Monday, January 21, 2008

Sotaques





Vendo terreno na Ota, óptima localização, água a dar com um pau e muito sol quando não chove.
Por razões de índole particular, tenho muita urgência na transacção, vendo a um preço muito barato e dou, como bónus, um cromo do Eusébio devidamente assinado (por mim) e o álbum “ó tempo volta para trás”, em vinil e em razoável estado de conservação (as duas metades do disco, se bem coladas, ainda fazem uma circunferência completa).
Ou então troco-o por qualquer coisinha no deserto do outro lado do Tejo. O que for mais rápido.

Os meus amigos bem me avisaram, a Maria zangou-se, durante três segundos não abriu a boca, mas eu não lhes dei ouvidos, sou teimoso que nem o Sócrates, e enterrei-me que nem um nabo naqueles doze metros quadrados, na esperança de que lá calhasse um balcão de “check-in” do (prometido) novo aeroporto ou, no mínimo, um WC para homens (se fosse um para mulheres não precisava de tanta terra, os delas são sempre mais pequenos, basta ver as bichas que elas fazem sempre que querem... vocês sabem... não é preciso fazer nenhum desenho, pois não?).

Eu devia ter desconfiado quando houve aquela algazarra toda com o diploma do nosso primeiro e foi publicada a cópia do seu exame escrito final da cadeira de inglês técnico; devia ter ficado em alerta vermelho quando o ouvi a falar em inglês na visita à Casa Branca e durante a presidência portuguesa. Além de crente e distraído, também nunca me passou pela cabeça que o ministro das obras públicas tivesse o mesmo grau de problemas, problemas de pronúncia, no francês. E estes erros de interpretação, pagam-se caros!

Se eu tivesse sido o único a interpretar mal o que o homem disse a propósito de “jamé, jamé, jamé” construir um aeroporto no deserto que é o lado sul do Tejo estaria a sentir-me pior do que estou; estou, felizmente, acompanhado por milhões de portugueses que pensaram que ele estava a dizer que construir o novo aeroporto do outro lado “nunca, nunca, nunca”.

Como estávamos todos enganados e que burro que eu sou! O homem quis dizer foi que “aeroporto do outro lado, no deserto, jémé, jémé, jémé” ou em francês de poesia “j´aimais, j´amais, j´aimais”.

Uma fonte que ainda fuma, próxima de mim e dos corredores do governo e que não se quis identificar por questões de saúde, contactou-me no sentido de me informar que a expressão em francês utilizada pelo senhor ministro e a sua posterior interpretação publicas tinham sido propositadamente encriptadas, a pedido do senhor Almeida Santos, para que os terroristas não ficassem a saber a verdadeira localização da nova infra-estrutura e da ponte que a vai ligar à capital, caso contrário correr-se-ia o risco de atentado.

Agora percebo porque é que o senhor ministro ainda lá está. Aposto que o senhor governador do banco de Portugal também deve ter alguma explicação deste género para explicar a sua distracção e, aparente, incompetência.

Hábitos


Então, o fim do ano, foi bom? Portaram-se bem e entraram no novo ano com o pé esquerdo bem levantado, comeram, sem se engasgar, as doze passas ao som das doze badaladas do sino que tocava na televisão mais próxima e juraram que – desta vez é que é – vão mesmo ser melhores, mais perfeitos, mais gordos e mais bonitos? Lindos meninos e lindas meninas! Sim senhor!

É, eu também sou assim, também minto muito! Das milhares de promessas e desejos que faço e peço em todas as passagens de ano enquanto espero que o gongo pare de me azucrinar os tímpanos para eu poder ir à minha vida e emborcar a minha primeira taça de champanhe do novo ano, só duas é que verdadeiramente têm uma taxa de sucesso bastante razoável, quase com tanto sucesso – modéstia à parte – como as reformas do estado e da administração publica feitas pelo nosso governo: vou acordando vivo, inteiro e sem mazelas graves como desejo e vou progressiva, mas firmemente, a caminho da perfeição na preguiça como prometo. Quanto ao resto, népia!

Prometi acabar com algumas rotinas e alguns hábitos de longa data. Um deles, a conselho do meu fisioterapeuta, é deixar de dar o pontapé diário na minha Maria mal acordo. Ela grita, portanto também está viva e eu fico logo mais relaxado! Diz ele, o fisioterapeuta, que a nódoa negra e a dor no dedo grande do meu pé esquerdo terão tendência a desaparecer. Vou experimentar, é bem capaz de ser verdade porque, quando aqui há tempos ela se refugiou num hospital para poli traumatizados durante duas semanas, eu melhorei bastante, já não tinha dores e até consegui andar o dia todo com os sapatos novos calçados sem andar torto.
Ele prometeu-me que ia investigar e ver se descobria outras formas de eu me certificar que a Maria acordava viva sem necessidade de me aleijar tanto. Não acredito que haja, mas enfim, não lho quis dizer logo porque, como um bom candidato, preciso dele e não quero ser frontal, não vá ele pensar que eu não o tenho em boa conta.

Porém, não quero elevar muito as expectativas da Maria porque depois, se não conseguir cumprir a minha promessa, vou ficar muito desapontado, arrisco-me a ficar tão deprimido como aqueles senhores que pensavam que viviam num regime de economia livre de mercado e acabaram recentemente atropelados pelo rolo compressor do estado empresa socialista, a propósito da oferta publica de aquisição do BCP.

Na sua coluna dominical no Público, a que deu o nome de “PS, SA”, o professor António Barreto, que os conhece de ginjeira, escreveu: “A sua penetração no mundo do dinheiro tem vindo a crescer, no que está a seguir a via inaugurada pelo PSD. Como é evidente, tal actuação é formalmente apresentada como uma prerrogativa do Governo, um dever cumprido no interesse nacional. Acreditemos ou não nessa versão, a verdade é que o PS está hoje directamente envolvido, através dos seus amigos, antigos dirigentes, filiados, sócios, simpatizantes e antigos governantes, em vários sectores da economia, banca, dos petróleos, da televisão, das telecomunicações, das redes de electricidade e gás e outros”.

Mas a quem é que eu quero enganar com os desejos que formulo e com as promessas de mudança a que me proponho a cada ano que começa? Um bom 2008 para vocês também!

Monday, January 07, 2008

Conspirações




“…Não sei se Sócrates é fascista. Não me parece, mas, sinceramente, não sei…O que ele não suporta é a independência dos outros, das pessoas, das organizações, das empresas, das instituições…(…)O primeiro-ministro José Sócrates é a mais séria ameaça contra a liberdade, contra a autonomia das iniciativas privadas e contra a independência pessoal que Portugal conheceu nas ultimas três décadas…temos de reconhecer: tão inquietante quanto esta tendência insaciável para o despotismo e a concentração de poder é a falta de reacção dos cidadãos. Será anestesia? Resignação? Acordo? Só se for medo…”.

A sorte do senhor que escreveu isto, e já agora a nossa, é que vamos ter mais um canal de televisão, mais um canal generalista, parece que vai começar a emitir algures durante o ano que vem, segundo nos informou, na semana que passou, o ministro SS (não confundir com a sigla da segurança social). Este novo canal, aposto, tudo há-de fazer para desmentir o autor do texto que citei acima, o concurso há-de ser ganho por gente com eles, gente sem medo, sem influencia politica nem dependência económica do governo e do estado português, investidores do planeta Plutão.

Como provável premiado, logo após o anuncio, um de dois potenciais concorrentes: o grupo dos Oliveirinhas ou o grupo Cofina.
Sobre a independência do primeiro em relação a quem manda, constatado pelo posicionamento, horizontal, dos seus dois jornais de referência, o JN e o DN, estamos conversados, acho que já nem mesmo quem acredita no pai natal deve ter dúvidas mas, anjinhos, com barrete, asas e tudo, ainda os há, portanto, se for esse o seu caso, não desespere, não está só.

Quanto ao segundo, ao grupo Cofina, a coisa apresenta-se um pouco mais complexa, os accionistas do grupo, além da forte presença no sector de media, têm também uma grande actividade industrial (pasta, papel, aços e sistemas de armazenagem) através de outra empresa, a Altri, também ela cotada na nossa bolsa. A Cofina, domina o mercado de publicidade, algumas das suas publicações são líderes destacados no segmento da imprensa escrita e escreve lá muita boa gente que, assumidamente, tem alergia ao açaime.

Coincidência ou não, no passado dia dois, um dia antes do anúncio publico do ministro SS, o nosso banco, a Caixa Geral de Depósitos, através da Caixagest, aumentou a sua participação na dita Cofina, detendo agora um pouco mais de dois por cento, participação que lhe dá uma posição qualificada, permitindo-lhe, para já, meter o bedelho.
Até ao resultado final do concurso se verá em que quantidade e de que modo vai ser administrada ao vencedor a dose necessária de respeitinho-que-é-preciso-teres-senão-não-comes!

Se o autor das tais frases que eu citei no começo do meu texto tiver razão naquilo que escreveu, estamos feitos ao bife e o melhor é emigrarmos para um país seguro, tranquilo, rico e amante da paz, como o Irão, Cuba ou a Venezuela.
Ah, antes que me esqueça: o autor é, mais uma vez, o socialista António Barreto, na sua crónica de domingo no jornal Público.

Tuesday, December 18, 2007

Brrrrrrrrrrrrrrrr!




Está aqui um frio danado, mesmo com dois aquecedores à minha volta e uma catrefada de roupa vestida não consigo aquecer. É suposto estar frio na época natalícia mas também não era preciso exagerar. Quatro graus de temperatura mínima previstos para a capital é o melhor convite (e pretexto) para eu ficar na cama o dia todo, mais ou menos como fazem os ursos, esses sim é que são espertos, dormem durante todo o Inverno e só acordam quando já se pode andar de tanga.

Por falar em tanga, entreguei, há minutos – voluntariamente forçado – a terceira prestação por conta da minha prendinha do ano que vem, ao senhor fisco, aquele monstro que tem uma carantonha muito, muito feia, igual à do gigante Adamastor, o brutamontes barbudo, sujo e malcheiroso que também assombrava os homens que tentavam, desafiando os ventos e as marés, dobrar um cabo de boa esperança. Eu, que sou tão ou mais curioso que os gajos do banco de Portugal quanto a tudo o que se passa nos nossos bancos, nomeadamente no BCP, roo-me todo para ver se adivinho o que vou receber em troca!

Felizmente há uma prenda que o estado me vai dar para o ano que vem e que vai contrabalançar estas mexidas, descaradas, no meu bolso.
Nem toda a gente se pode gabar de conseguir prever acontecimentos futuros mas eu consigo, tal como o professor Karamba-às-vezes-nem-sei-como-calha-mas-acerto. Não, por acaso não é só uma, por acaso eu até já sei duas das prendas que vou receber: uma é mais um (uuuaaaahhh, longo bocejo de monotonia!) título de campeão nacional para o meu clubezito e a outra, a tal de que falava atrás, é a nova lei anti tabaco.

A partir do primeiro dia do próximo ano vou deixar de gastar dinheiro em almoçaradas ou jantaradas em restaurantes. Não posso fumar? Então não vou! Como e bebo em casa!
Ou então recheio um taparuére com torresmos, pastéis de bacalhau, enchidos, azeitonas, carcaças, um garrafãozito de tinto – copos não que o plástico estraga o ambiente – e esfumaço até vir a mulher da fava rica ou até se lembrarem de inventar uma porcaria qualquer grave na camada do ozono, ou no recheio do taparuére, por minha culpa.
Ao menos consolo-me a pensar na massa que vou poupar só nos “couverts”, que na maior parte das vezes vão quase inteirinhos para trás, poupança que vai dar e sobrar para fazer face ao aumento do preço de cada maço; como dizia um antigo primeiro-ministro, o primeiro dos que fugiram por causa do nosso pântano, é só fazer as contas: para um aumento de, vá, trinta cêntimos por maço, fumando eu meio maço por dia, ora deixa lá ver, dá-me um aumento de despesa de cinquenta e quatro euros por ano. Isto dá para aí quantos “couverts”, por ano e por pessoa? Dez? Doze? É nas calmas! Sem contar no que poupo nas gorjas!
Interessante vai ser a solução para as prisões: os governantes têm que proibir o tabaco mas querem dar seringas para injectar um substituto nos viciados noutras substâncias (menos perigosas, suponho!). Os agarrados do tabaco vão ser discriminados ou também vão, como os outros agarrados, ter direito a uma regalia especial? Ainda vão ver que um gajo, para poder fumar à vontade, num espaço público, pequeno, fechado e sem ventilação, tem que ir dentro.

Mas pronto, é Natal, não vale a pena falar de coisas tristes, se tem que haver frio então que haja, se não se pode fumar que se dane, manda quem pode e obedece quem deve, tenham umas Festas felizes e, cuidado, muito cuidado com o que comem!

A máquina do tempo



112 Lexington Avenue, Bridgeport, USA.

Esta não é uma morada ao calha. Esta é a morada, cujo passado eu andei a investigar durante este fim-de-semana, aproveitando as maravilhas da tecnologia, confortavelmente sentado na minha cadeira e em frente ao meu computador, sem vontade para sair de casa por causa da confusão da cimeira.
Ali, há quase cem anos, a 28 ou 29 de Junho de 1917, o Ezequiel e o Custódio terão dado um abraço, um abraço apertado, umas quantas palmadas nas costas, sorrisos largos, o Custódio disse "estás com bom aspecto, primo, as gringas tratam-te bem!", e o Ezequiel retorquiu "e tu, deste-te bem lá pelas terras do Brasil?". Devem ter morto as saudades, partilhado esperanças e brindado a um futuro melhor. Não consta que tenham ressonado apesar da quantidade de bebida ingerida.
O Custódio Marques tinha chegado ao porto de Nova Iorque, no navio "Vauban" vindo do Brasil, via Buenos Aires. Às autoridades aduaneiras, disse ter 23 anos e a fortuna de 10 dólares, de ter sido ele a pagar a sua viagem e que ia para a casa do primo Ezequiel Henriques. Vinha para trabalhar mas fazia tenção de regressar para o seu país de origem. As autoridades registaram-no como física e mentalmente são, capaz de ler e escrever, sem cicatrizes ou marcas especiais, de olhos castanhos e cabelos pretos.
No mesmo navio vieram, de Santa Comba, o João Almeida, com 24 anos e 32 dólares e o Augusto Leonardo, de 22 anos e com 35 dólares, mas foram para outras paragens.
Em Setembro do ano seguinte, no dia 12, o Custódio foi obrigado a ir à inspecção militar. Apesar da primeira grande guerra se aproximar do fim os americanos queriam toda a gente alistada.
No cartão de registo, o Custódio escreveu que tinha nascido a 25 de Agosto de 1893, que era operário na Remington Arms Co. de Bridgeport, uma empresa de fabrico de armas e munições, e assinou-o declarando que tudo aquilo era verdade. As autoridades atestaram que o meu avô não tinha perdido nenhum braço, perna, mão ou olho, não estando obviamente desqualificado para o serviço. Na história da Remington, este dia ficou marcado por uma missa em comemoração do fabrico do ultimo rifle dum grande contrato com o exército dos EUA, a que compareceram, entre importantes figuras do exército e da marinha, mais de 14,000 dos seus empregados.
Diz o ditado, e é verdade, que quando vai um português vão logo dois ou três! A dada altura, naquela morada terão habitado o Custódio, o Ezequiel, o Moyses Mattos Affonso, o Júlio Reis e o José Henriques. Outros mais se juntariam:
O Roberto Ventura, filho de Manuel M. Ventura, que chegou no dia 18 de Fevereiro de 1920 no navio "Britannia", com 22 anos e 50 dólares; com ele vieram também o Sabino de Matos e o Alberto Mattos Almeida.
No dia 5 de Outubro de 1920 atracou no porto de Nova Iorque o navio "Providence". Um dos passageiros era o Joaquim Ventura, agricultor, que vinha para casa do irmão Custódio. Declarou 20 anos e 20 dólares, que não era nem polígamo, anarquista nem aprovava o uso de força para derrubar o governo americano e não sabia quanto tempo ia ficar. As autoridades consideraram-no mental e fisicamente são e sem quaisquer deformações. Com ele vieram o Joaquim Marques Matos de 28 anos e o Manuel Antunes de 38, com 30 dólares cada um.
Aos habitantes do 112 da Lexington avenue em Bridgeport, Connecticut, as autoridades americanas chamaram Tourigo Boys e, durante anos, mantiveram uma apertada vigilância.

Tuesday, November 27, 2007

Xaropes

(Única, 09.06.2007)


Vá lá, todos quietinhos agora, toca a olhar para o passarinho… isso… só mais um bocadinho!
Não, não, não, não, assim não! Ou ficam quietos e se juntam o mais possível uns aos outros ou então não saímos daqui hoje!
É só mais um instante e vocês, os adultos, podiam muito bem dar o exemplo! Tira a mão do nariz, não, não és tu, é o teu irmão. Santa paciência, mas o que é aquele matulão está ali a fazer à frente? Eh pá, mas eu já não te tinha dito que os mais altos têm que ficar na fila de trás? Tirem-me o cão daí! Ó filha põe as saias para baixo!
Olhem, sabem que mais: desisto! Estou farto de vos aturar, vão todos para o diabo que vos carregue!

Qualquer infeliz a quem tenham impingido uma máquina fotográfica com o objectivo de conseguir, para a posteridade, uma fotografia de família, fica automaticamente proibido de ir medir a tensão arterial nos dias seguintes. Até desabafos com a sua cara-metade são contraproducentes a uma razoável sanidade mental e física do desgraçado.
Podem, e devem, ser pensados mas são absolutamente interditos a qualquer tipo de verbalização, lamentos como “a tua irmã, além de estar muito mais gorda, está mais parva” ou “os ranhosos dos teus sobrinhos, os filhos do Anacleto, são uns maricas, sempre agarrados às saias da mãe, aquela insonsa” ou ainda “mas o que é que passou pela cabeça do estafermo do teu pai para ele autorizar o nosso casamento?”
Embora eu não tenha conhecimentos pessoais sobre o que estou a escrever, asseguro-vos que tudo isto deve ser verdade.

Recordei-me disto por causa da seguinte notícia que ouvi, neste fim-de-semana, num noticiário de uma estação de rádio: “Em entrevista ao DN (diário de notícias) Mário Soares acha que o PS devia chegar-se um bocadinho mais à esquerda”.
Se é o DN que o diz, então é porque o senhor deve ter mesmo dito aquilo, o jornal é unha e carne com essa gente, mais ou menos assim como os coisos do senhor padre Inácio, sempre juntinhos, nunca vi uns irmãos gémeos tão chegados como aqueles.

Como não tinha tempo nenhum para desperdiçar, não fui ler a entrevista e fiquei-me pelo título, mas imaginei-me logo no papel de fotógrafo do nosso antigo presidente (agora um velho e grande amigo desse exemplo vivo de democrata que é o actual presidente venezuelano) e de mais uns quantos elementos do agrupamento socialista, numa qualquer escadaria de um qualquer edifício público, eu a quere-los mais para a direita, ele a puxar pela manga do casaco do nosso primeiro e a dizer “bem, ó José, homem, aí aonde estás arriscas-te a não ficar bem na fotografia; chega-te mas é mais para aqui, mais para a esquerda, isso, só um bocadinho, aqui para o pé de mim, do frei Anacleto e do Huguinho do petróleo. Vais ver como aqui se fica muito mais aconchegado”.

A minha vesícula, desde que imaginei a cena, entrou em polvorosa e, desde então, ando enjoado e mal disposto! Há-de passar. Que remédio! E sem lamentos!

Disparates



Hoje vou chatear os anti-americanos! Também não é preciso muito para os pôr em órbita, basta sussurrar-lhes o nome do actual presidente e é vê-los em brasa, a espumar e a trepar pelas paredes acima, de cabeça perdida, completamente descontrolados.

Mais ou menos como eu estou com os resultados do meu FCP, que agora deu para andar armado em empata, o que me obriga a aturar umas estupidamente grandes doses de gozo por parte dos meus amigos lampiões que até já se dão ao luxo de dizer que, este ano, vão ganhar não sei bem o quê. Como eles pensam que são muitos, não sei quantos milhões, é quase um delírio colectivo que nos ameaça. Felizmente que a azia tem obrigado os lagartos a ficar em casa, de repouso, porque senão eu só podia sair à rua disfarçado, de burca enfiada pela cabeça abaixo. Viver na capital e ser dragão é obra quando a coisa nos corre mal. Felizmente é raro, mas quando acontece, nem vos digo nem vos conto, é preciso ter cá um jogo de cintura…!

Pertenço, já perceberam, ao reduzido bando de idiotas mentais – a última vez que contei éramos doze – que acumula ser dragão com ser pró-americano. Combinação mais desmiolada do que esta, de momento não me ocorre e duvido que seja fácil de encontrar. Pelo menos neste velho continente cheio de história e que se chama Europa.

Vejam bem que eu até acho que o nosso mundo ocidental, o nosso mundo de conforto e paz, deveria agradecer, e muito, aos soldados americanos, incluindo os que agora estão a dar o coiro no Iraque. Isto é mesmo doentio não é? Depois, quando fizer algum acto ainda mais tresloucado, não digam que não tinha dado pistas suficientes para que me internassem a tempo.

Sei que estou só neste sentimento mas eu sinto enormes saudades de ouvir reportagens sobre o que se passa no Iraque, de ver repórteres ocidentais, de colete e capacete, a cascar nos gringos. Se calhar muita boa gente ainda nem se apercebeu do manto de silêncio que, desde há uns meses, se abateu sobre o que (de mau) acontece naquela perturbada zona do mundo. Longínquos vão os tempos de monopólio que o tema tinha na informação publicada; agora ninguém me diz nada sobre as maldades que, os meus amigos do novo mundo, por lá fazem, sobre as torturas, sobre a guerra civil, sobre a falta de segurança, sobre as impossíveis reconciliação e reconstrução daquele país. Nada!

Novo mundo, sem séculos de história, que ainda se rege por uma constituição que foi escrita há quase duzentos e cinquenta anos e a quem tantos querem – e podem! – dar lições de liberdade, desde os antigos países do leste europeu, que viveram em ditadura até há….hummm....vinte anos, até Portugal, Espanha e Grécia que têm uma longa tradição democrata de…vejamos…trinta anos, à França e à Alemanha cujas constituições têm (pouco) mais de sessenta anos ou à Bélgica (que por acaso nem sei se, hoje, ainda é um país).
Como já disse, só mesmo um desmiolado que acredita em dragões é que pode escrever tanto disparate em abono daquele bando de bebés grandes!

Sunday, November 11, 2007

Obrigações




Em teoria, nos contos de fadas ou em Marte todos nós somos iguais, todos nós temos as mesmas oportunidades, todos somos amigos, tretas desse género e por aí fora.
Acredito que, talvez, quando nascemos sejamos todos iguais: inocentes, nus, sujos e feios!
A partir daí, acho que tudo muda. No início, cada um terá alguém que lhe vai tratar da vidinha, depois calçam-se sapatos próprios e, toca a andar, cabecinhas na estrada a furar pelo trânsito.

Quem prega que somos todos iguais, é tão aldrabão como os que têm a lata de dizer, na presença dum recém-nascido, “mas que menino tão lindo!”. Recém-nascido e bonito são coisas completamente distintas e opostas (excepto para essa interessante e intrigante categoria de primatas que dá pelo nome de avós).

Quando pela primeira vez, oito minutos depois do nascimento, botei olho no meu filho mais velho – valha-me Santo Agostinho! – pensei que, ou ele tinha saído disparado com tanta força que não conseguira evitar o choque frontal com a parede oposta à marquesa ou então fora pela minha estúpida e perigosa condução a caminho da maternidade, guiada pelos nervos, pela ignorância e pelo cagaço, que a tromba do puto ficara assim, toda amarrotada.
Era então “aquilo” que eu ia levar para casa ao fim de nove longos meses de expectativa? Era “aquilo” que ia contaminar, com as suas fraldas borradas e os seus babetes azedos, o sadio ambiente lá em casa, impedir-me de dormir como aquilo que eu era, um anjo, e obrigar-me a preparar, ao frio e às três da madrugada, centenas de biberões? Quando nasceu o segundo, para evitar mais desilusões, só ao fim de onze dias ousei encará-lo de frente e, ainda assim, assustei-me.
É claro que, entretanto, se transformaram os dois em bonitos rapazes, com pais assim outra coisa não era de esperar mas, agora, estão outra vez feios porque não arrumam os quartos não querem regar a relva e nem querem pôr a louça do jantar na máquina, etc.

Se pai de recém-nascido tivesse estatuto, e se esse estatuto fosse igual ao que agora dizem ir ser aprovado para os alunos, não me teriam apanhado na sala de aula durante todo o curso, ter-me-ia baldado o tempo todo e se conseguissem obrigar-me, eu acabaria por responder às milhentas convocatórias da maternidade, quanto mais não fosse para dar uma meia dúzia de tabefes nas enfermeiras pela insistência em atribuir-me a responsabilidade de levar o pacote para casa.



O meu amigo Vítor, o meu socialista parceiro do ténis, professor de electrotecnia, coordenador dos directores de turma e ele mesmo director de uma turma de sete alunos do oitavo ano da via profissionalizada (com uma média de idades de 17,3 anos) numa das piores classificadas escolas públicas do país, localizada bem perto do palácio de Belém, tem o mesmo receio que lhes aconteça o mesmo que às enfermeiras e acredita que muitos dos agora responsabilizados progenitores só ponham mesmo os pés na escola para partir os dentes a quem vai insistir em chateá-los por causa dos filhos e das filhas. Em boa verdade os alunos já fazem bem esse papel e a ele ainda nenhum o agrediu porque, como ele diz, “quando os gajos começam com merdas eu também parto para a agressividade”.

“Mas sabes, lá no fundo – continua ele, agora a sorrir – dá-me um gozo danado vê-los a tourear a malta que por cá aparece a dizer que com uma postura de compreensão, de diálogo, de igualdade acabaremos por conquistá-los”. Sim, está bem!

Marmelos



Era de tarde, no relógio da torre da igreja tinham-se ouvido quatro badaladas, o dia estava lindo, no céu sem nuvens o sol brilhava e aquecia as minhas costas, eu olhava para a avó dos meus filhos que à janela aberta do seu quarto acabara de responder à minha pergunta dizendo-me que o que estava ali a fazer era a secar a marmelada.
Pensei ter ouvido mal mas ela, sorridente, repetiu. Olhei em volta à procura do seu marido mas não o encontrei. Pus-me em bicos de pés, tentei espreitar para dentro do bem iluminado quarto. Não o vi mas podia muito bem-estar escondido.
Parece-me que de cada vez que me vêem no Tourigo, este par de alucinados fazem o possível para gozar com a minha cara.
Ele, o marido, não descansou enquanto não me levou a ver, de perto, a beleza duma groselheira carregadinha, vista bonita, confesso, mas que não passou, afinal, duma matreira e engenhosa maneira de fazer com que fosse eu a esmagar os ouriços e a apanhar as castanhas que tinham caído naquele lado do quintal. Com a desculpa da sua idade e do seu actual estatuto de presidente quem teve que dobrar a mola para apanhar as seis castanhas fui eu. Sozinho!
Eu quero lá saber aonde é que ela seca a marmelada! Nem sequer quero saber aonde é que ela faz a marmelada. Na minha idade é óbvio que já sei mais ou menos onde é que ela, a marmelada, se faz naquela casa, mas, francamente, há informações que eu preferia não receber. A minha mãe a fazer marmelada! Até evito pestanejar não vá dar-se o caso de, com os olhos fechados, me passarem imagens estranhas à frente. A curiosidade dos meus filhos sobre estas questões culinárias morreu por volta dos cinco anos e, agora que já deixaram a adolescência, se eu ou a minha Maria lhes perguntamos se há perguntas a fazer sobre a matéria, fogem como Maomé do presunto, aos gritos e com as mãos a tapar os ouvidos. Como eu os compreendo!
Recordei partes da conversa à hora do almoço, o meu pai a pedir-me para ser eu a fazer os trabalhos mais pesados que incluíram abrir a garrafa do vinho porque lhe doíam as mãos de tanto descascar os belos marmelos e a mulher a dizer que ele gostava mais da que tinham feito primeiro porque era menos azeda do que a segunda. Ela gostava das duas. Queixas houve, sim, mas das castanhas e das nozes que, segundo ela, estavam todas piladas as primeiras e quase todas podres as segundas.
Mesmo a suave palmadinha que ele lhe deu e as estridentes gargalhadas que se seguiram quando a apanhou, quieta, os braços no ar, os dois indicadores esticados e o tronco a balançar ao som duma qualquer música que só ela ouvia, me fez juntar dois mais dois (bolas, até esta ultima parte da frase me soa estranha).
E tinha eu pensado, ingenuamente na altura, que o clima alegre e quente que envolvia a cozinha se devia à nossa visita, ao arroz de cabidela e ao tinto.
À noite, já deitado a ler o meu livro, ouvi foguetes. Desliguei e luz, tapei a cabeça com a almofada e obriguei-me a dormir.

O Saldanha





Nos últimos cinco minutos era para aí a quinta vez, o tom de voz a aumentar, que ela dizia “mas eu já lhe disse que só o Saldanha é que lhe pode resolver o seu problema” e era, para aí, a sétima vez que o homem lhe respondia, o tom também em crescendo “mas foi o Saldanha que me mandou vir aqui e disse que vocês é que me resolviam o problema!” quando ela entornou definitivamente o caldo ao proferir, alto e bom som “mas eu quero lá saber!”.

Antes que lhe desse um chilique e porque “eu não vou dar cabo da minha saúde por causa das asneiras do Saldanha” a funcionária chamou a policia, por acaso vieram dois, calmos e diligentes, tomaram conta da situação, não sem que um deles tenha levado as mãos ás algemas ameaçando prender o utente vitima do Saldanha que, a caminho do olho da rua e de estribeiras completamente perdidas, foi distribuindo elogios a todos quantos, na sua opinião, faça sol ou faça chuva, informem bem ou informem mal, não precisam de se preocupar com as consequências dum mau serviço porque o guarda-chuva aparece sempre no final do mês.

Por esta altura, eu e mais a outra dúzia e meia de utentes que comigo esperavam na sala, estávamos com tamanho pó ao Saldanha que, se o apanhássemos ali, bem à nossa frente, dávamos-lhe uma valente esfrega e uns quantos bananos nas fuças. O marmanjo estava mesmo a pedi-las. Estava ele e, achávamos nós, estava a funcionária, graças a quem, já conhecíamos todos os podres dos cinco desgraçadas utentes que ela atendera antes.

Levantei-me, pedi a atenção dos meus colegas, expliquei-lhes os porquês da minha profunda irritação com o comportamento do Saldanha, disse-lhes que tipos como ele que brincam com a vida dos outros não mereciam andar por aí à balda e, como todos mostraram concordância comigo, propus-lhes a minha solução: recambiar o Saldanha para o Jardim das Pichas Murchas!

Ainda agora todo eu fico pele de galinha e me comovo até ás lágrimas quando recordo a efusiva reacção dos colegas à minha proposta, as palmas, os gritos de “este mano para presidente, já!”, os abraços, os beijos e os apalpões. Foram, acredito, os meus cinco minutos de fama.

Infelizmente os sonhos duram pouco e, rapidamente, uma outra funcionária do atendimento ao público da Segurança Social do Areeiro se apressou a esclarecer que o Saldanha não era um homem mas sim um local, também em Lisboa e a cerca de um quilometro dali, onde havia outras instalações daquele organismo publico, também ele com dezenas de outros funcionários aptos a resolver os nossos problemas.

Atendendo a que o Jardim das Pichas Murchas, que fica perto do castelo de São Jorge, é um espaço muito pequeno, caiu também por terra a minha proposta já que, com tantos candidatos e candidatas a irem lá parar, aquele pacato recanto alfacinha tornar-se-ia inabitável e, sabe-se lá, corria até o risco de ter que ser rebaptizado.

Para acabar numa nota mais alegre, deixo-vos com a resposta do senhor Jardim Gonçalves quanto perguntado se dera o seu contributo para o perdão da divida de juros do seu filho para com o BCP: Ó pus dei!

Saturday, October 20, 2007

Vira o disco





O difícil é conseguir encontrar um tema sobre o qual vai girar a treta da minha crónica; depois – eu acho – a coisa mais ou menos acaba por fluir e, no final, às vezes até fico com a sensação do dever cumprido, com a sensação de que o cheque é merecido.
Esta semana, o problema é a quantidade; é conseguir escolher entre os vários temas que, assim de repente, me ocorrem: o congresso do PSD, a visita de dois policias a um sindicato na Covilhã para saberem o cardápio das queixas e dos insultos contra o nosso primeiro e o rápido arquivamento do respectivo inquérito, os desabafos de dois apresentadores de noticias de televisão, ambos escritores de romances, sobre a suposta ingerência dos chefoes nas linhas editoriais das respectivas estações e as diferentes reacções dos seus superiores, o novo orçamento do estado e o (continuo) aumento da despesa corrente ou os perdões de enormes dividas acordados pelo BCP a empresas ligadas a alguns accionistas e administradores.

Ou a atribuição do Nobel da paz a Al Gore, autor do filme Uma Mentira Conveniente, desculpem, Uma Verdade Inconveniente, que teve piada por ter acontecido na mesma semana em que o juiz de um tribunal inglês impediu a divulgação do filme nas escolas públicas inglesas, por este conter nada mais, nada menos do que 9 (nove) imprecisões científicas. Para poderem passar o filme, os professores terão que contrabalançar a teoria do laureado com a de cientistas que defendem o contrário, isto é, que não há nenhum aquecimento global e que não é o homem o culpado pelas alterações no clima. A mulher talvez, aí sim, já eu não punha as mãos no fogo, quanto à culpa…

Ou ainda o sorriso irónico e a pergunta “mas quais escutas?” que o senhor ministro da administração interna fez na RTP, às quinhentas da matina, a propósito da divulgação de escutas telefónicas antigas onde é ouvido a agradecer a Abel Pinheiro (ex-tesoureiro centrista, actualmente arguido num processo de tráfico de influências) o empurrão para uma sua eventual nomeação como procurador geral da republica que o Paulinho das feiras podia dar junto do antigo Presidente da Republica, Jorge Sampaio, em resposta a um pedido de ajuda directo do (na altura ainda) engenheiro.

Vamos entendendo melhor o complexo enredo, encenado, nos bastidores, pelos artistas que, alegadamente, se estrafegam na praça pública de modo a arrancarem ruidosas mas anestesiadas palmas aclamatórias das suas diferentes clientelas.

Do congresso do PSD, bastou-me ouvir uma parte do discurso de Manuela Ferreira Leite, onde ela jurou, a pé juntos, que não há, nem deverá haver tão cedo, margem para reduzir os impostos. Como defende também o novo presidente eleito do partido.

São estas reservas morais da republica, referências históricas dos grandes (e pequenos) partidos da nossa assembleia democraticamente eleita, prestigiados e experientes economistas e eu sei lá que mais, que, do meu ponto de vista, desde há não sei quantos anos, empobrecem a vidinha e a conta bancária da maioria dos desgraçados portugueses, com a maldita impossibilidade de reduzir os impostos porque – genuína mas (se calhar) não ingenuamente – não querem é acabar com o regabofe que é a despesa pública e os seus efeitos colaterais.

Sendo assim, eu que até escrevo e falo de barriguinha cheia, filiei-me na abstenção. Sentado e à espera!

Thursday, October 11, 2007

Arrepios

(foto daqui )





Quando o calor vai de férias, aquecer os corpos que se passeiam noutras paragens, vem o estafermo do frio para tomar conta de nós, sempre à coca, a ver quando é que metemos o pezinho, descalço, numa poça de água gelada e, mal nos apanha de corpinho bem feito, acama-nos com uma bruta e estúpida gripe. Para o ajudar a torturar-nos vem, como dizem no


Porto, o bento (mas é aquele que assopra e não aquele que faz aquelas poucas vergonhas com a senhora marquesa) e enche o ar que respiramos com micróbios, qual deles o mais pestilento, resultando numa sinfonia de espirros que nunca mais acaba, coisa tão desprovida de graça como o primeiro episodio da segunda edição do programa dos gatos fedorentos que estreou ontem, domingo, no canal de televisão estatal e que eu e a minha gente, aguentámos até ao fim, sempre naquela vã esperança, esperança nem sei bem de quê.

Já há umas noites atrás, também naquela estação, um concurso do tipo festival da canção, mas para putos, me tinha mandado para a cama todo arrepiado e com uma dor de ouvidos levada da breca, uma vontade danada de experimentar saltar dum avião sem me preocupar em levar o pára-quedas ou até a vestir e fazer explodir um desses fatos de macaco que os islâmicos fascistas usam, convencidos de que é a maneira mais rápida de irem às meninas.
A ultima vez que eu me lembro de ouvir uma tão horrorosa chinfrineira e de ter tão inocentes pensamentos foi quando o meu filho mais velho, então com uma mão cheia de anos, tirou a chupeta da boca do mais novo e este, ainda incapaz de lhe ir ás trombas sem a minha ajuda, desatou num berreiro tal que acabou por rachar a parede da porta da entrada da minha casa, onde está, desde então, pendurado aquele que é o nosso maior quadro e também onde, durante o Inverno, mantemos as garrafas de vinho branco sempre geladinho.

Ainda pensei que os pais daquelas barulhentas criancinhas fossem como eu e que, quando confrontado com a óptica duma câmara de televisão a transmitir as minhas fuças em directo e em simultâneo com a actuação do meu desafinado petiz, meteria aquele meu ar aparvalhado e surpreso, género “que é que foi?, vire essa coisa para lá, eu?, ter alguma coisa a ver com aquilo?,


você é maluco ou faz-se?, porra, já viu como o puto canta mal como o raio, chiça penico, caramba pastel de coco!, coitados dos pais da criatura, bom, eu só vim ver a bola, agora tenho que me ir embora, em que rua é que fica o museu do ruído?”.

Juro, puto meu, naquela idade, enfiar-se numa situação daquelas, sem ter jeitinho nenhum para a poda, como castigo – Deus me livre, me perdoe e me poupe – não recebia a mesada até conseguir cantar tão bem como aquele senhor de bigode que, com o bacalhau, quer alho.
Mas não, não senhor! Aqueles paizinhos não só não invadiram o palco para cascar e calar os fedelhos como ainda por cima estavam felizes, contentes e saltitantes sempre que as câmaras os mostravam e os rotulavam como os progenitores, os tios, os primos, ou os avós daquelas pestes desafinadas e guinchadoras.

Se algum dia, por muito distante que ainda possa estar (e espero bem que sim), algum filho de um dos meus filhos me levar a comportamentos destes, desde já vos suplico: internem-me!

Sunday, September 30, 2007

Fintas


(Cartoon seen here)
Graças a uma finta perfeita executada pelo meu adversário de ténis, estive uns dias no estaleiro, com dores terríveis no meu nome, enormes dificuldades para me sentar e movimentar. Por questões de (minha) saúde, aquele marmanjo não volta a jogar contra mim, a não ser que a tal me obriguem.

Quando finalmente me consegui aguentar sentado durante algum tempo, fui actualizar-me sobre o que se passa por esse mundo fora, sobre o que se anda a passar fora, mas fora das notícias da imprensa de referência, não fosse ser atingido por mais uma finta monumental.
Andei, portanto, a navegar pela Internet onde, entre outras curiosidades, fiquei a saber que:

- O nosso primeiro-ministro, de visita à Casa Branca e na presença do seu anfitrião, perdeu o norte e socorrendo-se do seu apurado inglês técnico, agradeceu a oportunidade para discutir com ele alguns problemas no mundo, nomeadamente a situação no “médio ocidente”. Até ao momento desconhecem-se quer os territórios quer os problemas que tanto preocupam o nosso dirigente.
- Segundo o Portugal Diário (do mesmo grupo que a TVI), mais ou menos por essa altura, Bush matou Mandela! O jornalista, usando o mesmo inglês técnico do nosso primeiro, não conseguiu interpretar uma analogia feita pelo americano – que como todo a gente sabe é burro e detém o recorde mundial de gaffes – sobre a inexistência de um Mandela iraquiano.
- A Bélgica, reino federal cuja capital é também a capital da união europeia, pequeno país que para as autoridades europeias é vista como a miniatura da UE, o verdadeiro modelo para a Europa, está dividida e desde as eleições de Junho que está sem governo; os flamengos e os valões não se entendem na sua limitada federação e as rupturas acentuam-se.
- A BBC, essa excelência informativa, admitiu que funcionários seus cometeram mais uma série de falsificações nos resultados de alguns concursos e em algumas das votações realizadas pelos espectadores; algumas das falcatruas foram cometidas em programas para crianças.
- A cadeia de televisão estatal francesa France 2, que em 2000 filmou a morte de um rapaz palestiniano de doze anos, trespassado pelas balas do exército israelita, jazendo ao lado do seu desesperado e impotente pai, foi, finalmente, intimada por um juiz de um tribunal francês a tornar públicos os vinte e tal minutos de filme onde, supostamente, se prova que todo o incidente foi uma monumental encenação feita pelos palestinianos. Relembre-se que o episódio deu origem a violentos e prolongados confrontos entre as duas partes e que a ampla publicação da fotografia originou um coro de protestos mundial contra o estado hebraico.
- O emplastro do Irão está de visita a Nova Iorque, no âmbito de mais uma reunião da ONU onde vai discursar. Quer ir em romaria até ao local onde antes estavam as torres gémeas mas ainda não sabe se pode ir ou não.
- O grande FCP soma e segue a fintar os adversários mais directos!

No colchão

(Adapted from an original ad found here)


Vai para aí um forrobodó danado nos mercados financeiros mundiais que é bem capaz de estoirar com a luz ao fundo do túnel da economia que a malta já dava como certa, ainda que os bolsos continuassem tão leves como dantes.

Em pleno século vinte e um, cai o queixo a qualquer um ao ver as enormes filas de gente desesperada que, em Inglaterra, correu e corre, a levantar os depósitos que tinham e ainda têm num banco local que está, alegadamente, com as calças na mão.

Apanhados no vendaval provocado pela chamada crise dos empréstimos “subprime” (empréstimos a pessoas de muito poucos rendimentos e com um historial elevado de calotes pregados noutros empréstimos anteriores, uma estratégia seguida quando as taxas de juro nos Estados Unidos estavam a valores historicamente muito baixos) os responsáveis do banco informaram que os seus lucros tinham sofrido um rombo do caneco; vai daí, uns quantos tipos começam a sacar a massa de lá, a coisa espalha-se num boca a boca imparável, o taco que existe no cofre não chega para as encomendas, toca pedi-lo emprestado a outros bancos, primeiro aos bancos amigos habituais, depois a bancos amigos dos bancos amigos e, como a resposta continua a ser um manguito, acaba-se a recorrer a quem quer que seja que esteja disposto a emprestar o guito, mesmo que cobre um pouco, ou muito, mais. Nada que qualquer um de nós não fizesse quando está mesmo à rasca e precisa, sem falta nenhuma, daquela massa naquela dia, naquela hora, já!

Mas a manta é curta e como a tempestade aumenta de intensidade o montante que lhe emprestaram já se foi e é preciso mais; muito mais! Os manguitos estão, nesta fase, generalizados e toda a gente desconfia de toda a gente. O cérebro de cada banco pensa assim: hum … se fulano, que é um rato de esperteza, se espetou naquilo então beltrano, que é do mais fino que há, também deve estar aflito! E sicrano? Só pode! Chiça, será que vão conseguir devolver-me aqueles milhões que me pediram emprestados há uns tempos atrás? Eh pá, se não mos pagarem, também não posso pagar o que devo! Porra, querem lá ver que também eu estou feito?

Como nós faríamos em desespero de causa e se os nossos pudessem, os responsáveis do banco viraram-se para os papás, neste caso o pai do sistema bancário lá do sítio, o banco central inglês. De joelhos e em confissão, desvendam-se os segredos das asneiras cometidas – nesta fase do campeonato tem mesmo que ser – promete-se nunca mais cometer o mesmo erro, pede-se a absolvição e ajuda.

E o pai absolve e ajuda! Por enquanto! E apesar dela e das múltiplas afirmações sobre a sólida situação do banco afiançadas pelas mais altas e qualificadas autoridades na matéria, a verdade é que o Zé-povinho não acredita e continua a fazer bicha para sacar a massa daquela instituição.

Por enquanto isto passa-se pelas terras de origem do clube de futebol de milionários que, esta semana, vai levar uma carga de porrada dos leões. Mas … e se a moda pega e alastra para outras paragens? Corre-se a levantar o taco? Para meter aonde?

Wednesday, September 12, 2007

Tabuletas




Passei o fim-de-semana em Vila Viçosa. Fui convocado para, na qualidade de amigo da artista pintora, assistir à inauguração da sua primeira exposição a solo; ela é uma calipolense, palavrão que classifica os naturais daquela vila alentejana, vila que é famosa por esse mundo fora graças ao seu mármore e às, de outros tempos, tricas e mexericos reais que por lá ocorreram em séculos passados, dentro e fora das paredes do Paço Ducal. Também é famoso pelo bom vinho Borba, os queijos, os enchidos de porco preto e a sericá (se for sem a ameixa) ou sericaia (com a dita).

Os meus conhecimentos sobre pintura estão ao mesmo nível de tudo o que eu sei sobre o cérebro da ratazana o que me qualifica para, pelo menos, saber que se o objecto em questão está pendurado por um ou mais pregos e eu o não posso contornar, então trata-se, claramente, de um quadro. Se me perguntarem se o borrão pendurado é um aguarela um óleo eu entupo, engasgo-me e, na melhor das hipóteses, quando quase pareço um intelectual vestido com a minha mais que coçada e algo esburacada ganga, a camisa amarrotada e por fora das calças, a barba por fazer e o cabelo comprido, faço uma cara de ofendido como se quem se atreve a fazer-me essa pergunta idiota queira, no fundo, ter algum género de contacto físico comigo, a modos que um estalo na tromba.

Também já sei que o Picasso não é nenhum jogador espanhol de futebol a jogar numa equipa inglesa e que a Paula Rego não é uma praticante da modalidade do salto à vara. Conhecimentos adquiridos, escrevo-o com orgulho, sem o recurso a explicações!

Percorro as exposições de pintura como a mesma velocidade com que o esfomeado do meu filho mais novo limpa um bife com batatas fritas e ovo a cavalo; como resultado, ficamos, ambos, cheios e a abarrotar durante uns tempos, incapazes de repetir a gracinha.

Conhecedora destes meus desarranjos artísticos, a minha amiga fez coincidir o sacrifício da exposição com as festas anuais da vila. Das várias actividades que constavam no programa para um turista acidental como eu, só consegui chegar a tempo a uma: à largada de toiros no domingo de manhã. Este é espectáculo em que o toiro, tal como o Zé-povinho às mãos do estado, é gozado até dizer chega. Alguns, poucos, dos funcionários públicos – oh perdão, enganei-me! – alguns, poucos, dos participantes na largada, quando o desgraçado do bicho já está preso por uma corda e a ser puxado para dentro da camioneta, desatam – à socapa, não vá, mesmo preso, o diabo tecê-las – à biqueirada ou à traulitada com a ponta de guarda-chuvas.

Borrei definitivamente a pintura quando, regressado à base depois de uma visita à “nossa” Olivenza, insultei a estátua de homenagem ao monarca da restauração, insultos justificados pelas esmagadoras diferenças que há entre o lado de cá e o lado de lá, mal se atravessa a ponte sobre o rio Guadiana e se passa para lá da simples tabuleta que sinaliza a entrada em Espanha.

Antes de, rapidamente, me por na alheta, tinha desabafado para os meus companheiros de viagem: que pena os gajos não terem posto a tabuleta em Oeiras!

Misérias

(photo by wrigham on Flickr)

É no próximo fim-de-semana que vai decorrer mais uma festa do “Avante”, o jornal do partido comunista português, que contará com a presença de muitos democratas, representando partidos irmãos. Uns estão no poder, como o de Cuba e o da Coreia do norte, e outros gostariam de estar mas, por enquanto, não estão. É o caso dos representantes do partido comunista colombiano que, teme-se, poderá trazer outra vez as FARC, organização que a união europeia classificou como terrorista e que, entre outras acções de cariz social, mantém refém e prisioneira politica, há cinco anos, uma senhora que dá pelo nome de Ingrid Betancourt.

Imagina-se a chinfrineira que, por esta altura, já se faria ouvir por tudo quanto é imprensa de referência, escrita e falada, se em vez de esquerdistas, os terroristas que nos pudessem vir fazer uma visitar, fossem de uma qualquer organização ligada à extrema-direita.

Faço figas para que nenhum dos cubanos que cá vem se lembre de aproveitar a viagem para dar o salto e pirar-se do paraíso do camarada Fidel; os últimos rapazes que o tentaram num país onde se fala a língua portuguesa – o Brasil – acabaram apanhados pela polícia local e recambiados para a ilha onde, alegadamente, foram premiados com um programa, grátis, de aperfeiçoamento e aprofundamento da noção de liberdade e do respeitinho (além de uma colecção de cromos e outra de alfinetes de lapela, ambas de Lula da Silva).

Confesso que não entendo como é que há tanta gente a querer sair de lá. Se calhar é tudo mentira e não passam de invenções dos inimigos dos camaradas, que não olham a meios para tentar denegrir a imagem das democracias comunistas, a cubana neste particular. Pior: segundo consta, os tolões, não só querem sair aos magotes como – ai valha-me o camarada Estaline! – escolhem como principal destino os … USA.

Preocupado, eu vou cumprir a minha parte e vou, mesmo que vá sozinho, levar-lhes à festa do Avante, alguns milhares de exemplares (para eles depois poderem distribuir lá na terrinha) de uma das edições da semana passada do Diário de Noticias, onde se dá conta que o número de pobres lá nos states é de 36 milhões! Tantos que, segundo o diário, constituiriam o terceiro maior estado, à frente da Califórnia. Perguntar-lhes-ei: é para lá que quereis ir? Heim? Dir-lhes-ei: pensem bem rapazes, pensem bem se querem viver como esses trinta e seis milhões, com:
- Salário anual inferior a 13,167 dólares (mais ou menos 9,700 euros). Já agora, a título de curiosidade, o rendimento médio anual dos agregados americanos foi de 48,200 dólares em 2006 (uns míseros 35, 500 euros por ano, bem longe da média que existe nos paraísos dos camaradas e até da nossa própria média).
- 43% desses pobres são proprietários das suas casas (com três quartos em média, garagem, terraço e quintal; 80% têm ar condicionado; 75% têm 1 carro; 97% têm uma televisão a cores e 50% tem duas; 62% têm televisão por cabo ou satélite; 89% têm micro-ondas e um terço tem máquina de lavar louça, etc., etc.

Só mesmo a jovens completamente destrambelhados da cabeça é que lhes passaria pela mona querer ir para uma terra assim. Inconscientes e muy locos de la cabeza!

Monday, September 03, 2007

Celebrando


(Nota da administradora deste blog: como quem "posta", "ilustra" e mantém este blog sou eu, escolhi este cartoon como forma de protesto pelas baboseiras que abaixo são escritas sobre mulheres, mulheres ao volante e fornecimento de cerveja pelas ditas. Pela parte que me cabe, a partir de agora quem quiser cerveja nesta casa que a vá buscar:)!!!)

Hoje somos nós, os dragões, que estamos a aproveitar o sol! Mandámos os lagartos para dentro, para a sombra, e eles foram em bando mas com tranquilidade juntar-se às águias que, coitaditas, estão feridas. Presumo que ambos se vão limitar a travar aquela luta renhida que, nas ultimas duas décadas, têm travado pelo titulo de campeão da segunda circular, competição menor e sobre a qual eu nada sei o que, em boa verdade, me não interessa.

Nestes assuntos importantes e vitais (como é o caso do futebol) eu, quando posso, vou logo de peito feito para a gozação e aproveito a maré enquanto ela dá. Como é o caso! Quando muda, enfio a viola no saco, fico surdo, encolho-me na posição fetal e deixo que me martelem os costados até se fartarem ou até a maré me sorrir outra vez. Ainda há coisa de umas semanas levei tantas que ainda tenho algumas nódoas verdes.

Ontem celebrei a nossa vitória com cerveja! E muita! Por isso não estou a conseguir escrever sobre o tema que tinha escolhido para hoje, sobre a teoria da relatividade e o seu efeito nos verdeufémios

Não sei se sabem mas a cerveja e a roda são as duas principais invenções de todos os tempos e explicam o modo como a nossa sociedade se comporta hoje.

Reza a história que primeiro foi inventada a cerveja; os homens, para ficarem perto da fábrica, formaram as primeiras aldeias levando consigo as suas mulheres para que estas se levantassem cedo, fizessem as camas e fossem buscar a caloria enquanto a maior parte dos homens curtia a buba da véspera e ia à caça para ter qualquer coisa que petiscar enquanto mamava a dita.
Era função da mulher providenciar para que a casa se mantivesse sempre bem fornecida com o liquido enquanto esperávamos pela descoberta da garrafa e da lata, invenções que viriam a facilitar a sua conservação e o seu armazenamento.

Alguns dos homens não bebiam e, entretanto, começaram a coser, a tratar dos cabelos, das unhas, etc. Muitos tornaram-se activistas e outros conseguiram até transformar-se em mulheres.

Como não há mal que sempre dure nem bem que se não acabe, quando elas começaram a recusar-se a ir buscar a nossa cerveja, fomos forçados a pensar; desse esforço mental nasceu a roda.

No princípio como elas não perceberam logo a utilidade da coisa ainda tivemos que ser nós a pedalar até à linha de produção.
Quando conseguimos que elas percebessem a utilidade da roda, caíram-nos em cima as contas das reparações dos estragos que elas faziam quando andavam sobre as rodas e fomos forçados a inventar o frigorifico e o camião e convencer o fabricante a trazê-la até nós.
E assim estamos, nos dias de hoje, como os dragões: sempre a malhar!

Tuesday, August 21, 2007

Assaltantes

(photo de yaleglobal.yale.edu)




A fazer lembrar o prec, umas dezenas de putos e delas também, invadiram uma propriedade privada no Algarve. Cumprindo a tradição, toca a desfolhar o milheiral que o idiota do dono da propriedade semeou para – pasme-se! – ganhar algum cacau, o que, como toda a gente sabe, é péssimo sinal dos recalcamentos burgueses que, infelizmente, ainda entopem a mona de muito indígena mal formado e estúpido (infelizmente é também o meu caso mas eu aguardo, impaciente, a minha vez para a lavagem ao cérebro).

A maior parte daqueles vândalos e arruaceiros (as televisões e a imprensa têm, até agora, sido mais carinhosos na adjectivação da espécie), tinha a tromba tapada por causa da alergia ao pólen; estranhei o facto porque, sendo eles burros, achei que deviam estar habituados ao feno.

Percebo também porque razão a GNR não conseguiu impedir (mesmo sabendo antecipadamente da excursão), identificar ou prender a esmagadora maioria dos malfeitores: não havia latagões nem latagonas, eram todos magricelas como o milho derrubado, e se algum deles levasse um carolo a sério, além de correr o risco de ficar descabeçado para o resto da vida, o pobre do soldado que tivesse cometido tal crime ia levar com o mundo em cima, sem falar na hipótese, terrível, de ser o alvo num sermão de frei Anacleto Louçã (agora que o mencionei aproveito para lhe desejar as melhoras da laringite que o impediu de vir a publico condenar este acto).

O gang insere-se num movimento mais vasto de palhaços radicais, cujo circo este ano acampou em Aljezur; denominado Ecotopia e é segundo os promotores “… um modelo funcional de comunidade auto-sustentável que coloca em prática os princípios de um estilo de vida alternativo e mais amigo do ambiente: tomadas de decisão por consenso, reciclagem de lixo, refeições vegetarianas, uso de energias alternativas.(...) tem uma estrutura horizontal (não-hierárquica) e auto-organizada; a todos é pedido que tomem parte no funcionamento do campo, resolvendo problemas e tomando decisões. E todos são responsáveis pelo programa. O Ecotopia funciona no sistema de ecotaxas - um sistema económico alternativo baseado no padrão de vida e rendimento médio de cada país, em vez de baseado nos mercados financeiros, o que significa que cada um no Ecotopia paga pela comida o mesmo que pagaria no próprio país”.

Hummm … reconhecem o cheiro? Mais mal cheiroso fica quando tomo conhecimento que o Instituto Português da Juventude – organismo governamental – incentivou à participação da nossa juventude no acampamento (a página oficial do governo com o apoio já “desapareceu” da Internet mas há sempre rabos de palha …).

Se a coisa se mantivesse só pelo empurrão inicial de incentivo à participação e à angariação de desmiolados, vá que não vá, mas a prática cá no burgo mostra que antes, durante ou depois do empurrão das autoridades, sejam elas autárquicas, centrais ou europeias, a este género de organizações que se mascaram de ONG’s, vem o subsidiozito sem o qual não há pão para malucos.

E de quem é o taco que as autoridades – as autárquicas, as centrais e as europeias – desperdiçam neste e noutros grupelhos com objectivos parecidos?
Exactamente!

É assim


(foto no DN Online)


Acabei de ler o livro da Zita Seabra onde ela conta como foi a sua vida, desde o momento em que, menina rica com dezassete anos, passou à clandestinidade até ao final da década de oitenta, altura em que, definitivamente, conseguiu largar a pele de comunista com que se enrolou durante anos.

Para muitos conceituados democratas esquerdistas, mesmo depois da realidade do muro de Berlim lhes ter caído em cima dos costados, ler este livro deve ser pior do que levar um murro nas trombas e ficar KO. Toda aquela treta sobre democracia, liberdade e igualdade mandada às malvas pela pia abaixo, gentileza de uma das suas mais empenhadas lutadoras.

Para outros, ler aquilo ou não ler vai dar ao mesmo, eles acreditam e – mais grave! – querem que nós também acreditemos naquela banha da cobra para, escravizando o maior número de tolos que conseguirem, terem uma vida rica e darem rédea solta à sua bestialidade.

Infelizmente há ceguinho que não quer ver! À vista de tanta evidencia, ainda há muito boa gente com muito carinho e respeito por outros ditadores vivos, tipo o senhor Saramago, o senhor Fidel Castro e o senhor Hugo Chavez, entre outros. Tudo bons rapazes, malta fixe, daqueles que animam as patuscadas com a sua exuberância e que cativam assistentes para as suas pantominices!

Como a Márcia Rodrigues, jornalista do nosso canal de televisão público que entrevistou, no passado mês de Julho, o embaixador iraniano em Portugal. Não vi a entrevista. Só vi duas fotografias da jornalista na sua função. Da Márcia só se vê uma pequena madeixa do cabelo loiro e a cara. Tudo o resto está bem tapado, com véu, roupa a tapar o pescoço e luvas pretas nas mãos. Ela, que deve ter orgulho em poder celebrar, em liberdade, o dia internacional da mulher, o dia internacional do combate à violência contra a mulher e outras efemérides importantes para as meninas na sua luta pela igualdade face aos meninos, justificou a farpela usada como a adaptação à lei da teocracia islâmica dizendo ser bom que o nababo tuga saiba que ela seria presa se ousasse apresentar-se vestida como lhe é habitual no seu dia-a-dia nesta laica republica portuguesa. Porém, segundo uma fonte da embaixada do Irão em Lisboa, não foram dadas quaisquer indicações à jornalista sobre a forma como ela deveria vestir-se, lembrando que "mesmo que alguma embaixada tivesse a pretensão de dizer a um cidadão português como ele deveria vestir-se dentro do seu próprio país, esse cidadão não era, de forma alguma, obrigado a obedecer às instruções dessa mesma embaixada”.

Não sei quem mente. Não parece nada bem é a nossa Márcia (e já agora o nosso canalzinho de TV) curvar-se tanto perante o representante do ditador iraniano, porque é uma chatice quando esta gente agarra o poder: só o largam à biqueirada!

Por isso é que a Zita Seabra, no seu livro Foi Assim, se congratula com o facto de Cunhal não ter tido poder real porque “ao mesmo tempo que exercia um profundo fascínio, dada a sua forte personalidade, bastava conviver um pouco de perto com Álvaro Cunhal para lhe perceber uma profunda desumanidade nas relações humanas, muitas vezes a roçar a crueldade”. Está na cara: foi assim e é assim! Né?

Thursday, August 09, 2007

Viva




Já cá moram quinze diazinhos de papo para o ar numa praia algarvia!
Além do bronze, oferta do rei sol, trouxe também dois pares de quilos para chatear as minhas calças; vai-me dar um gozo do caraças ver como é que elas se vão desenrascar e conseguir enfiar pelas minhas pernas acima sem perturbar, em demasia, a hortaliça. O cinto, impossibilitado de se meter na fivela, desapareceu sem deixar rasto. Se por acaso algum dos leitores tiver um, para aí com uns dois metros e meio de comprido, que não use, saiba que estou comprador, pelo que me poderá contactar para uma rápida conclusão do negócio.

Até nem sou dos que comem muito; bem pelo contrário! O meu problema tem a ver com a manteiga, as loiras e os gelados. Por esta ordem! O resto do que como é muito à base de grelhados e cozidos, tudo muito saudável.

Felizmente esta mania com a culinária saudável está muito em moda entre os adolescentes, pelo menos entre as raparigas e os rapazes que, este ano, frequentaram a mesma praia que eu. Só gente linda e elegante, praticamente ninguém excessivamente nutrido.
A contrariar os pregões dos vendedores ambulantes a produtos, fritos, que dão cabo da saúde, o “olhà bolinha com creme, a bolinha sem creme e o creme sem bolinha” ou o “olhà bolacha da dona aurora, feita de manhã para comer agora”, está o delas e o deles, anunciado sem pruridos de espécie alguma: cozam-se os carvalhos! Em qualquer lugar e a qualquer hora!

Fui ao barbeiro porque o meu cabelo é infernal e, nem nas férias, fica quieto. Agora frequento um que fica num centro comercial; para rentabilizar a barbearia e como há muito mais mulheres que homens, criaram um espaço que está a funcionar como barbearia para gajas e que já ocupa quase o dobro do nosso território.
Hoje tive que esperar quase uma hora pela minha vez. Eu e mais os seis marmanjos carrancudos que tiraram a senha antes de mim; elas, as senhoras, chegavam aos magotes, sorridentes e faladoras. Bichas para elas? Nenhuma! Estavam todas do nosso lado!

Quando um homem é chamado para o acto a que vai, estrafegam-lhe o pescoço com uma porcaria dum enorme babete velho, lavam-lhe a cabeça com sabão clarim, esfregam-na depois com um pano de limpar o chão, empurram-no para uma cadeira já cheia de cabelos, fazem-lhe o que tem a fazer e … prazer em vê-lo, até à próxima!
Elas? É só sorrisinhos e beijinhos, “querida, que óptimo aspecto, e ainda não esteve na praia? Não? Quem diria!, mas isso é fantástico!”, desaparecem por detrás duma porta (apostava que lhes dão um aperitivo às escondidas) e reaparecem com uma bata branca absolutamente impecável a proteger a roupita; as mãos que lhes esfregam o couro cabeludo estão equipadas com luvas pretas da mais pura seda.
O desvelo pela criatura sentada na confortável poltrona até enjoa: “Querida, a temperatura da água está boa? Não está muito apertado no pescoço, pois não? ”, “Ó Mizé, na tua cliente tu só usas o nove trinta e oito porque, no preto dela, esse realça-lhe a mate, e – não te esqueças! – não abuses do oxidante!”.
O coração aperta-se-me quando vejo uma coisa com a cabeça repleta de folhas de papel de alumínio; lá fora as nuvens estavam pretas e se trovejar aquela coisa vai atrair um raio. E eu temo ficar como os carvalhos: cozido!