hoje definem a maioria do eleitorado português – agnóstico baptizado, socialista e benfiquista – acha mais fácil acreditar nesta teoria da cabala divina do que fazer o que lhe compete dentro do campo, dar o litro em cada ponto em disputa, cumprir a regra básica dum tenista: dar mais uma pancada na bola do que o adversário e fazê-lo de maneira a que ela caia dentro do campo dele.

O celebrante, um visitante e bispo da diocese de Viana em Angola, aconselhou-nos durante a homilia a usar a paciência de Job para lidarmos com as chatices actuais e comparou a sua comunidade com a nossa, dizendo-nos que é no exterior que celebra as suas duas missas dominicais, uma às sete e meia da manhã e a outra ao meio-dia, porque nenhum templo comporta os cinco a seis mil fieis que assistem a cada delas, sendo que, noventa e muitos por cento deles são jovens.

Vim para casa a pensar nisto e, nem sei bem porquê, do nada, vieram-me à memória outras palavras, as palavras do tele-evangelista frrrrrrrei Louçã, o pregador preferido das nossas elites comunicacionais, no seu sermão anti-capitalista aos crentes da esquerda caviar, naquele tom de voz de missionário que tem um elefante a pisar-lhe os calos:

“Alguém já viu o capital a produzir? Imaginem dois coelhos numa cova, de certeza que vão sair coelhinhos…se forem um casal. Mas experimentem pôr duas notas de cem euros numa caixinha; imaginam que vão sair notas de vinte dessa caixinha? O capital nada faz. É o trabalho que tudo faz.”

Numa cova? Como sou jovem, ainda só vi coelhos na caçarola, em gaiolas ou em tocas, mas não ponho em causa que, entre os láparos, o truca truca numa cova esteja muito na moda – humildemente confesso que eu, de geografia, não percebo nada; poderá obviamente ter sido apenas um lapso do tele evangelista, uma alusão a alguma fantasia recalcada, não sei.

Experimentei e esfreguei – à fartazana – duas notas de cem euros uma na outra e, de facto, mesmo com musica de fundo a ajudar – o bolero de Ravel – não consegui que elas produzissem chispa, quanto mais uma nota de vinte euros. Não que eu estivesse à espera disso, não senhor! Quanto muito, ter-me-ia dado por satisfeito com uma moedinha de um cêntimo, já que, com algum carinho, ela haveria de crescer, cantar-lhe-ia os parabéns quando chegasse aos dois cêntimos, aos cinco cêntimos, aos dez, aos vinte, aos cinquenta, ao euro e, quem sabe, à bonita idade de quinhentos euros.
De modos que estou ainda mais parvo e baralhado do que o normal: se o fruto do truca truca é sinonimo da produção do trabalho versus o capital, porque carga de água é que os esquerdistas, dos modernaços aos progressistas, andam muito atarefados a promover casais de homossexuais já que, segundo palavras do próprio chefe, nada vão produzir? Para isso não será preferível ficarmos com o capital, sempre dá para pagar as bejecas?

Andei eu, todos estes anos, a julgar que para aquela malta o truca truca era um ritual de afirmação de liberdades e prazer mas afinal, vai-se a ver, aquilo é uma grande seca, é a mesma coisa que trabalhar numa fábrica (ainda por cima, a julgar pelas estatísticas e mesmo com a ajuda dos sindicatos, sempre prontos a dar uma mãozinha, a produção é fraquinha…).
Não admira que Angola tenha níveis de crescimento anuais do produto tão elevados com os católicos a produzirem assim certinho enquanto nós por cá, andamos murchos e a empobrecer.

Sunday, February 08, 2009

São rosas senhor!




- Já o tenho! – sussurrou o homem, abrindo ligeiramente o sobretudo e olhando, desconfiado, por cima do ombro do vulto de gabardina branca que, iluminado pelas luzes do carro cujo motor ronronava baixinho, emergira do espesso manto de nevoeiro que descera sobre a noite e que, conforme combinado, viera ao seu encontro.
- É puro? – perguntou o vulto.
- Puro? Está a gozar comigo patrão? Puro? A este preço?
O vulto não respondeu, observou a encomenda, o rosto contraído a denotar a tensão do momento. Não suportando mais o silencio prolongado o homem lamentou:
- Foi o combinado chefe! Não é puro mas é tipo puro. Dê-se por muito feliz por eu e os outros amigalhaços termos conseguido arranjar este prefaciozinho.
- Ah bom, então quer dizer, ao menos é tipo puro?
- Sim, claro! – responde-lhe o homem, pegando na encomenda, abrindo-a e folheando-a até encontrar a marca que procurava. Olhe só aqui para. Hum, que tal?
O cara do vulto foi-se iluminando à medida que os seus olhos percorriam as duas páginas seleccionadas, acabando num sorriso rasgado depois de identificado o nome da celebridade que o assinava.
- Excelente, Débora! Bravo! – exclamou.
O vulto protegeu o livro entre a gabardine e a camisola castanha de gola alta, arrastou o homem pelo braço, fez um sinal em direcção às luzes e disse:
- Venha, temos que fazer, há convidados a seleccionar e convites para mandar! Mas não se esqueça: vamos fazer tudo como se este material fosse do legítimo, do verdadeiro.
- Mas ó chefe, será prudente vender assim…gato por lebre, não sei, olhe que a situação não está famosa, isto agora com os gajos dos blogues sempre à espreita, tenho um mau pressentimento, pode dar mau resultado…
- Não se acanhe, homem! Tenho-os a comer na palma da mão e, além disso, aquela dica que os nossos bem colocados amigos andam a martelar na populaça de que ou ganhamos outra vez com maioria ou isto vai mesmo para o galheiro está a ir muito bem. Muito bem mesmo. Vá lá, vamos ter com a Lurdinhas. Quem não arrisca não petisca!

A limusina arrancou com um chiar de pneus (sem um grama de emissão de carbono mau porque os seus dois passageiros adoram um bom ambiente, são bué de verdes), guinou mais à esquerda no semáforo que logo virou vermelho e percorreu, veloz, a distância que a separava da ralé baixa.
Dois dias depois, rodeado por dezenas de microfones e câmaras de filmar, sozinho no palco como gostava, o vulto, decidido e sorridente falou:
- Há muitas décadas que leio relatórios da OCDE sobre Educação e nunca vi uma avaliação sobre um período da nossa democracia com tamanhos elogios".
Ainda inebriado pelo sucesso da apresentação da véspera, confrontado na casa da democracia com a pureza da encomenda, desafiado por um pequeno e gordo traste da definhada mas desprezível oposição, o vulto, arrogante e corajoso como sempre, arrasou:
- Eu nunca disse que o relatório é da OCDE! Nunca! Os senhores não suportam é o sucesso do país, os senhores estão contra o sucesso do país (...) Têm apenas ciúmes e inveja.

O presidente do júri disse que chegava, já tinha uma ideia da coisa, mandou ligar as luzes da sala de projecção e, após votação dos presentes, ficou decidido não renovar o subsidio ao publicitário e realizador da peça apresentada.

Análises cientificas




Por causa da nota final atribuída às contas da nossa república, uma nota final que é pior do que a conseguida num exame anterior, não só vamos pagar mais caro pelo dinheiro que já devemos e pelo que ainda teremos de pedir emprestado, como também vamos ter mais dificuldade em encontrar caramelos lá fora dispostos a emprestar-nos o guito, mesmo que a gente se atravesse com o nosso aval colectivo, o famoso aval do estado.
Como o examinador que nos deu a dita (má) nota tem acertado tantas vezes quantas as vezes que acertam os árbitros que apitam os jogos do futebol da nossa liga principal, ainda há por aí gente que, optimista, desdenha e chuta para canto, os gajos estão outra vez enganados e a coisa não vai ser tão preta como a pintam. Pode ser que sim mas também pode ser que não!

Embora os nossos governantes tentem impingir-nos que tudo isto que nos está a acontecer é uma surpresa do caraças, eu, especialista encartado na arte da adivinhação politica e económica – entre outras aptidões igualmente notáveis e úteis – há muito tempo que andava a prever estas maleitas, graças ao estudo aprofundado que venho fazendo a um órgão do nosso primeiro-ministro.
Em abono da verdade devo reconhecer que nem sempre acerto, por acaso às vezes até erro, ainda recentemente falhei rotundamente na previsão da capacidade do novo messias americano em conseguir o milagre prometido da mudança do mundo logo após a sua tomada de posse (quando soube que teve de repetir a posse por se ter enganado na cerimónia oficial, ainda pensei “ah bom, o truque não funcionou à primeira, falta de prática, no problem, à segunda vai ser canja” mas não, já nem num messias se pode confiar.). Mas acredito que não vou errar na minha previsão de que ele e os seus discípulos vão nacionalizar os grandes bancos americanos e que os europeus seguirão o exemplo. Vai uma aposta?

O meu método, que patenteei em todo o mundo com o nome de “método nasal by joãozinho”, consiste no estudo dos movimentos dos narizes dos indivíduos alvo e a sua comparação com a minha base de dados.
Adquiri esta técnica a observar o meu próprio nariz, milhares de horas passadas em frente de espelhos reflectindo sobre muita coisa, a ver a reacção do dito, analisado na sua individualidade intrínseca, na sua personalidade própria ou no todo, no conjunto a que vulgarmente chamo face (ou tromba quando a véspera foi longa e bem regada).

Em pensamento, em surdina ou em voz alta, testei-me em múltiplos temas: a estética e a arte, a filosofia da religião, a metafísica e, evidentemente, o sexo e a filosofia política. Como, felizmente, esta minha protuberância tem um volume razoável, tive um grande e fantástico campo de acção, tornando-me no famoso especialista que, modéstia à parte, hoje sou.

Os movimentos nasais do engenheiro na cena do seu canudo e dos seus projectos, como caixeiro-viajante na promoção e venda do Magalhães e no actual episodio das aprovações confusas num empreendimento em Alcochete, não deixam margem para dúvidas e levam-me a concluir: tal como eu, o seu tio e o seu primo, o homem é um verdadeiro chico esperto!
Se um chico esperto já faz mossa, quatro então nem se fala. Mais tarde ou mais cedo, esta característica comum, despromove-nos, baixa-nos as notas. Para já, ainda é só o que nos baixa; no futuro logo veremos se nos baixa mais alguma coisa.

Cantigas de embalar



Um belo momento de poesia, coisa rara no cardápio das minhas preferências, um conjunto de versos cantados pelos pequenitos do exercito português ao senhor que chefia o nosso governo, uma brilhante actuação que teve lugar no principio do ano e que me levou às lágrimas, lágrimas salgadas que dançaram nos meus olhos esbugalhados, enfim, um momento complicado e difícil para a minha masculinidade, incapaz que fui de reprimir a minha faceta sensível, aquela que escondo por detrás desta minha cara trombuda:

Viva o nosso primeiro-ministro,

Viva o nosso dirigente

Seja sempre iluminado

Pela estrela mais fulgente

Temos todo o desejo

Não o podemos negar

Cantar para o ano as janeiras

Outra vez neste lugar

Os que não forem socialistas, quando pararem de rebolar, quando tirarem a esfregona dos olhos, limparem toda a água que caiu no chão e quando voltarem a portar-se como pessoas adultas, façam o favor de parar de ler e vão mas é tratar de coisas sérias.

Socialistas, entre nós, agora que não está cá mais ninguém, vá lá…confessem…até vocês coraram de vergonha, não foi? Não? Mentirosos!

Aposto que, nostalgicamente, o vosso pensamento associou logo esta magnifica ode a outros grandes líderes, passados e presentes, também eles iluminados dirigentes, altamente cantados e adorados pelos seus povos, dos chineses aos norte-coreanos, dos cubanos, bolivianos, venezuelanos e pelos que ainda restam no Zimbabwe. É, a mim também me passou logo pela mona essa feliz associação.

Eu que não sou nada dado a grandes emoções, arrepiei-me todo, fiquei com pele de galinha, coisa que é muito raro acontecer-me, só me dá isto quando há uma grande baixa de impostos, quando o vinho que tenho no copo não presta ou quando o meu clube não ganha o campeonato.

Mas pronto, não fiquem assim…afinal de contas, tendo em conta os resultados das múltiplas eleições livres e democráticas já realizadas e pelas sondagens actuais, a esmagadora maioria dos portugueses é sadomasoquista, adora a vossa ideologia, esteja o produto à venda com rótulo brando ou radical. Dizem as sondagens que, se somarmos os possíveis resultados de todos os partidos que publicitam a vossa ideologia, não devemos ficar longe dos oitenta por cento.

É assim a modos que um vício, a coisa está entranhada, agimos como sonâmbulos, há décadas que não passamos da cepa torta, empobrecemos alegremente mas, graças ao estado todo poderoso e à cumplicidade dos órgãos de comunicação social e dos seus lacaios funcionários do regime, insistimos na (asneira) receita. É a vida!

Artistas portugueses




Titulo Um (actual mas já requentado): dois funcionários do banco estatal e governamental – a CGD – reformados por invalidez naquela instituição, estão a trabalhar noutras instituições financeiras, acumulando a respectiva reforma com o salário.
Titulo dois (Maio 2005): O ministro das finanças Campos e Cunha recusou pressões de José Sócrates para substituir a administração da CGD alegando que o mandato de quatro anos seria para levar até ao fim. Isto porque a administração indicada pelo Executivo de Santana Lopes tinha tomado posse há menos de um ano, em Outubro de 2004.
Titulo três (Junho 2005): Luis Campos e Cunha, ministro das finanças, acumula reforma com ordenado do governo mas salienta que é legítimo e legal – por ter sido vice-governador do Banco de Portugal durante apenas 6 anos, conseguiu, aos 49 anos de idade, obter uma pensão desta instituição no valor de 114 784,00 Euros anuais (cerca de 8.000,00 Euros mensais).
Titulo quatro (Julho 2005): Campos e Cunha esgotado deixa a pasta das Finanças depois de ter entrado, dentro do Governo, num braço-de-ferro com os ministros da Economia e das Obras Públicas (ambos muito influentes junto do primeiro-ministro).
Titulo cinco (Agosto de 2005): o novo ministro das finanças do governo socialista substituiu o presidente do banco público, Vítor Martins (figura respeitada e secretário de Estado dos Assuntos Europeus de Cavaco Silva), por este, alegadamente, recusar financiar os grandes projectos públicos, nomeando para o cargo Carlos dos Santos Ferreira, tido como um homem próximo do socialista António Guterres.
Titulo seis (Agosto de 2005): o socialista Vara foi nomeado pelo novo ministro das Finanças do governo socialista, para administrador da Caixa Geral de Depósitos (CGD).
Nota um: é após os acontecimentos dos títulos cinco e seis e a consequente despromoção a simples directores que se detectam os primeiros sinais das doenças que hão-de, alegadamente, provocar a invalidez relatada no título um;
Nota dois: um dos inválidos é administrador da SLN (a do BPN), eleito na lista de Miguel Cadilhe, antigo ministro de Cavaco Silva e o outro, a outra neste caso, é assessora do banco Santander, administradora na ECS (uma empresa de capital de risco) e numa construtora que pertence a um cidadão de Ansião, uma autarquia, desde sempre, totalmente laranja.
Nota três; com os inválidos saiu também Luis Alves Monteiro (secretário de estado da indústria dos governos sociais-democratas liderados por Cavaco Silva) nomeado por Santana Lopes.
A questão óbvia: que embrulhada do caneco, hem?
A resposta habitual: não não, tudo legal, tudo nos conformes!
O desabafo do reformado pacóvio, rotineiro e inofensivo: grandes *#/$%*..! A conclusão oficial e publicada: é a prova do falhanço das políticas neoliberais de direita que dominam o mundo e o país e que têm provocado o acentuar das desigualdades entre os portugueses e, simultaneamente, a prova da crescente necessidade da implementação de politicas verdadeiramente socialistas, através duma maior intervenção do estado e do aumento da regulação para evitar que casos futuros sejam publicitados na comunicação social e cheguem ao conhecimento dos reformados eleitores que, coitados, têm coisas bem mais interessantes para saber do que estas – olha, por exemplo, como ligar à internet os Magalhães distribuídos aos netos.

Thursday, January 15, 2009

Cantigas de embalar

À falta de foto do nosso exército, aqui vai esta. Vai dar ao mesmo...

(foto daqui)

Um belo momento de poesia, coisa rara no cardápio das minhas preferências, um conjunto de versos cantados pelos pequenitos do exercito português ao senhor que chefia o nosso governo, uma brilhante actuação que teve lugar no principio do ano e que me levou às lágrimas, lágrimas salgadas que dançaram nos meus olhos esbugalhados, enfim, um momento complicado e difícil para a minha masculinidade, incapaz que fui de reprimir a minha faceta sensível, aquela que escondo por detrás desta minha cara trombuda:
Viva o nosso primeiro-ministro,Viva o nosso dirigente Seja sempre iluminado Pela estrela mais fulgente Temos todo o desejo Não o podemos negar Cantar para o ano as janeiras Outra vez neste lugar

Os que não forem socialistas, quando pararem de rebolar, quando tirarem a esfregona dos olhos, limparem toda a água que caiu no chão e quando voltarem a portar-se como pessoas adultas, façam o favor de parar de ler e vão mas é tratar de coisas sérias.

Socialistas, entre nós, agora que não está cá mais ninguém, vá lá…confessem…até vocês coraram de vergonha, não foi? Não? Mentirosos!

Aposto que, nostalgicamente, o vosso pensamento associou logo esta magnifica ode a outros grandes líderes, passados e presentes, também eles iluminados dirigentes, altamente cantados e adorados pelos seus povos, dos chineses aos norte-coreanos, dos cubanos, bolivianos, venezuelanos e pelos que ainda restam no Zimbabwe. É, a mim também me passou logo pela mona essa feliz associação.

Eu que não sou nada dado a grandes emoções, arrepiei-me todo, fiquei com pele de galinha, coisa que é muito raro acontecer-me, só me dá isto quando há uma grande baixa de impostos, quando o vinho que tenho no copo não presta ou quando o meu clube não ganha o campeonato.

Mas pronto, não fiquem assim…afinal de contas, tendo em conta os resultados das múltiplas eleições livres e democráticas já realizadas e pelas sondagens actuais, a esmagadora maioria dos portugueses é sadomasoquista, adora a vossa ideologia, esteja o produto à venda com rótulo brando ou radical. Dizem as sondagens que, se somarmos os possíveis resultados de todos os partidos que publicitam a vossa ideologia, não devemos ficar longe dos oitenta por cento.

É assim a modos que um vício, a coisa está entranhada, agimos como sonâmbulos, há décadas que não passamos da cepa torta, empobrecemos alegremente mas, graças ao estado todo poderoso e à cumplicidade dos órgãos de comunicação social e dos seus lacaios funcionários do regime, insistimos na asneira receita. É a vida!

Artistas Portugueses


Titulo Um (actual mas já requentado): dois funcionários do banco estatal e governamental – a CGD – reformados por invalidez naquela instituição, estão a trabalhar noutras instituições financeiras, acumulando a respectiva reforma com o salário.
Titulo dois (Maio 2005): O ministro das finanças Campos e Cunha recusou pressões de José Sócrates para substituir a administração da CGD alegando que o mandato de quatro anos seria para levar até ao fim. Isto porque a administração indicada pelo Executivo de Santana Lopes tinha tomado posse há menos de um ano, em Outubro de 2004.
Titulo três (Junho 2005): Luis Campos e Cunha, ministro das finanças, acumula reforma com ordenado do governo mas salienta que é legítimo e legal – por ter sido vice-governador do Banco de Portugal durante apenas 6 anos, conseguiu, aos 49 anos de idade, obter uma pensão desta instituição no valor de 114 784,00 Euros anuais (cerca de 8.000,00 Euros mensais).
Titulo quatro (Julho 2005): Campos e Cunha esgotado deixa a pasta das Finanças depois de ter entrado, dentro do Governo, num braço-de-ferro com os ministros da Economia e das Obras Públicas (ambos muito influentes junto do primeiro-ministro).
Titulo cinco (Agosto de 2005): o novo ministro das finanças do governo socialista substituiu o presidente do banco público, Vítor Martins (figura respeitada e secretário de Estado dos Assuntos Europeus de Cavaco Silva), por este, alegadamente, recusar financiar os grandes projectos públicos, nomeando para o cargo Carlos dos Santos Ferreira, tido como um homem próximo do socialista António Guterres.
Titulo seis (Agosto de 2005): o socialista Vara foi nomeado pelo novo ministro das Finanças do governo socialista, para administrador da Caixa Geral de Depósitos (CGD).
Nota um: é após os acontecimentos dos títulos cinco e seis e a consequente despromoção a simples directores que se detectam os primeiros sinais das doenças que hão-de, alegadamente, provocar a invalidez relatada no título um;
Nota dois: um dos inválidos é administrador da SLN (a do BPN), eleito na lista de Miguel Cadilhe, antigo ministro de Cavaco Silva e o outro, a outra neste caso, é assessora do banco Santander, administradora na ECS (uma empresa de capital de risco) e numa construtora que pertence a um cidadão de Ansião, uma autarquia, desde sempre, totalmente laranja.
Nota três; com os inválidos saiu também Luis Alves Monteiro (secretário de estado da indústria dos governos sociais-democratas liderados por Cavaco Silva) nomeado por Santana Lopes.
A questão óbvia: que embrulhada do caneco, hem?
A resposta habitual: não não, tudo legal, tudo nos conformes!
O desabafo do reformado pacóvio, rotineiro e inofensivo: grandes *#/$%*..! A conclusão oficial e publicada: é a prova do falhanço das políticas neoliberais de direita que dominam o mundo e o país e que têm provocado o acentuar das desigualdades entre os portugueses e, simultaneamente, a prova da crescente necessidade da implementação de politicas verdadeiramente socialistas, através duma maior intervenção do estado e do aumento da regulação para evitar que casos futuros sejam publicitados na comunicação social e cheguem ao conhecimento dos reformados eleitores que, coitados, têm coisas bem mais interessantes para saber do que estas – olha, por exemplo, como ligar à internet os Magalhães distribuídos aos netos

Thursday, December 11, 2008

Escuridões


Estou a escrever na sala, sentado no meu sofá favorito, aquele que coloquei ao lado da lareira. Ainda bem que obriguei a Maria a ir buscar lenha e a pegar-lhe fogo porque a luz eléctrica foi-se e levou as outras formas de aquecimento com ela. Lá fora, tudo o que é visível da minha casa, está, também, às escuras o que me leva a pensar que, ou a EDP acabou de dar o berro ou que, simplesmente, se trata de uma avaria cá na minha zona. As sombras tomaram conta da residência e, se os técnicos da empresa de electricidade meteram férias antecipadas como aqueles trinta deputados do pê-esse-dê que se baldaram a uma votação importante na semana passada, estou feito ao bife.
A falta de luz trouxe o silêncio e as sombras, sombras que distorcem a realidade dos objectos cá de casa, objectos que eu devia conhecer bem, tão bem como a palma das minhas mãos.
A realidade que me rodeia está manipulada, estou refém e escravo das trevas. Porque me faltou a luz, deixei de ver e ouvir bem. Mais ou menos como os surdos e ceguinhos dos nossos jornalistas na opinião do economista João César das Neves:
"A nossa imprensa traz pouca informação. Muita análise, intriga, provocação, boato, emoção, combate, mas pouca informação (...). Assiste-se a uma verdadeira caça ao deslize, empolado até à hilaridade. (...) Aliás, relatar o sucedido é o que menos interessa. O jornalista vai ao evento para impor a agenda mediática que levou da sede.O mais curioso é que, embora a imprensa escrita e falada seja intensamente opinativa, nunca se assume em termos políticos. (...) O público não é informado da orientação do meio que escolheu, porque todos dizem apenas a verdade. Todos os repórteres têm opinião, mas todos são isentos de orientações e partidarismos…
"O actual Governo goza de clara benevolência jornalística. Apesar da contestação e inevitáveis 'gaffes', o tratamento não se compara com o dos antecessores. (...) Muitos dos que relatam o jogo participam nas equipas. Quando o jogo se suja, avolumam-se as suspeitas. Isto ainda não afecta o poder da imprensa, mas já degrada a classe."

Felizmente tenho aqui uma pila grande, perdão, felizmente tenho, no computador, uma pilha com uma hora de autonomia e assim posso continuar a trabalhar enquanto os meus vizinhos estão ceguinhos de todo.

Não me levem a mal, mas não imaginam a maçada que é esta coisa de também escrever para jornais espanhóis! Estou sempre a confundir as línguas, meto-me em cada alhada, ainda por cima eu, que sou quase tão envergonhado como o senhor Dias Loureiro ou o senhor Coelho, passo por cada uma, às vezes apetecia-me enfiar num buraco e esperar que a confusão passasse. Como lhes deve estar apetecer àqueles dois agora. Coitados, como eu os compreendo!

A Maria já anda por ai, de vela na mão, a tentar pôr um pouco de luz em tudo quanto é sitio.
Como é hábito nestas situações de falhas de luz, especulamos sobre a possibilidade desta ser uma avaria muito prolongada e fazemos o inventário do nosso kit de sobrevivência.
É o inventário mais rápido de todo o planeta: na dispensa temos duas velas, uma caixa de fósforos semi-vazia, dois pacotes de chá preto, uma lata de sardinha em molho de tomate e piripiri ainda no prazo de validade e, naquilo que eu chamo “o meu bunker”, setenta e três garrafas de oxigénio, no estado líquido, com um grau de aquecimento nunca inferior a doze graus e meio. Estamos portanto equipados para sobreviver quase três dias. Com a água da chuva, talvez conseguíssemos prolongar a nossa sobrevivência por mais uma dúzia de horas.

Pelas estatísticas e segundo os estudos comparativos divulgados pelo governo civil , parece que até nem ficaríamos muito mal classificados mas, para mim, não chega. Exijo mais! Estou farto de dizer à Maria: chica, tens obrigação de fazer melhor!
Quando eu acabar de escrever a crónica e a luz estiver de volta, vou elaborar um novo kit de sobrevivência, vou acrescentar mais uns produtos, pelo menos mais uma lata de sardinha e uma lata de feijão frade e mais umas quantas garrafas de oxigénio, devidamente classificadas por região demarcada, para mais fácil utilização em caso de emergência e incluir um volume de maços de tabaco, para juntar fumo às sombras.

Monday, December 01, 2008

Engenharias


O doutor Vítor Constâncio, que além de ser um socialista empenhado, acumula, desde a pré-história, com o cargo de governador do banco de Portugal, anda furibundo, pior do que uma barata por causa do atrevimento de alguns dos deputados da nação que, imagine-se, ousaram acusá-lo de ter sido, não uma mas por duas vezes, incompetente e desleixado nas suas funções de fiscal.
O homem, cujo salário, segundo consta, anda na casa dos dezassete mil euros por mês (corresponde a mais de 40 meses de salários mínimos…), empertigou-se, disse que parecia impossível acusarem-no e andarem a linchá-lo na praça pública por coisas de que ele não pode ser responsabilizado, essa agora, uma acusação destas nunca se viu, jamais em tempo algum em nenhum outro país do mundo civilizado e que a sua reputação está a ser injustamente prejudicada. Em português simples, está a ver se sacode a água do capote.

Como o canal de televisão de propaganda do governo está lá para fazer fretes e favores, este empenhado socialista foi, há dias, convidado para uma entrevista onde confessou as suas angustias e desvendou que o choradinho de setecentos e tal milhões de euros feito pelo BPP (banco privado português) não só não ia fazer chorar as pedras da calçada como também não iria ter a sua socialista aprovação; quanto muito, visto tratar-se duma banqueta e não dum banco com peso relevante no financiamento da economia nacional, poderia candidatar-se a uma verba correspondente ao seu verdadeiro peso na nossa economia, uma bagatela de quarenta e cinco milhões de “aéreos”.

Este tal de BPP, banco privadíssimo, criado com a massa de empresários do regime e os do costume, publicita, na página de internet, que “a sua missão primordial consiste na preservação e valorização do património dos clientes, através da implementação de estratégias de alocação de activos adaptados às expectativas de rendibilidade e ao perfil de investimento evidenciados”.
O notável sucesso no cumprimento desta missão – a preservação e valorização do património dos clientes – levou João Rendeiro, o seu fundador e maior accionista (cuja carreira de sucesso é contada num livro, ironicamente, apresentado a semana passada), a pedinchar aquela brutalidade de milhões ao nosso banco central; a tal irrelevância no financiamento da economia nacional valeu-lhe o dito manguito.

A feliz conjugação de conversas com as pessoas certas, da reunião dos ditos empresários entalados e da generosidade do espírito natalício (ou da influencia dos entalados), qual conto da Cinderela, e eis uma banqueta sem relevância na nossa economia, transformada, num passe de magica, num banco de prestigio cuja falência – ai Jesus – arruinaria a imagem de Portugal.
Constâncio, depois de bem baralhadas as coisas, com base na penhora dos activos do BPP, vai, afinal, avalizar seiscentos milhões de euros que outros seis bancos nacionais vão adiantar para o BPP cumprir a sua missão: salvar o património dos clientes accionistas, entalando o tuga contribuinte!

Chamem-me burro, ignorante, chamem-me o que quiserem mas, por mais que me esforce, não consigo enfiar nesta minha mona, estúpida e casmurra, porque carga de água é que os tais seis bancos não dispensam, pura e simplesmente, o aval do nosso banco central e aceitam directamente os activos do BPP como garantia do tal empréstimo que lhe vão fazer. Se os activos do BPP são bons para o banco central para que raio é que eles precisam de ter o aval do estado?
Será por esses activos – tipo, acções de empresas como o BCP, a Brisa, etc. – aos preços de hoje, não valerem um chavo, a ponta dum dito? Será? É que eu também preciso de liquidez e tenho uns prejuízos potenciais em algumas acções que gostava de partilhar com o resto dos meus compatriotas (só os prejuízos; dos lucros, se e quando ou houver, eu encarrego-me sozinho, muito obrigado!).

Já agora, se não for pedir muito, será que sua senhoria, o governador do banco de Portugal, poderia dizer, aos paspalhos que o sustentam com os seus impostos, que valor acrescentado trouxe, ou traz, ao banco que dirige e que tenha uma relação directa com o salário que recebe?
Entretanto, hoje comemoramos a restauração da nossa independência! Boas celebrações.


Critérios

(foto daqui)


Escrevo depois de ter tomado o meu pequeno-almoço, um copo de sumo de laranja natural, duas canecas de chá preto e quente com uma pitadinha de leite frio (influências da ascendência aristocrática da Maria) e cento e vinte e oito gramas de manteiga que, à rasquinha, embrulharam os dois brutos e únicos croissants que ainda havia na padaria. É uma chatice esta coisa de ter que me levantar cedo aos sábados para os conseguir arranjar; se não chego cedo, se não chego pelo menos antes das onze e vinte da madrugada, é certo e sabido que já não apanho nenhum.
Quem me conhece deve estar a admirado: cento e vinte e oito gramas de manteiga? Pois é, é verdade! Eu sei, é triste mas é verdade!
Por causa do ácido não-sei-dos-quantos tive que reduzir, drasticamente, o consumo desta delícia e longe vão os bons tempos em que eu mamava trezentos e vinte e dois gramas por pequeno-almoço! Mais grama menos grama, a coisa rondava aí o meio quilo por fim-de-semana. Como muitos de vocês devem estar carecas de saber, a idade não perdoa e a gente tem que se adaptar às ineficiências do organismo, aos vícios que os estafermos dos órgãos e dos ossos ganham com o passar das velas e dos bolos de aniversário.
Agora, de cada vez que vou buscar as análises que me obrigam a fazer – para aí três exames por década – por causa deste maldito ácido que me impede de alambazar naquele maravilhoso derivado do leite, fico numa excitação tal para saber os resultados que mais pareço um professor de matemática quântica a ser avaliado pelo seu colega, o setor de musica.
Será que passei? Ou será que chumbei? No meu caso, ficar abaixo de sete é um feito notável, um alívio do caneco, um resultado digno duma comemoração à maneira, dúzias de bifinhos e de papos-secos bem encharcados no molho daquela especialidade da vóvó Jújú (pronto, já babei a porcaria do teclado! …).
Se a excitação de levar com um sete me põe tão contente como se tivesse ganho o primeiro prémio do sorteio de Natal do café da estação – um Magalhães – o mesmo, provavelmente, não se aplicará na avaliação do tal professor; aí, imagino, qualquer resultado abaixo de dez significará que ou o colega avaliador lhe está a mesmo a dar música e ficar ele com uma nota melhor ou que, no mínimo, o gajo não percebeu a ponta dum dito do que é a matemática quântica.
Se eu celebro os meus sete valores com batatas fritas e bifes, já os professores em situação semelhante talvez sejam obrigados a ficar-se pelos ovos, não a cavalo como eles tão bem sabem, mas crus e peganhentos. As inúmeras sessões de treinos que, por esse país fora, a garotada está a realizar no arremesso desses produtos oriundos dos cus das galinhas não são um bom prenúncio.
Confesso que sinto pena dos desgraçados dos professores que são obrigados a aturar as hordas de bárbaros imberbes que as televisões nos mostram; arrepia-me vê-los aos saltinhos e a gritar palavras de ordem como “os putos unidos nunca mais serão não-sei-o-quê”. Não tarda, vou vê-los a desfilar de boina e com uma t-shirt do Che e, aos berros, a entoar aquela da gaivota que voava, voava, voava e que – filha da mãe! – não se cansava. Agora vão desculpar-me mas vou deixar-vos. A ministra da educação está fora, as escolas estão fechadas e as ruas, a esta hora da matina, estão livres de cromos, o sol brilha, o dia está um espectáculo e eu vou aproveitar para pôr um pouco de bronzeado na tromba; vou pegar na Maria – não literalmente porque as cruzes já não me deixam fazer de burro de carga – e vou dar uma volta pela marginal e apreciar o mar (é claro, se o messias Barraca Hussein Abana não tivesse ganho, todas estas coisas boas não seriam possíveis, não senhor, hoje trovejaria e choveria a potes. Ámen! …

Monday, November 10, 2008

Interpretações




Se pudesse viajar até ao passado e escolher uma outra maneira de ganhar o caroço, sabendo o que sei hoje, escolheria a profissão de jornalista. Por achar que, no que estes profissionais fazem – ver, ouvir, escrever, relatar – está aquela que eu considero a mais importante de todas as liberdades: a liberdade de expressão. Toda a gente deve ser livre de pensar e de dizer o que lhe apetece; duma maneira ou de outra, é-se influenciado, por mais ou menos tempo, por aquilo que se vê, por aquilo que se lê e por aquilo que se ouve. Somos moldados por muitas coisas e muitas dessas coisas são-nos dadas por jornalistas. A profissão ideal para um gajo como eu, um gajo que gosta de aldrabar os outros.

Se eu fosse jornalista, daqueles com muita saída, a trabalhar para uma grande estação de televisão ou para um grande jornal, a minha liberdade de expressão daria para, por exemplo, eu informar e convencer o mundo, com ar grave e solene, de que o meu porto tinha dado uma abada de todo o tamanho nos leões e que só não tinha ganho por uma diferença de catorze ou quinze golos por ter tido um azar do caraças. Quem tivesse visto o jogo saberia que eu, além de ceguinho e aldrabão, era parvo todos os dias; quem o não tivesse visto e não escutasse ou não lesse o que outros jornalistas escrevessem sobre o tema, engolia a minha treta e o resto seriam cantigas…

Esta capacidade dos jornalistas em moldar as opiniões tem, repetidamente, dado para o torto! Quando eles não os têm no sítio e se entregam nas mãos de gente desmiolada percebe-se até aonde pode ir esse poder. De jornalismo passa a propaganda.
Uma mentira repetida vezes sem conta transforma-se em verdade para a maioria das cabeças expostas ao tratamento. Exemplos? O Benfica é o melhor do mundo! Sim, pois…e eu sou mais cabeludo que a Maria Alice! Outro exemplo: a liberdade na antiga União Soviética! Durante décadas, a imprensa local convenceu milhões de pessoas de que viviam no paraíso e de que o inferno estava ali ao lado, no ocidente decadente e capitalista. Os povos dos estados oprimidos pela foice e pelo martelo só souberam que a “verdade” que lhes vendiam era uma treta quando puderam ser eles próprios a julgar ou quando puderam comparar e ver, ler ou ouvir outras interpretações da “verdade”.
Se os jornalistas locais podiam justificar a sua falta de vergonha na propagação de mentiras com o medo que tinham em levar na tromba, já os jornalistas estrangeiros, os que viviam em liberdade, tinham mais dificuldade em explicar porque carga de água é que vendiam a sua honra, mentindo em nome de regimes mais perigosos do que a claque dos super dragões. Se este exemplo já é do passado, a coisa continua para milhões de pessoas por esse mundo fora, na Coreia do Norte, na China, em Cuba, etc.

Pior do que a minha aldrabice na afirmação de que o meu porto deu uma trepa e uma lição de bem jogar no último jogo contra os leões, é a “verdade” que o partido do politicamente correcto, anda a impingir, com a preciosa ajuda dos “seus” jornalistas, sobre a crise do subprime, as suas causas, os seus responsáveis.

A seu tempo, tal como aconteceu em relação às verdades comunistas e ao homem novo que aí vinha, também sobre as explicações desta crise internacional os jornalistas vão ter que engolir sapos atrás de sapos. Escreverem ou dizerem, sem se rirem, que a culpa é dos tipos que querem menos estado – portanto menos impostos, menos desperdícios com subsídios a quem não precisa, menos compadrio – e mais liberdade individual, é duma lata de todo o tamanho.

Quando também este muro cair, no bando dos verdadeiros culpados estarão: o antigo presidente americano Carter e a sua legislação de 1977 (o Community Re-investment Act, no original) que “sugeria” aos bancos privados a atribuição de empréstimos a quem não tinha capacidades para os reembolsar; o senhor Clinton com e o reforço daquela legislação, forçando (já não apenas sugerindo…) os bancos privados a financiar toda a espécie de gente para a compra de casa, com a hipoteca da dita, mas com a garantia última do estado americano; por último, dezenas de deputados – democratas (na sua maioria) e republicanos – que, ao longo de décadas, e apesar da vasta regulação existente e dos múltiplos avisos, não souberam ou não quiseram tirar as palas dos olhos.
Até lá, até à queda deste muro, como aconteceu até à queda do de Berlim, eu e outros como eu que destoam do actual celestial consenso (felizmente somos uma minoria…segundo se diz) vamos ter que aguentar e levar tautau no tutu por causa destes pensamentos maldosos.

Tuesday, November 04, 2008

Preces




Quando o safado e bem anafado ouriço se soltou do castanheiro e aterrou em cheio na minha pinha, fui o único que não teve vontade nenhuma de rir. Naturalmente que o meu primeiro gesto foi coçar com ternura a careca ferida, mandar as castanhas para os carvalhos e ir, a seguir, de trombas, alapar-me à lareira em vez de continuar ali, no quintal assassino, a dar cabo da espinhela na apanha das oito toneladas de castanhas que os meus pais fizeram o favor de deixar caídas no chão para me escravizarem.
Dá-lhes gozo…o que é que eu hei-de fazer!

Sai um gajo da cidade, farto daquela confusão de gente que a crise empurra para os centros comerciais e da correria que é procurar uma caixa de Multibanco que ainda não tenha sido assaltada, com intenções de passar um fim-de-semana sossegado e agradável na província e acaba a ser gozado por aquela malta do campo.

Depois queixam-se e dizem que as aldeias estão a ficar sem gente, admiram-se que a malta troque o campo pela cidade.
Pudera! Na cidade, quando quero castanhas não sou eu que as vou apanhar não! Isso é que era bom! Aliás, na cidade, a malta está tão avançada que a castanha já nem vem com o ouriço; pode vir com bicho, mas com picos, isso é que não! Castanha em árvores, embrulhada em ouriços, é mesmo coisa do século passado, coisa do campo! Às tantas ainda pensam que Magalhães é nome de gente!

Portanto, lá estava eu, a tola mais picada do que carne para esparguete à bolonhesa, a mola toda dobrada e aqueles dois marretas ali ao alto, na galhofa, a gozar o panorama.
Como sou católico, especialmente quando está a trovejar mesmo em cima de mim, rezei para que, também eles, fossem presenteados com, pelo menos, uma dúzia de ouriços cada um.
Contudo as minhas preces não surtiram efeito; segundo informações recebidas do além, há congestionamento grave nas linhas que levam as orações dos tubarões que, como eu, só se lembram que são católicos quando se aleijam e os pedidos estão a ser entregues ao destinatário com muito atraso.

Um santinho, que falou comigo na condição de eu manter o seu nome no anonimato, disse-me que, por causa da avalanche dos pedidos, as cunhas eram tantas, vindas de todo o mundo e de gente tão importante que parecia o nosso país; confidenciou-me alguns dos nomes, o que é que eles suplicavam, as cunhas que metiam, nomes que, bem, a vocês nem vos passa pela cabeça! A nata da nata das sociedades, ou como dizem os venezuelanos “la créme de la créme, carago”. E a procissão ainda vai no adro!

Eu, se já não fosse uma besta, acreditem nisto, tinha-me tornado numa! Logo ali! Em maior numero do que políticos no poder – que eram bastantes – estavam os banqueiros, de todas as cores e de todos os feitios. No meio de toda aquela gente importante a pedir coisas muito sérias, havia um anónimo caramelo a rezar pela repetição dos dois últimos jogos realizados pelos dragões (eu disse ao santinho para, à socapa, apagar esse da lista, ainda nos arriscamos a levar mais na repetição se o pedido for aprovado).
Que me lembre, este meu pedido anónimo era o único pedido totalmente egoísta. Os outros não, os outros só queriam a paz na terra e o bem geral.
Embasbacado com a quantidade e qualidade da lista dos banqueiros pedintes, perguntei-lhe o que é que o Espírito Santo achava daquilo mas fiquei sem moedas para prosseguir a conversa e o santinho foi-se. Quanto a mim, continuo picado e cheio de dores nas costas!