Wednesday, January 31, 2007

Nada




Volta e meia acontece! É raro... mas acontece! Às vezes, quando me sento ao computador para escrever, fico para ali especado a olhar para o monitor, ou para as teclas, ou para as unhas e, apesar do meu ar sério e compenetrado, não consigo encontrar o tema que seja o tiro de partida para a minha crónica. Hoje não, hoje sei exactamente sobre o que é que vou escrever, e vai ser sobre nada. Isso mesmo: nada!

Podia escrever sobre o referendo ao aborto, sobre o caso do sargento Gomes, sobre a justiça ou criticar a falta dela, sobre a crise na autarquia da capital e no maior partido da oposição e dizer cobras e lagartos de uns e de outros, sobre o problema do aquecimento global e esconjurar os seus maiores culpados, sobre a as alterações ao concurso do canal um por causa da vitória de Salazar, sobre mais uma derrota do maior clube de futebol do mundo e arredores, sobre o roubo que é o preço da gasolina face ao custo do petróleo e ao câmbio do euro contra o dólar americano, sobre o exagero que são os impostos mais as suas taxas escondidas, sobre o excessivo peso do estado na economia e na vida dos cidadãos, sobre aqueles buracos na berma da estrada do Tourigo para Mortágua, ao pé de Mortazel e que, como a Toyota, vieram para ficar, bem, se eu quisesse, matéria prima não faltava.

Mas queria ser original e, sei lá, escrever um texto a apoiar a politica do senhor Bush na sua luta contra o terrorismo; ou um a questionar porque carga de água não havemos nós de impor os nossos usos e costumes aos que escolhem ficar por cá (na Europa comunitária) a viver e a trabalhar se depois somos punidos pelas nossas autoridades, por violação da nossa constituição, se copiarmos alguns dos costumes deles; ou escrever a dizer que me estou nas tintas se uns quantos combatentes extremistas islâmicos foram obrigados a fazer o pino e a ouvir a música dos Red Hot Chili Peppers até cuspirem cá para fora a informação que evitou vários atentados contra alvos densamente povoados de civis (a minha vizinha, que tem setenta e muitos anos, foi torturada, ao murro, por dois putos de treze que continuam por aí, mais livres e arrogantes do que os voos da CIA, apesar do inquérito que, dizem, está a decorrer na policia).

No fundo, o que eu queria era escrever textos que seja raro lerem-se, provavelmente porque são poucos os que os têm no sitio! O senhor Pacheco Pereira é dos poucos que os tem, lá no sítio dele que é o www.abrupto.blogspot.pt; além dele, ou melhor, com a inteligência e com a independência dele, se calhar os dedos de uma só mão chegavam para contar quem tem a distinta ousadia de fugir à atracção do pc (politicamente correcto).

Querendo ser original mas não me sentindo à altura do senhor doutor Pacheco, decidi escrever sobre nada. Só chateio quem já leu até aqui e depois cada um vai à sua vidinha.
Hoje de manhã, domingo, esteve quase a nevar aqui em Lisboa; estavam quatro graus na rua e – juro – que vi dois farrapos de neve no meio da carga de água que caía quando cheguei ao clube para ir jogar ténis. Pois foi, a sério que vi!

Wednesday, January 24, 2007

O Maior


Tanta gente a votar a setenta e dois paus o voto, mais iva, para a eleição do maior português de sempre e nem um só, um só único desgraçado votou no Gabriel!

O Gabriel foi, sem sombra de dúvida, o maior português de sempre. Dois metros e para ai uns quase quarenta centímetros. Deitava a cabeça na cama do quarto e os pés numa outra, instalada na marquise. Duas traineiras velhas, compradas na sucata, escondiam as camisolas que calçava nos pés para esconder os joanetes do tamanho de maçãs reinetas.

Nascido em Moçambique, conheci-o ainda aquela colónia era território português. Veio na bagagem de um empresário manhoso e, juntamente com um anão de nome Lúcio, correu o país de lés a lés; o Gabriel sentado numa cadeira real segurava o Lúcio na palma da sua mão direita enquanto recebia, na enorme tenda, os visitantes que compravam o direito a vê-lo de perto, a ele, o gigante de Majacaze, o maior de todos os portugueses.

Durante os meses que durou a sua tournée pelas feiras do norte, ficou hospedado na mesma casa que eu. A vivenda de três andares, conhecida nas redondezas como a casa dos malucos, tinha onze quartos e uma vintena de inquilinos, todos machos e supostos estudantes, rapaziada que foi mandriar para o Porto, idos das mais variadas regiões, do Minho ao Algarve.

Nos primeiros dias da sua estadia naquela espécie de manicómio, ainda conseguiu ter algum sossego porque essas eram as ordens do empresário e também porque o Gabriel era muito tímido. Valeu-nos o Lúcio, a quem bastava enfiar um copo com brande ou whisky debaixo do nariz para cair redondo no chão. Na sala das refeições e depois de um jantar, após a segunda inspiração de Macieira lá tivemos nós que o levar ao colo para a sua cama, que era ao lado de uma das do Gabriel. A medo batemos à porta, pedimos autorização, dissemos ao que íamos e ficámos amigos. Rapidamente aquela zona passou a sala de jogos e a casa de fados, berros esforçados ao som da viola do Gabriel, por sinal muito mal tocada. Aquela manápula era incapaz de conseguir tocar uma só corda de cada vez e, a partir, eram logo todas as seis duma vez.

O Gabriel deslocava-se numa furgoneta VW, a sua limusina; o banco era muito rebaixado para evitar que o desgraçado andasse sempre às cabeçadas ao tejadilho. Tinha problemas nas pernas (tinham-lhe enxertado um osso – de carneiro ao que me lembro – numa das coxas) e muita dificuldade em andar a pé e usava uma bengala do meu tamanho que brandia em jeito de ameaça, sempre a sorrir, quando fazia de contas que se zangava connosco.

As visitas lá a casa de duas namoradas que vinham expressamente contratadas de um bar da Povoa do Varzim eram um dos momentos mais comentados, até pelas medidas de segurança que originavam, com dois seguranças à porta do quarto que só partiam quando a visita estivesse consumada. Uma destas namoradas acabou por casar com ele, tendo-se divorciado pouco depois. De volta a Moçambique, também ele morreu na miséria.
Um enorme português e nem um mísero voto… nem o meu, pois eu, confesso, preferi esbanjar os setenta e dois paus, mais iva, numa imperial com tremoços!

Tuesday, January 16, 2007

Anjos





Um dia destes tenho que ir às compras, estou a precisar de umas roupitas novas e adiar este sacrifício significa arriscar-me a ficar sem os fundilhos de algumas das minhas calças a qualquer momento e embora me dê algum gozo imaginar o embaraço de quem me visse o dito, mesmo que decentemente tapado, tenho dúvidas de que eu próprio apreciasse a minha humilhação.

Mudar de fatiota e vestir uns trapos novos, dizia um senhor meu conhecido, pode ser melhor para a saúde do que muitos remédios, mudar o visual é excelente para a nossa disposição, fazer de contas que somos outros, novos, diferentes e frescos aos olhos de quem nos vê. O stock é o mesmo a montra é que aparece exposta de maneira diferente, o efeito dura pouco tempo mas enquanto dura sabe bem.

A ONU, esse polvo que as elites politicamente correctas querem que eu engula, à maneira do óleo de fígado de bacalhau, como o único, o verdadeiro, o maravilhoso garante do direito internacional, também trocou de roupa, um produto da Coreia do sul em substituição do já mais que gasto produto ganês, do estilista Kofi Annan.

Toda a gente sabe como os americanos, perdão, os americanos não, o que toda a gente sabe é como o senhor Bush trata os habitantes do mundo, entre eles os prisioneiros, estejam eles em prisões iraquianas, numa ilha das Caraíbas ou em trânsito, num qualquer avião da CIA. Toda a gente sabe, porque há jornais, rádios e televisões que não se cansam de o repetir e de o lembrar. Às vezes há provas – fotografias, filmes, testemunhos – outras vezes, como não as há, as acusações ficam como que a pairar no ar embora a sua sombra já funcione como uma nódoa que não sai.

Em todos os casos sustentados por provas já houve, ou estão em curso, julgamentos, alguns com sentença já proferida e com os culpados a cumprir pena; quanto aos outros aguardam-se as provas para se poder ir para além do diz-que-diz e outros episódios há em que se provou ser mentira. Os americanos são maus, perdão, o senhor Bush é muito mau, mas a justiça naquelas terras funciona e uma sociedade civil irrequieta lá vai picando os vários poderes impedindo-os de adormecerem na cepa torta.

Os garantes do direito internacional, a minha querida, adorada e estimada ONU, têm tropas de manutenção de paz espalhadas por uma porção de países – Congo, Libéria, Haiti, Burundi e Sudão por exemplo – e, segundo provas, os soldados que as integram violam e roubam à fartazana os pobres dos nativos, especialmente as crianças.
De quantos julgamentos e acusações já lhe deram noticia os órgãos de comunicação social que costuma ler e ouvir? Eu também!

O actual Conselho dos direitos humanos da ONU, eleito no ano passado e com mandato para três anos é constituído por quarenta e sete países entre os quais se encontram países tão democráticos como Cuba, Argélia, Arábia Saudita e China.
Durante o ano de 2006, os dois países com o maior número de condenações feitas por este conselho foram Israel (38) e os Estados Unidos (29). Só depois aparecem o Sudão (26), a China (23) e o Irão (21). Cuba está em décimo sétimo lugar com 9.

Quando mandar rezar uma missa vou convidar estes meninos de coro. São tão afinadinhos a embalar-nos que até dá gosto.

Tuesday, January 09, 2007

Jogos



Já curti e já curei os estragos provocados pelos exageros cometidos durante a época natalícia; estou agora na chamada fase dos caldos de galinha que se caracteriza por uma total ausência de excessos e cujo objectivo é manter-me em bom nível físico e mental.
Infelizmente ontem comi qualquer coisa que me provocou uma tremenda de uma azia e segundo o meu médico, nem na Quaresma vai passar. Atlético e pronto para jogar não ficarei eu tão cedo. Paciência!
Ou então vou jogar na bolsa, brincar com as acções das empresas cá do burgo; aqui sim, quem tem jogado, tem todas razões para andar contente, o ano passado foi o melhor desde o princípio do século e este também começou com o pé direito e, para já, vai lindo e formoso, com bom porte atlético.
No meu tempo – expressão usada por elementos de uma determinada geração para dar tareia em todas as gerações mais novas – quando se compravam acções, entrava-se mesmo na posse dos títulos em papel que ficavam guardados no cofre ou debaixo do colchão até à próxima transacção, altura em que eram passados para as mãos dos seus novos titulares. Hoje, nos tempos deles e graças à parafernália tecnológica existente, num minuto, sem ter que sair da cama, sem ter que falar ou contactar com mais nenhum ser vivo, um artista pode comprar e vender imediatamente uma porradaria de acções, ganhar ou perder uma pipa de massa.
Há jogadores que dizem que as cotações das acções já subiram demasiado, que os lucros das empresas vão ser afectados negativamente pelas subidas das taxas de juro, que a economia americana vai entrar em recessão, que a bolha não tarda nada vai rebentar e que as quedas vão ser dolorosas, muito piores do que a queda dos dragões; outros, pelo contrário, dizem que não senhor, este ano ainda vai ser sempre a acelerar, a economia mundial continua de boa saúde e a nossa, a portuguesinha da costa, também vai crescer e as empresas vão mas é ter mais lucros, abrandamento só para o ano que vem. A juntar aos sinais dados pelas maiores economias mundiais, dizem eles, está também o sentimento de que durante este ano vai aumentar ainda mais a concentração de empresas, quer através de aquisições hostis quer através de fusões amigáveis, reduzindo o número de empresas e criando grupos com mais poder de controle sobre os preços de venda dos produtos.
Uma destas duas leituras tão diferentes da mesma realidade estará mais correcta que a outra; pode até dar-se o caso de as duas estarem certas dependendo da altura do ano. Os pessimistas são os ursos e os optimistas são os touros.
Prognósticos só no fim do jogo, de maneiras que convém lembrar a todos aqueles que estão em campo para estarem atentos ao desenrolar dos encontros, ter muita atenção às faltas, especialmente às entradas por trás e à má fila, para não se perder o controle do esférico que neste caso dá pelo nome de euro.
Eu, como se diz na gíria, já estou dentro e em jogo. Espero é não ficar tapadinho …

Tuesday, January 02, 2007

Correrias




Hoje é o último dia do ano de dois mil e seis, amanhã arranca mais um período de doze meses que, em progressiva aceleração, nos vai levar em direcção à próxima passagem de ano, que está já ali, ali ao virar da esquina, isso, aí mesmo.

Não sei que raio é que se passa com o estafermo do tempo mas, de há um punhado de anos para cá, o marmanjo parece ter o fogo no rabo, armado em carapau de corrida.

Ando eu ainda a apreciar o cheirinho a lavado que a prima vera deixa no ar quando, sedutora, provocante e prometedora, aparece a pavonear-se, armada em boazona – que é, entre as estações! – e, pimba, já as noites tomaram, outra vez, conta da maioria dos dias, embrulhando o sol na cama pouco depois da hora a que os ingleses tomam o seu chá, não vá o menino estar cansado quando, à meia-noite, se comerem as doze passas e, rabugento, estragar a festa que, goste-se ou não, tem que ser alegre.

Os meus putos riem-se, encolhem os ombros e dizem que eu devo ter os cilindros entupidos ou a cabeça do motor queimada; a minha patroa começa a entender-me e os meus pais gozam à brava comigo! À brava, à brava, não será, mas parece, pois garantem que o tempo deles é ainda mais veloz e que, se os nossos dois tempos fizessem uma corrida, a minha humilhação na derrota era menina para me estatelar na cama com uma depressão à maneira.

Desconfiado, procuro-lhes no olhar pistas que me façam concluir que estão a gozar com a minha cara, exactamente como faziam quando, ao luar em plena selva tropical, apontavam para a sombra vergada pelo peso do enorme saco e diziam que era o Pai Natal que estava de passagem. Nã, estão mesmo a falar a sério.

Que se dane! Com que então sua excelência quer conduzir cada vez mais depressa? É? Está bem! Que lhe faça bom proveito!

Já que este maluco teima em me levar no lugar do pendura, espero que o desgraçado evite tanto quanto possível os buracos que vão dando cabo dos pneus, que obedeça minimamente ao manual de instruções e faça umas revisões de quando em vez. que vá cumprindo as regras de transito, que não abuse muito do motor e nunca, mas nunca, deixe o depósito ficar sem combustível.

Apesar do vento e da poeira provocados por esta desenfreada velocidade há que manter os olhos sempre bem abertos e, assim, apreciar bem a paisagem enquanto posso porque, mais cedo ou mais tarde, este Fangio vai mesmo acabar por nos fazer despistar (não se preocupem, já bati quarenta e seis vezes na madeira ...).

A minha taça, cheia de um bem gelado champanhe, aguarda que a vossa esteja a postos; já está? Tchim, tchim!

Sunday, December 31, 2006

À vossa!




Então que tal, o Natal foi bem passado? Sim? Ainda bem!
Muitas prendas? Não? Não mesmo? Então, porquê? A malta é forreta ou está tesa?
Ah, estão mais para o teso, hem...? Deixem lá, às vezes até que dá jeito estar teso...

Neste momento, hora a que escrevo, véspera da noite de consoada e do bacalhau cozido com todos, iguaria que antes detestava e agora mamo que nem um abade em dia de festa, apesar do frio que está lá fora, eu estou bem quentinho e não é do calor da lareira, não senhor, essa está às escuras e sem chama, deu-me aquela preguiça malvada para encomendar a lenha a tempo e agora tenho que a racionar, estou guardá-la para os dias em que a neve cair cá em casa. Estou quase tão farto de levar na corneta por causa deste meu pequeno lapso como o presidente do banco Espírito Santo por causa do apelido da Carolina; agora que ele já conseguiu esclarecer que, embora tenham o mesmo apelido, a dita senhora é Sal por parte do pai e Gado por parte da mãe pode ser que parem de o chatear.

O calor da noite, esse malandro, deve-se a quase uma garrafa de tinto Adro da Sé, reserva de 2001, que chocalha cá no bucho. Oferta de um amigo que me quer ver alegre, o raio do tintol desliza pela goela abaixo com uma suavidade que até arrepia. A minha Maria farta-se de barafustar porque eu bebo muito mais depressa do que ela e depois ela sente-se prejudicada. A culpa é minha, podia muito bem ter arrumado os trapinhos com alguém que só bebesse água, fui nabo e distraí-me, agora bem torço o gargalo mas o mal está feito. Cá em casa, beber a meias quer dizer meia caixa para cada um. Esquecer-me de comprar a lenha, é como o outro, vá que não vá, agora ficar sem pinguita em casa, chiça, isso sim, é que era assinar a minha sentença de morte.

Estou tão quentinho que, dada a quadra festiva, até me arriscava a acabar a crónica em verso mas, ou é o danado do teclado do computador que não pára quieto ou então são os meus dedos que não acertam com as teclas certas para fazer as rimas. A luz do candeeiro também não ajuda. É pena, porque sinto que hoje me corre nas veias parte do mesmo combustível criativo que fez de Bocage um grande poeta.

Assim sendo, vou continuar com a minha prosa, fraquinha, tadita, culpa desse amigo que fez o favor de me tentar com aquela pomada. Sim, não fosse ele e eu até era gajo para conseguir escrever alguma coisa de jeito em vez de estar para aqui, aos esses, a fazer estas figuras tristes. Se a entidade reguladora de comunicação social condenar o director do jornal por permitir a publicação de textos escritos sob a influência de vapores etílicos, vou-me a ele, a esse amigo, como um dragão a um leão.

Pensando melhor, acho que vou acabar por aqui, os meu olhos já estão qualquer coisa alhudos, como diz o Telmo (um palavrão que começa por ´p´ e que a minha esmerada educação não permite escrever), a noite já vai longa, amanhã tenho que me levantar cedo, por volta do meio-dia, tomar uns sais de frutos e preparar a vasilha para mais uma noite de farra. Espero acordar deitado na minha cama, o pijama vestido, sem dores de cabeça e com o fígado sossegado.

De gatas, vou para dentro, desejando a todos uma Feliz quadra Natalícia e umas boas entradas no próximo ano. Até já.

Saturday, December 16, 2006

Amores e desamores




Carolina abrandou o ritmo do passeio dominical a pé pela marginal da foz de modo a quase poder ver bem de frente o rosto do marido, ajeitou-lhe a gola do sobretudo, ergueu ligeiramente a cabeça, olhou-o nos olhos, esboçou um sorriso satisfeito e perguntou-lhe:
- Ó querido, se a primeira mulher que te cumprimentou, aquela morena de há bocado, é a amante do teu sócio e se a segunda, a bomba loira de mini-saia que te disse adeus é a tua, então estamos de parabéns, porque a nossa amante é, de longe, muito melhor do que a amante do Fagundes.

Pinochet morreu, já está enterrado e a vida de Fidel de Castro parece estar por um fio.
De entre as várias coisas que tinham em comum há uma que se destaca: ambos foram ditadores. Reza a lenda que Pinochet foi um ditador de “direita” e Fidel um ditador de “esquerda”.
Como bons ditadores, fosse porque fosse, mandaram prender, torturar e assassinar algumas dezenas de milhar de pessoas Ainda como bons ditadores que eram, roubaram os seus conterrâneos (e não só) tendo amealhado e dispersado fortunas que provavelmente ficarão por calcular.

Pinochet chegou ao poder, em 1973; por essa altura já Fidel era um veterano como primeiro-ministro, cargo que ocupou desde a revolução até 1976.

Os primeiros tempos de Pinochet terão também sido os mais brutais. Em poucos anos Pinochet privatizou quase tudo o que tinha sido nacionalizado por Allende, o homem que ele derrubou; porém, no inicio da década de oitenta, as más condições da economia forçam-no a reformar as suas próprias reformas, ficando parte dessa obra a cargo de um grupo de jovens economistas chilenos, conhecidos como os “Chicago boys” e muito influenciados pelas teorias de vários defensores da liberdade individual e da economia de mercado. No fim dessa década, um plebiscito negou-lhe um segundo mandato como presidente da república e, a pouco e pouco, foi perdendo peso e influência. O Chile já vai no terceiro presidente da república eleito por sufrágio universal desde o último mandato de Pinochet.

Em Cuba, com Fidel doente, dizem as más-línguas que tudo se mantém hoje como em 1973, nos tempos áureos da mãe Rússia. O estado, que é o patrão de todos os cubanos, continuará a depender das ajudas rotativas de outros países, para ir mantendo, racionada, a vida da sua gente. Poucos são os dados disponíveis sobre a economia da ilha embora sejam cada vez mais os turistas que a visitam.

Segundo um estudo, feito em conjunto pela fundação Heritage e pelo jornal americano Wall Street Journal, sobre o grau de desenvolvimento e liberdade na economia tendo por base o ano de 2004, o Chile ocupava a 14ª posição (integrando o grupo dos mais livres), Portugal a 30ª (grupo dos parcialmente livres) e Cuba a 150ª (grupo dos reprimidos). Apenas por curiosidade, o primeiro país europeu a aparecer na tabela é a Irlanda, na 3ª posição, os USA aparecem na 9ª, a Espanha na 33ª e a minha terra natal, o antigo Zaire, nem sequer tem cabidela para lá constar).
Nesse ano o Chile cresceu 6,1%, Cuba 2,9% e Portugal 1%.
Fidel é tão aclamado por esse mundo fora quanto Pinochet é odiado.
Como diria a Carolina, o meu ditador é, de longe, muito melhor do que o teu.

Fontes




No texto anterior escrevi sobre jornalistas, muitos dos quais, de braço estendido e dedo em riste, apontam, apoiam, criticam, publicitam, bajulam, insultam e, como os toureiros face aos touros feridos, finalmente de rastos e humilhados, saem tranquilos e superiores para a programada ovação à volta da arena.

Uma noticia falsa, publicada no Jornal de Tondela, com os seus, digamos, duzentos mil leitores (peço desculpa se estiver a pecar por defeito), não tem o mesmo impacto – diria eu – que uma falsa noticia publicada no New York Times (NYT) com os seus escassos quase dois milhões.

As notícias que o Jornal de Tondela publica sobre os acontecimentos, no Iraque profundo por exemplo, têm, quase de certeza, origem na mesma fonte que as dá ao NYT, fonte que dá pelo nome de AP (Associated Press) e que quase detém o monopólio da informação em certas áreas do globo, como é o caso do médio oriente.
Há umas três semanas, a secção iraquiana da AP noticiou, com base no relato de um capitão da polícia local chamado Jamil Hussein, que algumas mesquitas tinham sido incendiadas e que seis sunitas tinham sido queimados vivos. Ouvi na SIC Noticias, na rádio Bagdad, na CNN, na BBC, na SKY e li em vários jornais americanos.

Face à falta das imagens de mais esta carnificina (as televisões árabes exibem os mortos e os feridos na mesma proporção que as nossas passam telenovelas em horário nobre), instalou-se a desconfiança entre certos sectores; feitas umas pesquisas, descobriu-se que o tal capitão da polícia, o senhor Jamil Hussein, tinha sido a fonte usada em 61 notícias dadas pela AP nos últimos dois anos. Contactados o Ministério do Interior do Iraque e o comando das forças americanas para mais detalhes sobre os ataques às mesquitas e o assassínio daquelas seis pessoas, chegou-se à situação actual: na área e datas indicadas, há registo do ataque a uma mesquita, nada sobre pessoas queimadas e a informação de que na polícia iraquiana, não há, nem houve, o registo de um capitão com o nome da fonte usada pela AP.

Este episódio segue-se a um anterior, a prisão, há cinco meses atrás, de um repórter local da AP, engavetado por ligações à organização terrorista Al-Qaida e a outros grupos corais congéneres, mas ainda não formalmente acusado.

Não estando em causa a gravidade da situação na zona o que se pede à AP é simples: que mostre o tal capitão, que o apresente ao público que por ele é “informado” através da AP e dos órgãos de comunicação social pelo mundo fora, umas fotografias dos acontecimentos tal como relatados. Se tal não for feito, é legitimo concluir que, pelo menos, parte da notícia é falsa, que a fonte usada, 61 vezes, não existe

A isto e até hoje, a AP disse: nada! Reconfirma a sua história, agora sustentada em mais três testemunhas – anónimas, claro – e jura pelas alminhas que a sua fonte é credível.

Mas se a malta não vir o famoso capitão, não será legitimo concluir que ele não existe? E, não existindo, quantas notícias vindas da AP são falseadas? Muitas, poucas, nenhumas, algumas, todas? E porquê falseadas? E, já agora, as notícias falseadas, será que beneficiam sempre os mesmos “ideais”? E acharão os leitores do Jornal de Tondela que este continue a mantê-la como fonte privilegiada?

Tuesday, December 05, 2006

Surpresas


A RR (rádio Renascença), decidiu, na semana passada, dar a conhecer aos seus ouvintes e aos portugueses em geral, a sua posição editorial em relação ao referendo sobre o aborto, tomando a defesa do “não”.

Poucas horas depois, foi publicada, em vários órgãos de comunicação social, a fotografia de um grupo, jogadores do clube doentológico do sindicato dos jornalistas, acabados de chegar de um torneio de bisca lambida realizado em Saturno. Pensei que os queixos caídos e as calças na mão simbolizavam a coça que tinham levado na bisca ou necessidades ainda não satisfeitas em fim de tão longa viagem mas, lida a legenda, percebi que estava errado.

Pela voz de um dos seus elementos soube que estes seres estavam surpreendidos pelo facto da direcção de uma empresa privada de comunicação social ter tido a lata, o despudor de, publicamente, assumir uma posição e mandar às urtigas a tão apregoada imparcialidade. Inadmissível, imperdoável e inimaginável nos bons velhos tempos da criação do dito clube!

Quem se ausenta, voluntariamente ou não, do planeta terra durante tanto tempo, fica sujeito a estas desagradáveis surpresas quando aterra. Lá, nas nuvens, talvez pela falta da gravidade, acredito que os extraterrestres vejam os jornalistas como eles gostavam que nós, terráqueos, os víssemos, ou seja, anjinhos com asas, pairando em círculos, subsistemas de segurança perfeitos e restritos, por sobre nós, os comuns dos mortais.

Seja por causa da redução da camada do ozono, por andar com uma crise de fígado ou pelo simples facto de ter aprendido a ler, há muito tempo que acredito tanto na imparcialidade dos jornalistas como acredito na fada madrinha.

Aliás, se eu não souber as opiniões do conjunto dos jornalistas que compõem uma rádio, um jornal ou uma televisão, como raio é que vou escolher a informação que prefiro ouvir, ler ou ver?

Imparcialidade sim, mas nos factos senhores, nos factos! E aqui é que a porca torce o rabo, porque como ainda há alguns monopólios na cobertura jornalística em certas regiões do planeta, certamente praticantes do tipo de imparcialidade abençoada pelo tal senhor porta-voz, são tão grandes os barretes que nos enfiam que nos tapam da cabeça aos pés.

Para quem tem a dupla sorte de saber ler em inglês e ter acesso rápido e fácil há muitos anos à Internet, esta decisão da RR não é novidade, porque, para os órgãos de comunicação social ingleses e americanos, informar os seus clientes das escolhas editoriais é o pão nosso de cada dia.

Resta-me uma dúvida: quanto tempo demoraria o dito representante do conselho doentológico do sindicato dos jornalistas a criticar a RR se esta fosse apoiar o “sim”?

Sunday, December 03, 2006

Desejos


Esta semana eu até tinha uma boa desculpa para me baldar e não escrever a minha crónica já que ando a servir de guia ao senhor que paga para eu produzir estas tretas mas, como sou um menino bem comportado, aqui estou eu, sentado à frente do computador, num domingo à tarde, a cumprir o meu dever. Há quase vinte anos que ele e a mulher vêm à capital, sempre nesta altura do ano, para comer pastéis de Belém. Estão viciados naquilo, na ficha clínica consta que a dependência remonta ao século passado, já tentei fazer-lhes uma desintoxicação à base de pezinhos de coentrada mas não resultou e as recaídas estão a ser cada vez mais penosas e, sinceramente, começo a perder a esperança.

Agora adoptei o que o tripeiros designam por “regime lisboeta” que é um novo tratamento à base de pequenos-almoços servidos entre as dez e meia e as onze da manhã, almoços muito ligeiros por volta das três da tarde – um pão pequeno com uma fatia, fininha, muito fininha de queijo ou fiambre – e á noite então lá os deixo ferrar o dente em qualquer coisa mais substancial, até porque, por essa altura, também eu já estou esganado de fome.

Podem fazer muitas críticas a este regime mas pelo menos cá no hospício são mais os malucos com ar de paus de virar tripas do que aqueles com ar de arredondado, daqueles que, com as mãozinhas, afagam a saliente barriga. Os que as afagam de baixo para cima são os banqueiros, os que as afagam de cima para baixo são os tansos.

Algumas más-línguas dizem que eu já sou um arredondado perfeito mas tal afirmação ainda não é verdadeira embora eu acredite que mais depressa cumprirei com todos os requisitos exigidos para tal do que o nosso governo com a promessa do défice nas contas públicas.

Dando como adquirido que lá chegarei em breve, informo que já escolhi a qual das duas categorias de arredondados eu quero pertencer: à dos banqueiros, obviamente!

Eu desejo, eu quero, eu aspiro a arredondar para cima. Se for para receber, bem entendido! Se for para pagar, saia uma desculpa com um arredondamento para baixo aqui para a mesa do canto, a vida está difícil, não posso dar mais e olhe, dê-se por muito contente por eu ainda lhe arredondar alguma coisinha. Contradição do caneco!

Aspirações contrárias às minhas, têm os mentirosos e os santinhos, indivíduos que dizem querer arredondar para baixo.

Se eu fosse um desses funcionários do hospício pagos para manter o indígena a afagar no sentido mais natural, de cima para baixo, além de vigiar bem os marmanjos da minha laia para evitar o género de abusos que eu sei que faria se me dessem rédea solta, prestaria também uma especial atenção aos mentirosos. Se os conseguisse distinguir dos santinhos.

Liberdades






Morreram, na semana passada, duas pessoas que eu admirei: o futebolista Puskas e o economista Milton Friedman.
Do primeiro as lembranças já são muito vagas, transportam-me a um tempo da minha vida que eu, então um puto na escola primária, não gosto muito de recordar, a minha infância era um inferno, estava infectado por um vírus que comandava toda a minha existência, um bicharoco terrível cujo nome cientifico era estrafego-te-aos-poucos benfiquismus e que curiosamente atacava mais aos domingos à tarde, punha-me os joelhos a tremer, um nó no estômago e as unhas nos dentes.

O húngaro Puskas era um dos fabulosos curandeiros nesse, já então, gigantesco Real Madrid; numa noite do ano de 62, ele quase me ia livrando do benfiquismus tendo-lhe acertado com três injecções na primeira das duas partes daquilo que se anunciara ir ser simplesmente um tratamento do tipo toma lá e embrulha; só que o treinador do vírus, também ele húngaro e portanto conhecedor das poções do compatriota, tinha um antídoto contra as mezinhas, um produto novo das africas chamado Eusébio, que lá conseguiu retardar a minha cura. Nessa noite ri-me à brava à custa do Puskas e pelo facto me penitencio.

Quando contactei com o segundo falecido já o meu intelecto estava crescidinho, tinha chegado à fase do “penso, logo sou do … porto”, estava portanto curado de tudo o que era má influência da cor vermelha, algo que o próprio senhor Friedman, prémio Nobel da Economia em 1976, ajudou a reforçar e a cimentar.

Este senhor, um gigante dos nossos tempos, insultado pelo comunismo e pelos adeptos dos governos paternalistas, deixou-nos um legado extraordinário através de ideais que realçam o tremendo respeito pelo indivíduo e pelos enormes benefícios que se obtêm quando somos “livres de escolher”. Com estas três palavras se pode resumir o seu legado. Conselheiro de muitos governantes desde o fim da primeira guerra mundial foi com Ronald Reagan e com Margaret Tatcher que o mundo mais se familiarizou com as suas ideias.

Na sua maneira simples de explicar a economia, dizia ele que eu posso gastar o dinheiro de quatro maneiras diferentes:
- Posso gastar o meu próprio dinheiro em mim mesmo. Se o gastar assim, então terei o máximo cuidado com o que faço e tentarei receber o máximo de retorno por ele;
- Posso gastar o meu dinheiro com outra pessoa, num presente de aniversário de alguém, por exemplo. Nesse caso, a minha maior preocupação não será com a qualidade da prenda mas com o seu custo;
- Posso gastar o dinheiro de outra pessoa comigo. Se eu estiver a gastar o dinheiro de alguém comigo, podem apostar que vou ter um belo e bem regado almoço;
- Por ultimo, posso gastar o dinheiro de alguém noutra pessoa qualquer. Neste caso, não só não me vou preocupar com quanto gasto como também não me vou preocupar com o que obtenho em troca.

Será assim tão difícil perceber que quanto menor for o peso do (des)governo, melhor será a vida de cada um de nós?

Wednesday, November 15, 2006

Pragas

Como a tradição ainda é o que era, o São Martinho não se esqueceu e lá trouxe o verão para passar uns dias connosco. Poucos, porque o sol quentinho faz muita falta lá no seu posto de trabalho, o patrão diz que a sua presença no sitio certo é absolutamente essencial para o bom funcionamento das suas empresas e para o bem estar dos empregados que habitam na sucursal do planeta terra e que ele não pode andar a mudar de lugar de cada vez que a malta da secção portuguesa decide que vai à adega provar o vinho e se põe a comer castanhas para ensopar.

E que falta que me faz nos dias de hoje conseguir ensopar bem o efeito dos tintois que vou emborcando porque se por um acaso do destino eu for a conduzir e me mandarem parar para me obrigarem a encher uns balões e o meu bafo estiver, por assim dizer, com defeito por excesso, estou bem tramado e sabe-se lá que tipo de caldinho é que me vão dar como castigo e para ver se me emendo. Às tantas sai-me ou um caldo verde ou, pior ainda, um caldo vermelho, de cenoura ralada e quem fica raladinho e passado sou eu.

Caldinho com legumes, qualquer que seja a cor, deixem-me que vos diga é coisa má, coisa ruim, até se me arrepelam os pelos da nuca.
Um amigo meu, ou melhor, um senhor que eu mal conheço e que por acaso até nem sei que vive naquela espectacular vivenda branca em Cascais do lado esquerdo de quem vai para o Guincho, um dia ao almoço perguntou à mãe se a comida estava boa; a mãe, sem parar de comer disse-lhe: filho, não gosto nada dos teus amigos!
Então coma só os legumes, respondeu-lhe ele.

Com sinceridade, conseguem imaginar alguém capaz de manter no futuro, o mesmo tipo de relação que tinha no passado com os legumes? Eu, lamentavelmente, não consegui! Comecei a dar sopa na sopa e a olhar de esguelha para as saladas. Mas estou melhor e a prova disso é que esta é a primeira vez que consigo falar abertamente deste episódio em público sem chorar.

A minha mulher anda a tratar dos meus filhos porque, diz ela, o meu comportamento vai tendo um efeito nefasto na educação deles e eles estão numa idade em que ainda podem ser salvos. Tem andado com paninhos quentes e, sempre que pode, disfarça as leguminosas para ver se nós não topamos o que estamos a comer.
Em desespero de causa e como quem roga uma praga, avisou-nos de que ou comemos a sopinha toda e todo o tipo de legumes e saladinhas ou obriga-nos a ler os livros do Saramago.

Para já, diz ela, são só os livros. Se não resultar, passamos para as entrevistas que ele deu, começando pelas mais recentes.
Os miúdos, à rasca, andam a ver se a convencem de que a alface que vem com os hambúrgueres do macdonaldo é verdadeira; eu, após consultar vários especialistas já decidi: daqui para a frente vou comer legumes todos os dias.

Monday, November 06, 2006

Ressacas





Se continuar a chover pelas minhas bandas como choveu ontem à noite (domingo), em breve devo estar a escrever do Porto Santo ou do Funchal, dois lugares aonde eu acho que só mesmo uma enxurrada me pode levar, o mesmo é dizer que muito provavelmente só por via marítima é que me por lá apanham, por via aérea está quieto ó melro.

Não é que eu tenha medo de voar, não senhor, antes pelo contrário, eu entro num avião e fico logo ferradinho a dormir ainda antes dele levantar voo; claro está que quem me leva por companhia é que não aprecia nada este comportamento mas é superior a mim e eu não resisto. De resto, é só vantagens: as viagens parecem mais curtas e nunca como as mixórdias que as companhias aéreas servem disfarçadas de comida.

Mas, voar para a Madeira? Nã, não é com certeza o irmão mais novo do filho mais velho dos meus pais que o vai fazer! Meteu-se-me de tal maneira na cachimónia que se entrar num avião com destino àquelas paragens acabo estampado, derretido e misturado com o alcatrão da pista do aeroporto que nem podre de bêbado me conseguem fazer embarcar.
Perdi a conta aos nomes que já me chamaram, todos eles – evidentemente – bastante elogiosos para a minha pessoa mas tenho aguentado todos os enxovalhos sem vacilar porque sou tão casmurro quanto irracional.

Se este meu medo é irracional, o que é que se há-de chamar à decisão do senhor Presidente da Câmara do Porto, Doutor Rui Rio, de acabar com os subsídios pecuniários a fundo perdido, a partir do próximo ano, exceptuando aqueles destinados às Juntas de Freguesia e às empresas associadas da Câmara para acabar com “o preocupante fenómeno de desajustada subsidio dependência”? Irreflectido, impensado, irracional? Não – diz ele – é tempo de acabar com esta cultura de mão estendida para os orçamentos públicos.

Acabar com a quê? Repita lá, se faz favor? Não devo ter ouvido bem! Ah, e ainda por cima quer que esse seu gesto seja também um sinal para as outras autarquias? Ai, ai, ai, mas o que é que o senhor anda a tomar?

Quer o senhor dizer que a partir do ano que vem, se eu quiser ir ver uma peça daquele teatro dito alternativo, o bilhete me vai custar quase tanto como um bom bife de lombo e uma garrafa de Esporão? Ou, posta a coisa de outro modo, acabam-se os bilhetes ao preço da sandes de coirato e do copo de três?
O quê, sujar-me todo para ir ver uma “instalação artística” ao estaleiro de uma empresa de construção civil quando, se houvesse um.. um… bem, o senhor sabe o que é que eu quero dizer, eu podia ir ver a mesma coisa, calçadito nos meus sapatinhos de pele de crocodilo, a um museu ou a uma fundação?

Homem, não é por nada, mas palpita-me que por sua causa vai andar muita gente ressacada.

Monday, October 30, 2006

GATAS







Afável, elegante, simpático, vivo e digno de ser citado. Precisamente o género de epítetos que se fixam na mente de um jornalista! É assim que o senhor Nick Bryant, correspondente da BBC em Sidney (Austrália) vê o autor do discurso que, parcialmente, transcrevo nesta minha crónica e que, segundo me dizem, é o mais alto líder islâmico naquele continente, que dá pelo nome de Sheik Hilaly e que se pronunciava sobre a sentença aplicada a muçulmanos acusados de violação de mulheres:

“…Quando se trata de adultério, 90 por cento das vezes a culpa é das mulheres. Porquê? Porque a mulher tem a arma da sedução. É ela que despe as suas roupas, que as encurta, que põe maquilhagem e que vai para as ruas, Deus nos proteja, namoriscar… Depois, um olhar, um sorriso, uma conversa, um cumprimentos, um encontro, um crime e depois a prisão. Então, enfrentas um juiz, sem piedade, e ele dá-te 65 anos de cadeia.
Mas, quem começou este desastre? Nos seus textos, o escritor al-Rafee diz que se fosse confrontado com um crime de violação, disciplinaria o homem e dava prisão perpétua à mulher. Porquê? Porque se ela não deixasse a carne descoberta o gato não a teria arrebanhado. Se tiveres um quilo de carne e se a deixas num prato no pátio das traseiras em vez de a guardares no frigorifico, na panela ou na cozinha e tiveres uma luta com o teu vizinho porque o gato dele comeu a tua carne, tu és maluco. Não é isto verdade?
Se levas carne e a pões na rua, no pavimento, num jardim, num parque, sem a tapares e vier o gato e a comer, então de quem é a culpa, do gato ou da carne que estava à mostra? A carne destapada é um desastre. Se a carne estivesse dentro do frigorífico o gato ia andar às voltas, às voltas até desistir e ia para casa sem a comer.
Se a mulher estiver no seu quarto, na sua casa a usar o véu e a ser casta, os desastres não acontecem. As mulheres têm a arma da sedução e da tentação.
É por isso que o diabo diz das mulheres: vocês são metade de um soldado. Vocês são o meu mensageiro para eu atingir os meus fins. Vocês são o último recurso que uso para esmagar a cabeça do homem mais esperto e teimoso. Eu uso alguns homens para certas coisas, mas eles nunca me escutam. Mas vocês? Oh, vocês são a minha melhor arma.”

Meninas, portuguesas e não só, cuidem-se e revejam a história medieval. Além da BBC ser uma “tremenda referência” para os meios de comunicação social ocidentais quando se trata de educar as massas e vender certas realidades, convém não esquecer que dentro de uma ou duas dúzias de anos a nossa população vai ter muitos velhos e poucos novos e que, nas nossas fronteiras, vão continuar a estar os mesmos países do norte de África e do Médio Oriente, carregadinhos com milhões de jovens desempregados, fieis seguidores do afável, elegante, simpático e vivo Sheik Halily; sem esquecer os fiéis seguidores que já temos dentro de portas, como os irrequietos (subsidio dependentes) jovens franceses de origem magrebina que, felizmente, agora andam bem mais calmos e já só têm queimado cerca de duzentos carros por dia, incendiado uma meia dúzia de autocarros e atacado os policias em barda e em força (nada que mereça ser devidamente noticiado, nem na BBC nem noutros órgãos mais perto de nós, não se preocupem). Nessa altura os americanos, fartos de nos aturar e mais interessados noutras zonas do mundo, vão-vos mandar bugiar.

Até lá, sejam felizes e … miau!

Tuesday, October 17, 2006

Empréstimos, juros e Paz?





Não é que os marmanjos da academia sueca, aquela que atribui os prémios Nobel, ensandeceram de vez, passaram-se dos carretos e entregaram o da Paz a um ferrenho adepto do capitalismo e ao banco por si criado? A um desgraçado que preferiu passar a vida a lutar para arranjar dinheiro para os mais pobres dos pobres, não na forma de um subsidiozinho mínimo estatal garantido, tão do agrado que quem eu muito bem sei, mas através de empréstimos com a respectiva cobrança de juros? Pode lá ser? A economia que, através do risco e responsabilidade pessoal, visa o lucro, a ser galardoada com um prémio da paz?

O tresloucado, que dá pela graça de Mohammad Yunnus, começou, há cerca de trinta anos, a emprestar sem quaisquer garantias, pequenas quantias do seu próprio dinheiro a meia duzia de mulheres para que estas pudessem desenvolver negócios que as sustentassem, a elas e às suas famílias, permitindo ao mesmo tempo libertar fundos suficientes para reembolsar esses empréstimos. Como naquele país, o Bangladesh, que tem pouco mais do dobro do tamanho do nosso Portugal, clientes muito pobres não faltavam, o senhor Yunnus, para satisfazer a clientela, começou a moer o juízo aos bancos estatais e privados e, com muito engenho e muito mais persistência, lá acabou por criar um império de milhões de pequenos empresários e um grupo cujo rosto mais visível é o banco Grameen. Mas não é só ele que é louco; os seus clientes, mulheres na esmagadora maioria, em vez de se pirarem com a guita, lá vão trabalhando, desenvolvendo os negócios e pagando o capital e os juros.

Tivessem essas empresárias tempo livre e acesso a informação detalhada sobre a nossa sociedade actual e certamente já teriam pendurado o senhor Yunnus, de cabeça para baixo, no pau da roupa mais próximo. Com toda a razão, digo eu, pois se há centenas de milhar de almas lusas (mais as francesas, as espanholas, as alemãs, mais as outras europeias) a receberem, por mês e garantidinhos, uns trocos a troco de nada e a nada terem que dar em troca – excepto talvez uns votos de quando em vez – porque carga de água hão-de aquelas pobres desgraçadas, já de si (ainda) com poucos direitos cívicos numa sociedade ainda demasiado machista, terem que trabalhar que nem loucas para terem um sustento?

Acho bem que não se exagere na publicidade a este conceito capitalista, não vá perder-se o nosso modo de vida que é a esmolinha de caridade aos pobrezinhos, coitadinhos, eles nem sequer saberiam o que fazer se tivessem acesso ao dinheiro, os senhores intelectuais doutores é que sabem o que é melhor para eles, já pensaram bem, depois vinha o stress, a tensão alta, sabe-se lá se a independência, enfim, tudo problemas com que eles, os pobrezinhos, não iam, de certeza certezinha, saber lidar e por isso toca mas é a cuidar bem deles, anestesiando-os, vestindo-os e alimentando-os. Mal mas de boa vontade.
E se todas estas bondosas boas acções mesmo assim não forem suficientes para os manter quietos e anestesiados, inventam-se e implementam-se mais umas quantas normas, regulações e obrigações e outros tantos e pesados impostos. Assim, se alguém tiver peneiras e quiser sair da alçada do estado providência, ou consegue engendrar uma actividade que dê lhe lucro suficiente para sustentar a sua família e mais a família de dois ou três funcionários estatais ou então, o que é mais certo, arruma logo as botas e vai vivendo vegetando ou vegetando vivendo.

Diz o novo Nobel da Paz que caridade não, que a caridade não dignifica o ser humano. Mas o homem é doido ou quê?

Thursday, August 31, 2006

Contos de fadas (Jornal de Tondela)

“Aqueles que ao desembarcar temem enfrentar uma polícia de fronteiras carrancuda e formalidades burocráticas demoradas têm a primeira surpresa. Tudo é mais fácil do que na Europa de Schengen . No aeroporto carimbaram o passaporte sem olhar para mim … Pela primeira vez na vida, ao utilizar voos domésticos não me pediram documentos de identificação. …”.
“Pedi ao guia que me levasse a bairros degradados. Ele não entendeu, inicialmente, o que pretendia. Quando visitámos depois áreas da periferia densamente povoadas percebi o motivo da sua perplexidade. Eram bairros de moradores pobres, de ruas estreitas, mas asfaltadas, com abastecimento de luz, água e gás… O inesperado chegou também da visita aos bairros residenciais da classe dominante. O luxo e a riqueza não são ali menos ostensivos do que nas grandes capitais … milionários excêntricos escolheram terraços de alguns arranha-céus para instalar mansões, jardins e até piscinas em ambientes paradisíacos”.
“A resistência das mulheres às leis que lhes limitam os direitos – alguma ridículas como a proibição de assistirem nos estádios aos jogos de futebol, mesmo em bancada especial – é ostensiva…Confirmei que as mulheres … sobretudo têm uns olhos enormes, levemente oblongos, com uma luminosidade que lhes realça a beleza e a brancura da sua pele… a minha companheira de viagem entrou na sala sagrada do belo mausoléu … por uma porta diferente da minha. As filas não se cruzavam – as mulheres, registei, perdiam a serenidade ao desfilarem perante o sarcófago de prata de Fátima … disseram-me que não faziam promessas. As jovens pediam beleza, fecundidade, amor. As idosas gemiam e lançavam apelos.”

Todas estas frases foram extraídas de um mesmo texto. Longo. Ainda incompleto, no original.
Não é a descrição da minha última visita ao Tourigo, civilização onde, foi-me assegurado por fontes anónimas mas altamente conhecedoras, ainda é permitida a assistência de mulheres – desarmadas – aos jogos de futebol; as mesmas fontes asseguraram-me aliás que, na eminência de aí se voltar a praticar a dita modalidade, a junta de freguesia local tem já em estudo um projecto de lei que, embora não proibindo a sua presença – delas, das mulheres – as obriga a levar um lenço bem amarado à volta da boca (até ao momento do fecho desta edição ainda não foi possível chegar à fala com o respectivo presidente por, alegadamente, ele ter mais que fazer do que andar a responder a boatos).
Tão pouco reflectem as minhas precauções, a nível de documentos, sempre que atravesso a freguesia do Barreiro. Não é do Inimigo Publico, a secção humorística do jornal O Publico. Não é uma cópia parcial de nenhum dos escritos dos autores do gato fedorento. Não é de um texto da autoria do Badaró, do Herman José, da Lili Caneças ou do doutor Alberto João Jardim. Nem tão pouco do frei Anacleto.
Talvez, quem sabe, seja um teste à minha inteligência, à minha capacidade para pensar as coisas. Talvez faça parte de algum estudo sobre o grau de alfabetização do nosso povo. Talvez eu esteja a delirar, cheio de febre.

O texto, publicado no Avante, é da autoria de Urbano Tavares Rodrigues, jubilado como Professor Catedrático da Faculdade de letras de Lisboa Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, sobre uma sua visita, recente, ao idílico Irão.