Tuesday, March 27, 2007

Decisões



Quando era puto, naquela idade em que podia dar-me ao luxo de me chatear por causa dos berlindes, da macaca, do futebol ou dos resultados dos concursos, apanhava uns valentes cagaços sempre que me punham ao comando do carro das vacas, nas excursões matinais que então fazíamos aos pinhais, cujo objectivo era roçar o mato em vez de o fazer nas paredes.

O bafo delas ficava ao nível da minha nuca, de modos que, de cada vez que eu era obrigado a olhar para trás, borrava-me todo, com a enormidade daquelas bestas e das suas respectivas hastes. O som dos cascos a martelarem o alcatrão ajudava ainda mais à festa e eu sempre à espera que uma delas escorregasse e me deixassem no mesmo estado em que ficavam as suas bostas. Creio que uma delas se chamava “castanha” e a outra “não-sei-quantas”.

Um dia, estava eu na casa de banho, ouvi-as a conversar e quando finalmente consegui ligar o tradutor automático já só consegui ouvir a “não-sei-quantas” a dizer: “Ainda bem que amanhã já é segunda-feira e vamos andar com a canga!” A castanha, bufou desconsoladamente e, sacudindo sete moscas com a cauda, respondeu-lhe: “Tu não regulas bem dos cornos, pois não?”

Lembrei-me deste episódio durante uma conversa que tive, este fim-de-semana, com um amigo meu que mora no Allgarve (senhor director, peço-lhe o obséquio de não corrigir porque agora é assim que se escreve. Juro!), mais precisamente em Vila Real de Sto António.
Faminto de notícias da sua terra, mal me apanhou sozinho, fez de mim o seu telejornal. Contei-lhe todas as novidades mas dei um especial destaque à (pequena) proposta de redução de alguns impostos, feita pelo líder do partido social-democrata e das reacções contra que provocou, mesmo dentro do seu próprio partido. Embalado, despejei-lhe a minha lengalenga, estes gajos são todos iguais, aumentam os impostos com o argumento da justiça social, depois é só descobrir as carecas, reformas milionárias aos quarenta e pouco anos, salários fabulosos em empresas municipais, cargos e custos fictícios, o costume, tudo à nossa custa!

Armado em esperto, sacudiu da camisa a cinza do charuto e estucou-me: “Queres pagar menos impostos, pagar o IVA a 16%, a gasolina a 0,98 cêntimos e outras mordomias? Então muda-te! Vai viver para a fronteira! Em vez de refilares, muda-te!”

Mudar de vida foi também o que quis uma marroquina a viver na Alemanha, ao apresentar em tribunal um pedido de divórcio, com base nos maus-tratos infligidos pelo marido.
Uma juíza, alemã, cidadã de um dos estados que há cinquenta anos ajudou a fundar a nossa comunidade, negou-lhe essa possibilidade porque, de acordo com a sua douta sentença, na religião islâmica, bater nas marmanjas, é um direito que assiste aos homens.

Mudar-me para a fronteira? Mas qual?

Thursday, March 22, 2007

Calores




Quem diria que, depois de um belo e solarengo fim-de-semana primaveril, a semana ia começar com tanto vento e com um frio de rachar? Ainda por cima, como hoje é dia do Pai, eu já me estava a babar todo só de pensar que ia poder baldar-me ao trabalho e ir apanhar sol para a praia, os meus filhos que dobrassem a mola por mim; agora, se quiser ir, terei que carregar com o estafermo do edredão e do saco cama e, quer-me parecer, até com o guarda-chuva. Não vale o esforço!
Março marçagão, de manhã és porreiro, à tarde és um grande … maganão! É assim o ditado, não é?

Enquanto que pelas terras de besteiros eu andava a levar uma coça no jogo da malha, batido sem apelo nem agravo por um casal de idosos – com idade para serem meus Pais – dois seres sem escrúpulos, batoteiros e manhosos (fingem que lhes custa muito a dobrar a espinha e as pernas para apanhar aquelas coisas redondas e depois, pimba, é sempre a mandar o meco abaixo), aqui na capital, a autoridade policial também andou a levar pela medida grande, embora neste caso os malhadores fossem ganapos. Para a câmara e microfones da SIC, putos de ambos os sexos, com aparência de andarem aí pelos dez anos, juraram, que “agora é que os matamos a todos, cá no bairro eles não mandam nada”. Para o canal televisivo que é meu, teu e dele, os distúrbios, ocorreram num local que é um “mosaico multicultural” embora a censura tenha impedido as crianças de darem voz ás suas promessas de justiça. Se um mosaico bate assim …

Miúdos, um pouco mais velhos do que os do degradado bairro, pertencentes ao mesmo agrupamento politico, alguns deles até com direito a sentarem o dito cujo no nosso parlamento e, ao que consta, com um pouco mais de educação, terão estado a um passo da galheta geral. Relatos vários, falam em prolongada, intensa e interessante troca de galhardetes verbais, levando à prática os ensinamentos adquiridos em tempo de eleições com as passagens das suas caravanas pelos mercados de peixe. A batatada, técnica que apenas se consegue adquirir nas feiras, terá ficado para outros episódios.

Um eterno ex-miúdo, que anda por aí, associado do partido a que ainda pertence o deputado Jorge Neto, ameaçou-nos, em entrevista televisiva, em bicos de pés e ar sério, de que, por ele, podemos ter que contar com ele. Outra vez!

Todos estes acontecimentos foram, ou são, maus para a minha saúde física e mental. Se a eles juntar o trambolhão que aconteceu no sábado à noite em pleno estádio do dragão, o resultado é uma “Tello” do caraças!

Se os primeiros calores tiveram este efeito, nem quero pensar no que vai ser o verão!

Assédios e cultura


Photo by Rachel Papo

Não admira que haja tanta malta a malhar nos israelitas! Até eu começo a pensar que os tipos andam mesmo a pedi-las. Depois de anos de esforços, notoriamente antidemocráticos e anti civilizacionais, lá conseguiram fazer aprovar uma lei que protege e defende as jovens adolescentes, obrigadas a cumprir vinte meses de serviço militar, dos actos de assédio e de violação sexual praticados pelos homens, em particular pelos seus superiores hierárquicos. É lá coisa que se faça naquela parte do mundo? Em qualquer parte do mundo não ocidental?

Isto é o resultado desta nossa velha e estúpida mania de queremos impor os nossos valores e os nossos costumes a outras civilizações, humilhando-as e despindo-as dos seus próprios valores, valores que vêm de há séculos e que, não sei bem para quê, há que preservar. Gajas? Mulheres? Ó pá, não se metam nisso, tratem de manter as vossas destapadas (ih-ih-ih-ih-ih, nham…nham!) que das nossas cuidamos nós, afiambramos-lhes uns tabefes e umas violações de quando em vez, só para não perder o jeito. E, para não dar cabo da mercadoria muito depressa, deixem-nos lá ter umas quantas mais em stock, mesmo que a malta viva aí ao pé do vosso museu do Louvre. Multi qualquer coisa, como vocês tão bem dizem!

Não acho que seja coscuvilhice esta mania de nos intrometermos nos costumes dos outros; não senhor, isto é muito mais grave: é colonialismo! Do puro e do duro! E, como todos muito bem sabemos, abaixo com ele! Que dizer do nosso Infante, candidato ao posto de o maior português de todos os tempos, pioneiro na globalização deste colonialismo cultural? Bandalho! Porco colonialista! Vai para casa, ou como se diz em esperanto, a língua universal, go home mr Bush!

Não admira que o emplastro do Irão e os seus muchachos, entre outras brilhantes ideias, andem por aí alegremente a querer riscar Israel do mapa. Acho bem! Sentado, espero que os activistas do costume encham as ruas das ocidentais cidades e que partam, em manifestações nunca antes organizadas, em protesto contra mais este abuso dos direitos dos pobres violadores de mulheres e em defesa do tal multi não sei das quantas. Como já estão treinados, os primeiros a ir, podem ser aqueles pacíficos dinamarqueses que, há dias, resistiram heroicamente ao despejo – legal, hélas! – de um centro de juventude “alternativo” (não sei se é conotação com a palavra alterne ou com a arte do toureio a cavalo).

Atenção, quando eu digo que, sentado, espero que partam, não estou a querer sugerir que peguem na trouxa e que viajam para se manifestarem em sítios tão horrorosos como o Irão ou a Arábia Saudita. Não, isso não! Eu ia partir o meu coco a rir e vocês, é bom de ver, também iam partir o vosso. Consta que os camaradas de lá são gajos para não ligar peva aos vossos direitos humanos. Especificidades culturais!

Partam, no sentido de quebrar, destruir, como é o vosso pacífico hábito, uma pipa de montras, carros e outros objectos, só para mostrar a esses porcos capitalistas ocidentais, proprietários desses símbolos da exploração do homem pelo homem, como é triste e vergonhosa a vida deles em comparação com a vossa – dura, excitante e perigosíssima.

Monday, March 05, 2007

Muralha de aço




O ministro afirmou, com ar sério, que o Estado não tinha dado nenhumas instruções à CGD para que esta votasse contra a desblindagem dos estatutos da PT (Portugal Telecom). O André Agassi apesar de ser um dos melhores tenistas do mundo ainda não me conseguiu ganhar uma única partida. Eu também não estou a mentir!

A verdade do senhor ministro está escarrapachada no efusivo abraço entre o anónimo barbudo sindicalista e o magnata capitalista Joe Berardo, abraço amplamente difundido pelas televisões e que aconteceu antes da reunião da assembleia-geral da empresa de telecomunicações onde se discutia, na minha modestíssima opinião, muito mais do que o rumo da Opa feita pela família Azevedo (lembre-se que, há anos, o patriarca da família, o Eng.º Belmiro, porque os senhores deputados exigiam ouvi-lo sobre determinada matéria, os obrigou a levantar mais cedo e a abrir o tasco muito antes da hora habitual).

Aquele abraço ternurento explica muitas das razões para o nosso eterno atraso. Curioso como algumas das maiores fortunas deste país, donos de grandes empresas privadas, acabam por nos mostrar, em momentos decisivos, como afinal, ou lhes convém, ou então não conseguem mesmo viver/sobreviver sem a estado-dependência. O Joe, um conhecido especulador bolsista e hoje o mais mediático empresário do regime, concluiu há meses, um excelente negócio de arte com o poder central.

Ao senhor ministro, ao sindicalista e ao empresário capitalista falta juntar um senhor socialista bancário (ou um bancário socialista) e um senhor deputado do PSD para ficarmos com os ingredientes principais do cozinhado que, em lume brando, foi preparado e servido aos comensais.

Surpreendeu-me mais o senhor deputado! Eleito pelas listas de um partido que apregoa a defesa da iniciativa privada e a necessidade de reduzir o peso do estado na vida dos portugueses, quando chamado a comprovar na prática a sua ideologia, foi incapaz de fugir ao faz o que eu digo, não faças o que eu faço! Teve medo do mercado livre! Votou ao lado dos privilégios pela manutenção dos mesmos! Senhor deputado: qualquer pequeno accionista, que o senhor disse representar, que não quisesse vender, não vendia!

No fundo, estes artistas acagaçaram-se e recearam que, valendo cada acção um voto (assim como cada homem vale um voto nas eleições que elegeram o senhor deputado do PSD), as tetas da PT pudessem ser substancialmente reduzidas, contagiando as tetas das outras empresas privatizadas criando uma razia nos chupistas e enfraquecendo a capacidade de distribuição de tetinas para uma saudável manutenção do fluxo do liquido mordómico.

Ao senhor ministro, ao senhor sindicalista, ao senhor magnata capitalista do regime e ao senhor socialista bancário (ou bancário socialista) eu já topava de ginjeira; quanto ao senhor deputado do PSD, já andava desconfiado. Agora fiquei com a certeza!
Cá no burgo, ser liberal (no sentido europeu do termo) é obra! Estamos blindados! E mal pagos!

Sunday, February 25, 2007

Semelhanças




O homem de cabeleira farta e loira que está a falar, personalidade famosa e o criador da conhecida marca Virgin, tem um ar pesaroso. Atrás dele, no meio da paisagem rural, onde o verde predomina, vêm-se uma série de carruagens tombadas, peças de um comboio que descarrilou. Quando o acidente aconteceu a sua velocidade era de 150Kms por hora e, de acordo com informações preliminares já apuradas, o maquinista, ex-polícia e uma das 5 vítimas em estado grave, já tinha conseguido reduzi-la um pouco. Vistas do exterior as carruagens do Pendolino – composição fabricada com avançada e dispendiosa tecnologia – parecem intactas. Há, para já, a lamentar a morte de uma senhora de oitenta e quatro anos. São desconhecidas as causas mas parece que terá a ver com problemas nos carris. Um técnico, funcionário da empresa pública de manutenção das linhas está no local, a conduzir o inquérito.

O homem que está a falar, é o dono da empresa proprietária do comboio, uma empresa privada de caminhos-de-ferro inglesa, a Virgin Railways. Além de aventureiro, é tido como um empresário preocupado em investir, dinheiros privados, em tecnologia e conceitos que permitem gerar bons lucros a vender barato, produtos que outros vendem mais caro e com muito menos investimento: dos discos, às telecomunicações, às viagens aéreas, etc. A filosofia do seu grupo é analisar os sectores e investir onde acha que a competição é fraca e os serviços caros e maus. Uma das paixões do homem é o espaço; fundou a Virgin Galactic, empresa que, para ele, marca o início de uma nova era na comercialização barata das viagens espaciais. Apesar do primeiro voo estar programado para 2009, ele diz que não tem pressa, o dinheiro lá investido é dele, não tem ninguém a exigir-lhe prazos, não está numa corrida.
Veio porque achou que os passageiros e os seus familiares quereriam ver no local o dono da composição acidentada, tal como ele quereria se fosse algum dos seus filhos a viajar naquele comboio e ele não fosse o seu proprietário.
Chama-se Richard Branson e veio dar a cara!

Joaquim Barbosa é engenheiro e trabalha na área de sinalização da Refer, empresa publica que gere a rede ferroviária nacional.
Em meados de 2004 recebeu 120 mil euros (24 mil contos) de indemnização para rescindir o seu contrato de trabalho, quando o seu salário rondava os 5 mil euros (mil contos) por mês. No final desse mesmo ano de 2004, é contratado pela mesma empresa, a Refer, para dar assessoria ao novo conselho de administração. A ganhar à volta de 6 mil euros (mil e duzentos contos) por cada mês.
Eu, que ando a adiantar dinheiro meu, ao meu estado, por conta dos meus impostos e que fiquei ferido e a esvair-me em dinheiro com este acidente, apreciava os seguintes esclarecimentos:
Quantos Joaquim Barbosa estão registados na nossa base de dados, na base de dados do meu estado? Quanto é que nós vamos pedir de indemnização ao senhor Barbosa e aos senhores administradores da Refer por este descarrilamento? Foi só mesmo este? Quem é que nós vamos ter que despedir? Parte do dinheiro que nos vai – de certeza absoluta – ser devolvido por esses senhores pode servir para me devolver parte dos meus adiantamentos?
Aguardo que o dono da Refer apareça. A dar a cara

Saturday, February 24, 2007

Leituras





A direcção do DN – jornal que deixei de comprar desde que ela foi eleita – foi demitida na semana passada por um dos manos Oliveira, actuais proprietários do jornal. Não foi por minha causa! Eu, que nem o meu escasso cabelo consigo dominar, não ia agora que ia pôr-me em bicos de pés armado ao pingarelho; quando era rapazola e ainda tinha uma farta e encaracolada cabeleira, para tentar mantê-lo liso, domesticado e apresentável para um qualquer bailarico, molhava-o e atava uma toalha à volta da cabeça até secar – dai ter ficado com o cérebro assim, meio morto e congelado.
Mas fiquei contente por saber que fomos muitos a virar as costas a um jornal há muito dominado por jornalistas que são a escrita dos seus donos.

Na Venezuela, o bonacheirão ditador local lá vai aumentando a pressão á volta do pescoço dos seus concidadãos; com os preços dos produtos tabelados, uma inflação galopante e a desvalorização da moeda local, os proprietários de supermercados que retiraram os produtos das prateleiras, para não os venderem com prejuízo, ou os que os estão a vender acima da tabela foram ameaçados com o roubo, perdão, a nacionalização das suas lojas.
Entretanto vai vendendo petróleo abaixo do seu preço aos pobres americanos, através de organizações privadas americanas que, em compensação, passam anúncios televisivos elogiando o seu gesto benemérito.

O troglodita que escraviza os norte coreanos não só conseguiu que o deixassem mexer no taco depositado nas contas bancárias que tem em Macau como também consegiu a promessa de receber petróleo e autorização para continuar a comprar os miminhos a que se habituou. Em troca? A promessa de mais uns mesitos de (suposto) bom comportamento.

Outra excelente proposta de um importante líder islâmico da Malásia: um cinto de castidade para as mulheres se protegerem dos depravados sexuais e para os maridos se sentirem mais seguros.
Como estas piadas hoje viajam à velocidade da luz, o senhor já veio dizer que, na realidade, estava a brincar, aquilo não era para levar a sério. Ainda!

Na Jordânia, um jovem universitário de 19 anos que matou a sua irmã de 22 quando soube que ela tinha uma relação amorosa fora do casamento, apesar de divorciada, saiu em liberdade, por já ter cumprido a pena de três meses a que foi condenado. O juiz decretou que o jovem cometeu o assassínio num acto de raiva, ao abrigo do artigo 98 do código penal. A sentença inicial foi de 6 meses, comutada para metade por a família ter desistido das queixas e por ele ser estudante.

De visita à Turquia, o presidente do Banco Mundial, o americano Paul Wolfowitz, tirou os sapatos para ir à Mesquita. Espanto geral e o embaraço particular: dois enormes buracos, um em cada uma das meias que o senhor presidente tinha calçadas (fotografias disponíveis em http://yalibnan.com/site/archives/2007/02/toetotally_emba.php). Sinto-me honrado por ter tão ilustre personalidade como companheiro de desgraças.

Monday, February 12, 2007

Manipulações





Cal é a coisa qual é ela que ainda agora falei nela?
Cal, claro!
O que é que antes de o ser já o era?
A pescada! Muito bem. Bravo!
Qual é o partido português que terá cem por cento – 100% – dos presidentes de câmara, eleitos pelas suas listas, constituídos arguidos?
Não, não é esse … também não … errado … está quase … bingo, esse mesmo, o Bloco de Esquerda, do tele-evangelista frei Louçã.

Cem por cento dos presidentes de câmara constituídos arguidos é obra, quer dizer são todos, não escapa um, apetece perguntar como diacho é que eles são escolhidos, ou quem é que os escolhe, para caírem assim todos, como tordos, na alçada da justiça?

Este número, cem por cento de autarcas alegadamente constituídos arguidos, terá sido atingido, de acordo com um órgão de comunicação social, na semana passada em Salvaterra de Magos. Após buscas feitas pela policia judiciária, a presidente da Câmara Municipal local, teria sido constituída arguida num processo que teve origem numa queixa apresentada pelo proprietário de uma casa de diversão nocturna (onde simultânea e alegadamente se ensina a escrever livros), que terá invocado perseguição pessoal acusando a autarca de, alegadamente, o impedir de exercer a sua actividade apesar de, alegadamente, estar na posse de todas as licenças e alvarás exigidos.

Em pequena, pequenina mesmo, nota de rodapé devo informar que a autarquia desmentiu prontamente a noticia afirmando “ainda ninguém, nem a senhora autarca, a própria autarquia, qualquer vereador ou funcionário foi constituído arguido”.

Se foi desmentido, porque é que eu vim para aqui com toda esta lengalenga? Porquê? Porque não resisti a utilizar os ensinamentos sabiamente pregados por frei Louçã, pelos seus apóstolos e por todos aqueles que vivem da exploração da primeira nódoa que, diariamente, notícias deturpadas ou falsas deixam gravadas sobre muito gente desgraçada. Eu, pecador, me confesso por ter cedido á manipulação fácil das notícias veiculadas e dos números!

Falando em manipulação de números, através de um dos meus programas de televisão favoritos, chamado a Liga dos Últimos (RTP-N), fiquei a saber que, numa distrital de futebol de onze de Trás-os-Montes, há uma competição em que o campeão e primeiro classificado fica também em penúltimo lugar e que último classificado é afinal o vice-campeão graças ao brilhante segundo lugar.
Divirto-me a ver este programa feito só com noticias e reportagens sobre clubes pequenos, que militam nas distritais, com nomes esquisitos para todos os gostos, como o ADC da Correlhã, o GDR Fiolhoso, o JDC Gache, o Benfica, o Sporting, o Atlético, o Estrela da Amadora, etc.

Monday, February 05, 2007

Musicando



Hoje apeteceu-me relembrar alguma da música que eu ouvia até para aí aos meus quinze anos. Tinha acabado de cortar a relva e quando me sentei – com dores por tudo quanto era João – para recuperar do esforço inglório a que fui obrigado, zás …assim, do nada, pensei: ó tempo volta para trás! Por mais que eu lhes diga, a minha patroa e os meus putos, não acreditam que daqui a dois meses a porcaria da relva vai estar outra vez na mesma: crescida! Não sei que mais hei-de fazer para meter naquelas cabeças duras que não adianta, não adianta perder tempo a cortá-la porque ela volta sempre a crescer. Mas, de um contra três, o que é que se espera? Casmurros, nem com uma oração os demovo!

O mar enrola na areia, ninguém sabe o que ele diz, rebola e desmaia, quanto mais se enrolam mais só nós dois é que sabemos, eu sou o lobo mau, as brotinhas a quererem passear no meu Calhambeque, aquele meu paleio de eu te darei o céu meu bem, as chatices com a namoradinha de um amigo meu, a malta a berrar pega ladrão e o senhor policia, quando se apercebe que eu roubo corações e não jóias, grita quero que tudo vá para o inferno, todas estas aventuras fazem parte desses meus primeiros anos e recordo-me de berrar algumas delas, a pedido, com a minha, na altura, voz esganiçada (felizmente não há registos gravados …).

Françoise Hardy levou-me, a mim e a tous les garçons et les filles de mon age a passear pelas ruas de Paris; quis que ela dançasse une valse à mille temps para ver até onde lhe subia a mini-saia, olhei-a como quem lhe diz, ó filha imagina que eu sou o Adamo e que te vou pôr mes mains sur tês anches. Ela gritou, apareceu l´italien, educadamente peço-lhe vous permettez monsieur que eu estou aqui a falar com a fofa, viens ma brune, não tenhas medo, o gajo era mesmo bronco, engalfinhámo-nos e eu fiquei sem une mêche de cheveux; acabou por me caçar e dei comigo feito um mèteque uma ilha italiana. Ainda hoje, para mim, Capri c´est fini! Com un peu d´amour ou d´amitié lá me consegui pirar et maintenant eis-me com o Bécaud na Rússia onde ele troca l´importance c´est la rose pela bela Natalie a quem diz je reviens te chercher um dia para te levar para o meu pommier à pommes, não sei se estão a ver bem a coisa.

Nesta desbunda total, a Sylvie Vartan e o Hallyday enrolaram-se, ela jura que si je chante c´est pour toi ele agradece e retribui je t´aime…je t´aime...je t´aime. Quando a Dalida me vê foi logo naquela de t´aimer follement, não gostei dp género dela, muito ele e ela, vou ali e já venho, ela não desiste, ne me quites pas, ó boneca, vá lá, tenho mesmo que ir, j´attendrai, tudo bem, tu é que sabes, mas é melhores sentares-te.

Sou um pupett on the strings por causa das pernas compridas e nuas da Sandy Shaw, e pour un flirt com ela até o pino estou disposto a fazer, escrevi-lhe cartas de amor a marcar encontros para Lisboa à noite; quando ela finalmente aceita e eu a aguardo numa canoa do Tejo, aparece-me, vindo não sei de onde, o carrapito da dona Aurora e ainda hoje me comparam com a lenda de el-rei D. Sebastião: passado que seja o susto, hei-de aparecer … um dia!

Wednesday, January 31, 2007

Nada




Volta e meia acontece! É raro... mas acontece! Às vezes, quando me sento ao computador para escrever, fico para ali especado a olhar para o monitor, ou para as teclas, ou para as unhas e, apesar do meu ar sério e compenetrado, não consigo encontrar o tema que seja o tiro de partida para a minha crónica. Hoje não, hoje sei exactamente sobre o que é que vou escrever, e vai ser sobre nada. Isso mesmo: nada!

Podia escrever sobre o referendo ao aborto, sobre o caso do sargento Gomes, sobre a justiça ou criticar a falta dela, sobre a crise na autarquia da capital e no maior partido da oposição e dizer cobras e lagartos de uns e de outros, sobre o problema do aquecimento global e esconjurar os seus maiores culpados, sobre a as alterações ao concurso do canal um por causa da vitória de Salazar, sobre mais uma derrota do maior clube de futebol do mundo e arredores, sobre o roubo que é o preço da gasolina face ao custo do petróleo e ao câmbio do euro contra o dólar americano, sobre o exagero que são os impostos mais as suas taxas escondidas, sobre o excessivo peso do estado na economia e na vida dos cidadãos, sobre aqueles buracos na berma da estrada do Tourigo para Mortágua, ao pé de Mortazel e que, como a Toyota, vieram para ficar, bem, se eu quisesse, matéria prima não faltava.

Mas queria ser original e, sei lá, escrever um texto a apoiar a politica do senhor Bush na sua luta contra o terrorismo; ou um a questionar porque carga de água não havemos nós de impor os nossos usos e costumes aos que escolhem ficar por cá (na Europa comunitária) a viver e a trabalhar se depois somos punidos pelas nossas autoridades, por violação da nossa constituição, se copiarmos alguns dos costumes deles; ou escrever a dizer que me estou nas tintas se uns quantos combatentes extremistas islâmicos foram obrigados a fazer o pino e a ouvir a música dos Red Hot Chili Peppers até cuspirem cá para fora a informação que evitou vários atentados contra alvos densamente povoados de civis (a minha vizinha, que tem setenta e muitos anos, foi torturada, ao murro, por dois putos de treze que continuam por aí, mais livres e arrogantes do que os voos da CIA, apesar do inquérito que, dizem, está a decorrer na policia).

No fundo, o que eu queria era escrever textos que seja raro lerem-se, provavelmente porque são poucos os que os têm no sitio! O senhor Pacheco Pereira é dos poucos que os tem, lá no sítio dele que é o www.abrupto.blogspot.pt; além dele, ou melhor, com a inteligência e com a independência dele, se calhar os dedos de uma só mão chegavam para contar quem tem a distinta ousadia de fugir à atracção do pc (politicamente correcto).

Querendo ser original mas não me sentindo à altura do senhor doutor Pacheco, decidi escrever sobre nada. Só chateio quem já leu até aqui e depois cada um vai à sua vidinha.
Hoje de manhã, domingo, esteve quase a nevar aqui em Lisboa; estavam quatro graus na rua e – juro – que vi dois farrapos de neve no meio da carga de água que caía quando cheguei ao clube para ir jogar ténis. Pois foi, a sério que vi!

Wednesday, January 24, 2007

O Maior


Tanta gente a votar a setenta e dois paus o voto, mais iva, para a eleição do maior português de sempre e nem um só, um só único desgraçado votou no Gabriel!

O Gabriel foi, sem sombra de dúvida, o maior português de sempre. Dois metros e para ai uns quase quarenta centímetros. Deitava a cabeça na cama do quarto e os pés numa outra, instalada na marquise. Duas traineiras velhas, compradas na sucata, escondiam as camisolas que calçava nos pés para esconder os joanetes do tamanho de maçãs reinetas.

Nascido em Moçambique, conheci-o ainda aquela colónia era território português. Veio na bagagem de um empresário manhoso e, juntamente com um anão de nome Lúcio, correu o país de lés a lés; o Gabriel sentado numa cadeira real segurava o Lúcio na palma da sua mão direita enquanto recebia, na enorme tenda, os visitantes que compravam o direito a vê-lo de perto, a ele, o gigante de Majacaze, o maior de todos os portugueses.

Durante os meses que durou a sua tournée pelas feiras do norte, ficou hospedado na mesma casa que eu. A vivenda de três andares, conhecida nas redondezas como a casa dos malucos, tinha onze quartos e uma vintena de inquilinos, todos machos e supostos estudantes, rapaziada que foi mandriar para o Porto, idos das mais variadas regiões, do Minho ao Algarve.

Nos primeiros dias da sua estadia naquela espécie de manicómio, ainda conseguiu ter algum sossego porque essas eram as ordens do empresário e também porque o Gabriel era muito tímido. Valeu-nos o Lúcio, a quem bastava enfiar um copo com brande ou whisky debaixo do nariz para cair redondo no chão. Na sala das refeições e depois de um jantar, após a segunda inspiração de Macieira lá tivemos nós que o levar ao colo para a sua cama, que era ao lado de uma das do Gabriel. A medo batemos à porta, pedimos autorização, dissemos ao que íamos e ficámos amigos. Rapidamente aquela zona passou a sala de jogos e a casa de fados, berros esforçados ao som da viola do Gabriel, por sinal muito mal tocada. Aquela manápula era incapaz de conseguir tocar uma só corda de cada vez e, a partir, eram logo todas as seis duma vez.

O Gabriel deslocava-se numa furgoneta VW, a sua limusina; o banco era muito rebaixado para evitar que o desgraçado andasse sempre às cabeçadas ao tejadilho. Tinha problemas nas pernas (tinham-lhe enxertado um osso – de carneiro ao que me lembro – numa das coxas) e muita dificuldade em andar a pé e usava uma bengala do meu tamanho que brandia em jeito de ameaça, sempre a sorrir, quando fazia de contas que se zangava connosco.

As visitas lá a casa de duas namoradas que vinham expressamente contratadas de um bar da Povoa do Varzim eram um dos momentos mais comentados, até pelas medidas de segurança que originavam, com dois seguranças à porta do quarto que só partiam quando a visita estivesse consumada. Uma destas namoradas acabou por casar com ele, tendo-se divorciado pouco depois. De volta a Moçambique, também ele morreu na miséria.
Um enorme português e nem um mísero voto… nem o meu, pois eu, confesso, preferi esbanjar os setenta e dois paus, mais iva, numa imperial com tremoços!

Tuesday, January 16, 2007

Anjos





Um dia destes tenho que ir às compras, estou a precisar de umas roupitas novas e adiar este sacrifício significa arriscar-me a ficar sem os fundilhos de algumas das minhas calças a qualquer momento e embora me dê algum gozo imaginar o embaraço de quem me visse o dito, mesmo que decentemente tapado, tenho dúvidas de que eu próprio apreciasse a minha humilhação.

Mudar de fatiota e vestir uns trapos novos, dizia um senhor meu conhecido, pode ser melhor para a saúde do que muitos remédios, mudar o visual é excelente para a nossa disposição, fazer de contas que somos outros, novos, diferentes e frescos aos olhos de quem nos vê. O stock é o mesmo a montra é que aparece exposta de maneira diferente, o efeito dura pouco tempo mas enquanto dura sabe bem.

A ONU, esse polvo que as elites politicamente correctas querem que eu engula, à maneira do óleo de fígado de bacalhau, como o único, o verdadeiro, o maravilhoso garante do direito internacional, também trocou de roupa, um produto da Coreia do sul em substituição do já mais que gasto produto ganês, do estilista Kofi Annan.

Toda a gente sabe como os americanos, perdão, os americanos não, o que toda a gente sabe é como o senhor Bush trata os habitantes do mundo, entre eles os prisioneiros, estejam eles em prisões iraquianas, numa ilha das Caraíbas ou em trânsito, num qualquer avião da CIA. Toda a gente sabe, porque há jornais, rádios e televisões que não se cansam de o repetir e de o lembrar. Às vezes há provas – fotografias, filmes, testemunhos – outras vezes, como não as há, as acusações ficam como que a pairar no ar embora a sua sombra já funcione como uma nódoa que não sai.

Em todos os casos sustentados por provas já houve, ou estão em curso, julgamentos, alguns com sentença já proferida e com os culpados a cumprir pena; quanto aos outros aguardam-se as provas para se poder ir para além do diz-que-diz e outros episódios há em que se provou ser mentira. Os americanos são maus, perdão, o senhor Bush é muito mau, mas a justiça naquelas terras funciona e uma sociedade civil irrequieta lá vai picando os vários poderes impedindo-os de adormecerem na cepa torta.

Os garantes do direito internacional, a minha querida, adorada e estimada ONU, têm tropas de manutenção de paz espalhadas por uma porção de países – Congo, Libéria, Haiti, Burundi e Sudão por exemplo – e, segundo provas, os soldados que as integram violam e roubam à fartazana os pobres dos nativos, especialmente as crianças.
De quantos julgamentos e acusações já lhe deram noticia os órgãos de comunicação social que costuma ler e ouvir? Eu também!

O actual Conselho dos direitos humanos da ONU, eleito no ano passado e com mandato para três anos é constituído por quarenta e sete países entre os quais se encontram países tão democráticos como Cuba, Argélia, Arábia Saudita e China.
Durante o ano de 2006, os dois países com o maior número de condenações feitas por este conselho foram Israel (38) e os Estados Unidos (29). Só depois aparecem o Sudão (26), a China (23) e o Irão (21). Cuba está em décimo sétimo lugar com 9.

Quando mandar rezar uma missa vou convidar estes meninos de coro. São tão afinadinhos a embalar-nos que até dá gosto.

Tuesday, January 09, 2007

Jogos



Já curti e já curei os estragos provocados pelos exageros cometidos durante a época natalícia; estou agora na chamada fase dos caldos de galinha que se caracteriza por uma total ausência de excessos e cujo objectivo é manter-me em bom nível físico e mental.
Infelizmente ontem comi qualquer coisa que me provocou uma tremenda de uma azia e segundo o meu médico, nem na Quaresma vai passar. Atlético e pronto para jogar não ficarei eu tão cedo. Paciência!
Ou então vou jogar na bolsa, brincar com as acções das empresas cá do burgo; aqui sim, quem tem jogado, tem todas razões para andar contente, o ano passado foi o melhor desde o princípio do século e este também começou com o pé direito e, para já, vai lindo e formoso, com bom porte atlético.
No meu tempo – expressão usada por elementos de uma determinada geração para dar tareia em todas as gerações mais novas – quando se compravam acções, entrava-se mesmo na posse dos títulos em papel que ficavam guardados no cofre ou debaixo do colchão até à próxima transacção, altura em que eram passados para as mãos dos seus novos titulares. Hoje, nos tempos deles e graças à parafernália tecnológica existente, num minuto, sem ter que sair da cama, sem ter que falar ou contactar com mais nenhum ser vivo, um artista pode comprar e vender imediatamente uma porradaria de acções, ganhar ou perder uma pipa de massa.
Há jogadores que dizem que as cotações das acções já subiram demasiado, que os lucros das empresas vão ser afectados negativamente pelas subidas das taxas de juro, que a economia americana vai entrar em recessão, que a bolha não tarda nada vai rebentar e que as quedas vão ser dolorosas, muito piores do que a queda dos dragões; outros, pelo contrário, dizem que não senhor, este ano ainda vai ser sempre a acelerar, a economia mundial continua de boa saúde e a nossa, a portuguesinha da costa, também vai crescer e as empresas vão mas é ter mais lucros, abrandamento só para o ano que vem. A juntar aos sinais dados pelas maiores economias mundiais, dizem eles, está também o sentimento de que durante este ano vai aumentar ainda mais a concentração de empresas, quer através de aquisições hostis quer através de fusões amigáveis, reduzindo o número de empresas e criando grupos com mais poder de controle sobre os preços de venda dos produtos.
Uma destas duas leituras tão diferentes da mesma realidade estará mais correcta que a outra; pode até dar-se o caso de as duas estarem certas dependendo da altura do ano. Os pessimistas são os ursos e os optimistas são os touros.
Prognósticos só no fim do jogo, de maneiras que convém lembrar a todos aqueles que estão em campo para estarem atentos ao desenrolar dos encontros, ter muita atenção às faltas, especialmente às entradas por trás e à má fila, para não se perder o controle do esférico que neste caso dá pelo nome de euro.
Eu, como se diz na gíria, já estou dentro e em jogo. Espero é não ficar tapadinho …

Tuesday, January 02, 2007

Correrias




Hoje é o último dia do ano de dois mil e seis, amanhã arranca mais um período de doze meses que, em progressiva aceleração, nos vai levar em direcção à próxima passagem de ano, que está já ali, ali ao virar da esquina, isso, aí mesmo.

Não sei que raio é que se passa com o estafermo do tempo mas, de há um punhado de anos para cá, o marmanjo parece ter o fogo no rabo, armado em carapau de corrida.

Ando eu ainda a apreciar o cheirinho a lavado que a prima vera deixa no ar quando, sedutora, provocante e prometedora, aparece a pavonear-se, armada em boazona – que é, entre as estações! – e, pimba, já as noites tomaram, outra vez, conta da maioria dos dias, embrulhando o sol na cama pouco depois da hora a que os ingleses tomam o seu chá, não vá o menino estar cansado quando, à meia-noite, se comerem as doze passas e, rabugento, estragar a festa que, goste-se ou não, tem que ser alegre.

Os meus putos riem-se, encolhem os ombros e dizem que eu devo ter os cilindros entupidos ou a cabeça do motor queimada; a minha patroa começa a entender-me e os meus pais gozam à brava comigo! À brava, à brava, não será, mas parece, pois garantem que o tempo deles é ainda mais veloz e que, se os nossos dois tempos fizessem uma corrida, a minha humilhação na derrota era menina para me estatelar na cama com uma depressão à maneira.

Desconfiado, procuro-lhes no olhar pistas que me façam concluir que estão a gozar com a minha cara, exactamente como faziam quando, ao luar em plena selva tropical, apontavam para a sombra vergada pelo peso do enorme saco e diziam que era o Pai Natal que estava de passagem. Nã, estão mesmo a falar a sério.

Que se dane! Com que então sua excelência quer conduzir cada vez mais depressa? É? Está bem! Que lhe faça bom proveito!

Já que este maluco teima em me levar no lugar do pendura, espero que o desgraçado evite tanto quanto possível os buracos que vão dando cabo dos pneus, que obedeça minimamente ao manual de instruções e faça umas revisões de quando em vez. que vá cumprindo as regras de transito, que não abuse muito do motor e nunca, mas nunca, deixe o depósito ficar sem combustível.

Apesar do vento e da poeira provocados por esta desenfreada velocidade há que manter os olhos sempre bem abertos e, assim, apreciar bem a paisagem enquanto posso porque, mais cedo ou mais tarde, este Fangio vai mesmo acabar por nos fazer despistar (não se preocupem, já bati quarenta e seis vezes na madeira ...).

A minha taça, cheia de um bem gelado champanhe, aguarda que a vossa esteja a postos; já está? Tchim, tchim!

Sunday, December 31, 2006

À vossa!




Então que tal, o Natal foi bem passado? Sim? Ainda bem!
Muitas prendas? Não? Não mesmo? Então, porquê? A malta é forreta ou está tesa?
Ah, estão mais para o teso, hem...? Deixem lá, às vezes até que dá jeito estar teso...

Neste momento, hora a que escrevo, véspera da noite de consoada e do bacalhau cozido com todos, iguaria que antes detestava e agora mamo que nem um abade em dia de festa, apesar do frio que está lá fora, eu estou bem quentinho e não é do calor da lareira, não senhor, essa está às escuras e sem chama, deu-me aquela preguiça malvada para encomendar a lenha a tempo e agora tenho que a racionar, estou guardá-la para os dias em que a neve cair cá em casa. Estou quase tão farto de levar na corneta por causa deste meu pequeno lapso como o presidente do banco Espírito Santo por causa do apelido da Carolina; agora que ele já conseguiu esclarecer que, embora tenham o mesmo apelido, a dita senhora é Sal por parte do pai e Gado por parte da mãe pode ser que parem de o chatear.

O calor da noite, esse malandro, deve-se a quase uma garrafa de tinto Adro da Sé, reserva de 2001, que chocalha cá no bucho. Oferta de um amigo que me quer ver alegre, o raio do tintol desliza pela goela abaixo com uma suavidade que até arrepia. A minha Maria farta-se de barafustar porque eu bebo muito mais depressa do que ela e depois ela sente-se prejudicada. A culpa é minha, podia muito bem ter arrumado os trapinhos com alguém que só bebesse água, fui nabo e distraí-me, agora bem torço o gargalo mas o mal está feito. Cá em casa, beber a meias quer dizer meia caixa para cada um. Esquecer-me de comprar a lenha, é como o outro, vá que não vá, agora ficar sem pinguita em casa, chiça, isso sim, é que era assinar a minha sentença de morte.

Estou tão quentinho que, dada a quadra festiva, até me arriscava a acabar a crónica em verso mas, ou é o danado do teclado do computador que não pára quieto ou então são os meus dedos que não acertam com as teclas certas para fazer as rimas. A luz do candeeiro também não ajuda. É pena, porque sinto que hoje me corre nas veias parte do mesmo combustível criativo que fez de Bocage um grande poeta.

Assim sendo, vou continuar com a minha prosa, fraquinha, tadita, culpa desse amigo que fez o favor de me tentar com aquela pomada. Sim, não fosse ele e eu até era gajo para conseguir escrever alguma coisa de jeito em vez de estar para aqui, aos esses, a fazer estas figuras tristes. Se a entidade reguladora de comunicação social condenar o director do jornal por permitir a publicação de textos escritos sob a influência de vapores etílicos, vou-me a ele, a esse amigo, como um dragão a um leão.

Pensando melhor, acho que vou acabar por aqui, os meu olhos já estão qualquer coisa alhudos, como diz o Telmo (um palavrão que começa por ´p´ e que a minha esmerada educação não permite escrever), a noite já vai longa, amanhã tenho que me levantar cedo, por volta do meio-dia, tomar uns sais de frutos e preparar a vasilha para mais uma noite de farra. Espero acordar deitado na minha cama, o pijama vestido, sem dores de cabeça e com o fígado sossegado.

De gatas, vou para dentro, desejando a todos uma Feliz quadra Natalícia e umas boas entradas no próximo ano. Até já.

Saturday, December 16, 2006

Amores e desamores




Carolina abrandou o ritmo do passeio dominical a pé pela marginal da foz de modo a quase poder ver bem de frente o rosto do marido, ajeitou-lhe a gola do sobretudo, ergueu ligeiramente a cabeça, olhou-o nos olhos, esboçou um sorriso satisfeito e perguntou-lhe:
- Ó querido, se a primeira mulher que te cumprimentou, aquela morena de há bocado, é a amante do teu sócio e se a segunda, a bomba loira de mini-saia que te disse adeus é a tua, então estamos de parabéns, porque a nossa amante é, de longe, muito melhor do que a amante do Fagundes.

Pinochet morreu, já está enterrado e a vida de Fidel de Castro parece estar por um fio.
De entre as várias coisas que tinham em comum há uma que se destaca: ambos foram ditadores. Reza a lenda que Pinochet foi um ditador de “direita” e Fidel um ditador de “esquerda”.
Como bons ditadores, fosse porque fosse, mandaram prender, torturar e assassinar algumas dezenas de milhar de pessoas Ainda como bons ditadores que eram, roubaram os seus conterrâneos (e não só) tendo amealhado e dispersado fortunas que provavelmente ficarão por calcular.

Pinochet chegou ao poder, em 1973; por essa altura já Fidel era um veterano como primeiro-ministro, cargo que ocupou desde a revolução até 1976.

Os primeiros tempos de Pinochet terão também sido os mais brutais. Em poucos anos Pinochet privatizou quase tudo o que tinha sido nacionalizado por Allende, o homem que ele derrubou; porém, no inicio da década de oitenta, as más condições da economia forçam-no a reformar as suas próprias reformas, ficando parte dessa obra a cargo de um grupo de jovens economistas chilenos, conhecidos como os “Chicago boys” e muito influenciados pelas teorias de vários defensores da liberdade individual e da economia de mercado. No fim dessa década, um plebiscito negou-lhe um segundo mandato como presidente da república e, a pouco e pouco, foi perdendo peso e influência. O Chile já vai no terceiro presidente da república eleito por sufrágio universal desde o último mandato de Pinochet.

Em Cuba, com Fidel doente, dizem as más-línguas que tudo se mantém hoje como em 1973, nos tempos áureos da mãe Rússia. O estado, que é o patrão de todos os cubanos, continuará a depender das ajudas rotativas de outros países, para ir mantendo, racionada, a vida da sua gente. Poucos são os dados disponíveis sobre a economia da ilha embora sejam cada vez mais os turistas que a visitam.

Segundo um estudo, feito em conjunto pela fundação Heritage e pelo jornal americano Wall Street Journal, sobre o grau de desenvolvimento e liberdade na economia tendo por base o ano de 2004, o Chile ocupava a 14ª posição (integrando o grupo dos mais livres), Portugal a 30ª (grupo dos parcialmente livres) e Cuba a 150ª (grupo dos reprimidos). Apenas por curiosidade, o primeiro país europeu a aparecer na tabela é a Irlanda, na 3ª posição, os USA aparecem na 9ª, a Espanha na 33ª e a minha terra natal, o antigo Zaire, nem sequer tem cabidela para lá constar).
Nesse ano o Chile cresceu 6,1%, Cuba 2,9% e Portugal 1%.
Fidel é tão aclamado por esse mundo fora quanto Pinochet é odiado.
Como diria a Carolina, o meu ditador é, de longe, muito melhor do que o teu.

Fontes




No texto anterior escrevi sobre jornalistas, muitos dos quais, de braço estendido e dedo em riste, apontam, apoiam, criticam, publicitam, bajulam, insultam e, como os toureiros face aos touros feridos, finalmente de rastos e humilhados, saem tranquilos e superiores para a programada ovação à volta da arena.

Uma noticia falsa, publicada no Jornal de Tondela, com os seus, digamos, duzentos mil leitores (peço desculpa se estiver a pecar por defeito), não tem o mesmo impacto – diria eu – que uma falsa noticia publicada no New York Times (NYT) com os seus escassos quase dois milhões.

As notícias que o Jornal de Tondela publica sobre os acontecimentos, no Iraque profundo por exemplo, têm, quase de certeza, origem na mesma fonte que as dá ao NYT, fonte que dá pelo nome de AP (Associated Press) e que quase detém o monopólio da informação em certas áreas do globo, como é o caso do médio oriente.
Há umas três semanas, a secção iraquiana da AP noticiou, com base no relato de um capitão da polícia local chamado Jamil Hussein, que algumas mesquitas tinham sido incendiadas e que seis sunitas tinham sido queimados vivos. Ouvi na SIC Noticias, na rádio Bagdad, na CNN, na BBC, na SKY e li em vários jornais americanos.

Face à falta das imagens de mais esta carnificina (as televisões árabes exibem os mortos e os feridos na mesma proporção que as nossas passam telenovelas em horário nobre), instalou-se a desconfiança entre certos sectores; feitas umas pesquisas, descobriu-se que o tal capitão da polícia, o senhor Jamil Hussein, tinha sido a fonte usada em 61 notícias dadas pela AP nos últimos dois anos. Contactados o Ministério do Interior do Iraque e o comando das forças americanas para mais detalhes sobre os ataques às mesquitas e o assassínio daquelas seis pessoas, chegou-se à situação actual: na área e datas indicadas, há registo do ataque a uma mesquita, nada sobre pessoas queimadas e a informação de que na polícia iraquiana, não há, nem houve, o registo de um capitão com o nome da fonte usada pela AP.

Este episódio segue-se a um anterior, a prisão, há cinco meses atrás, de um repórter local da AP, engavetado por ligações à organização terrorista Al-Qaida e a outros grupos corais congéneres, mas ainda não formalmente acusado.

Não estando em causa a gravidade da situação na zona o que se pede à AP é simples: que mostre o tal capitão, que o apresente ao público que por ele é “informado” através da AP e dos órgãos de comunicação social pelo mundo fora, umas fotografias dos acontecimentos tal como relatados. Se tal não for feito, é legitimo concluir que, pelo menos, parte da notícia é falsa, que a fonte usada, 61 vezes, não existe

A isto e até hoje, a AP disse: nada! Reconfirma a sua história, agora sustentada em mais três testemunhas – anónimas, claro – e jura pelas alminhas que a sua fonte é credível.

Mas se a malta não vir o famoso capitão, não será legitimo concluir que ele não existe? E, não existindo, quantas notícias vindas da AP são falseadas? Muitas, poucas, nenhumas, algumas, todas? E porquê falseadas? E, já agora, as notícias falseadas, será que beneficiam sempre os mesmos “ideais”? E acharão os leitores do Jornal de Tondela que este continue a mantê-la como fonte privilegiada?

Tuesday, December 05, 2006

Surpresas


A RR (rádio Renascença), decidiu, na semana passada, dar a conhecer aos seus ouvintes e aos portugueses em geral, a sua posição editorial em relação ao referendo sobre o aborto, tomando a defesa do “não”.

Poucas horas depois, foi publicada, em vários órgãos de comunicação social, a fotografia de um grupo, jogadores do clube doentológico do sindicato dos jornalistas, acabados de chegar de um torneio de bisca lambida realizado em Saturno. Pensei que os queixos caídos e as calças na mão simbolizavam a coça que tinham levado na bisca ou necessidades ainda não satisfeitas em fim de tão longa viagem mas, lida a legenda, percebi que estava errado.

Pela voz de um dos seus elementos soube que estes seres estavam surpreendidos pelo facto da direcção de uma empresa privada de comunicação social ter tido a lata, o despudor de, publicamente, assumir uma posição e mandar às urtigas a tão apregoada imparcialidade. Inadmissível, imperdoável e inimaginável nos bons velhos tempos da criação do dito clube!

Quem se ausenta, voluntariamente ou não, do planeta terra durante tanto tempo, fica sujeito a estas desagradáveis surpresas quando aterra. Lá, nas nuvens, talvez pela falta da gravidade, acredito que os extraterrestres vejam os jornalistas como eles gostavam que nós, terráqueos, os víssemos, ou seja, anjinhos com asas, pairando em círculos, subsistemas de segurança perfeitos e restritos, por sobre nós, os comuns dos mortais.

Seja por causa da redução da camada do ozono, por andar com uma crise de fígado ou pelo simples facto de ter aprendido a ler, há muito tempo que acredito tanto na imparcialidade dos jornalistas como acredito na fada madrinha.

Aliás, se eu não souber as opiniões do conjunto dos jornalistas que compõem uma rádio, um jornal ou uma televisão, como raio é que vou escolher a informação que prefiro ouvir, ler ou ver?

Imparcialidade sim, mas nos factos senhores, nos factos! E aqui é que a porca torce o rabo, porque como ainda há alguns monopólios na cobertura jornalística em certas regiões do planeta, certamente praticantes do tipo de imparcialidade abençoada pelo tal senhor porta-voz, são tão grandes os barretes que nos enfiam que nos tapam da cabeça aos pés.

Para quem tem a dupla sorte de saber ler em inglês e ter acesso rápido e fácil há muitos anos à Internet, esta decisão da RR não é novidade, porque, para os órgãos de comunicação social ingleses e americanos, informar os seus clientes das escolhas editoriais é o pão nosso de cada dia.

Resta-me uma dúvida: quanto tempo demoraria o dito representante do conselho doentológico do sindicato dos jornalistas a criticar a RR se esta fosse apoiar o “sim”?

Sunday, December 03, 2006

Desejos


Esta semana eu até tinha uma boa desculpa para me baldar e não escrever a minha crónica já que ando a servir de guia ao senhor que paga para eu produzir estas tretas mas, como sou um menino bem comportado, aqui estou eu, sentado à frente do computador, num domingo à tarde, a cumprir o meu dever. Há quase vinte anos que ele e a mulher vêm à capital, sempre nesta altura do ano, para comer pastéis de Belém. Estão viciados naquilo, na ficha clínica consta que a dependência remonta ao século passado, já tentei fazer-lhes uma desintoxicação à base de pezinhos de coentrada mas não resultou e as recaídas estão a ser cada vez mais penosas e, sinceramente, começo a perder a esperança.

Agora adoptei o que o tripeiros designam por “regime lisboeta” que é um novo tratamento à base de pequenos-almoços servidos entre as dez e meia e as onze da manhã, almoços muito ligeiros por volta das três da tarde – um pão pequeno com uma fatia, fininha, muito fininha de queijo ou fiambre – e á noite então lá os deixo ferrar o dente em qualquer coisa mais substancial, até porque, por essa altura, também eu já estou esganado de fome.

Podem fazer muitas críticas a este regime mas pelo menos cá no hospício são mais os malucos com ar de paus de virar tripas do que aqueles com ar de arredondado, daqueles que, com as mãozinhas, afagam a saliente barriga. Os que as afagam de baixo para cima são os banqueiros, os que as afagam de cima para baixo são os tansos.

Algumas más-línguas dizem que eu já sou um arredondado perfeito mas tal afirmação ainda não é verdadeira embora eu acredite que mais depressa cumprirei com todos os requisitos exigidos para tal do que o nosso governo com a promessa do défice nas contas públicas.

Dando como adquirido que lá chegarei em breve, informo que já escolhi a qual das duas categorias de arredondados eu quero pertencer: à dos banqueiros, obviamente!

Eu desejo, eu quero, eu aspiro a arredondar para cima. Se for para receber, bem entendido! Se for para pagar, saia uma desculpa com um arredondamento para baixo aqui para a mesa do canto, a vida está difícil, não posso dar mais e olhe, dê-se por muito contente por eu ainda lhe arredondar alguma coisinha. Contradição do caneco!

Aspirações contrárias às minhas, têm os mentirosos e os santinhos, indivíduos que dizem querer arredondar para baixo.

Se eu fosse um desses funcionários do hospício pagos para manter o indígena a afagar no sentido mais natural, de cima para baixo, além de vigiar bem os marmanjos da minha laia para evitar o género de abusos que eu sei que faria se me dessem rédea solta, prestaria também uma especial atenção aos mentirosos. Se os conseguisse distinguir dos santinhos.

Liberdades






Morreram, na semana passada, duas pessoas que eu admirei: o futebolista Puskas e o economista Milton Friedman.
Do primeiro as lembranças já são muito vagas, transportam-me a um tempo da minha vida que eu, então um puto na escola primária, não gosto muito de recordar, a minha infância era um inferno, estava infectado por um vírus que comandava toda a minha existência, um bicharoco terrível cujo nome cientifico era estrafego-te-aos-poucos benfiquismus e que curiosamente atacava mais aos domingos à tarde, punha-me os joelhos a tremer, um nó no estômago e as unhas nos dentes.

O húngaro Puskas era um dos fabulosos curandeiros nesse, já então, gigantesco Real Madrid; numa noite do ano de 62, ele quase me ia livrando do benfiquismus tendo-lhe acertado com três injecções na primeira das duas partes daquilo que se anunciara ir ser simplesmente um tratamento do tipo toma lá e embrulha; só que o treinador do vírus, também ele húngaro e portanto conhecedor das poções do compatriota, tinha um antídoto contra as mezinhas, um produto novo das africas chamado Eusébio, que lá conseguiu retardar a minha cura. Nessa noite ri-me à brava à custa do Puskas e pelo facto me penitencio.

Quando contactei com o segundo falecido já o meu intelecto estava crescidinho, tinha chegado à fase do “penso, logo sou do … porto”, estava portanto curado de tudo o que era má influência da cor vermelha, algo que o próprio senhor Friedman, prémio Nobel da Economia em 1976, ajudou a reforçar e a cimentar.

Este senhor, um gigante dos nossos tempos, insultado pelo comunismo e pelos adeptos dos governos paternalistas, deixou-nos um legado extraordinário através de ideais que realçam o tremendo respeito pelo indivíduo e pelos enormes benefícios que se obtêm quando somos “livres de escolher”. Com estas três palavras se pode resumir o seu legado. Conselheiro de muitos governantes desde o fim da primeira guerra mundial foi com Ronald Reagan e com Margaret Tatcher que o mundo mais se familiarizou com as suas ideias.

Na sua maneira simples de explicar a economia, dizia ele que eu posso gastar o dinheiro de quatro maneiras diferentes:
- Posso gastar o meu próprio dinheiro em mim mesmo. Se o gastar assim, então terei o máximo cuidado com o que faço e tentarei receber o máximo de retorno por ele;
- Posso gastar o meu dinheiro com outra pessoa, num presente de aniversário de alguém, por exemplo. Nesse caso, a minha maior preocupação não será com a qualidade da prenda mas com o seu custo;
- Posso gastar o dinheiro de outra pessoa comigo. Se eu estiver a gastar o dinheiro de alguém comigo, podem apostar que vou ter um belo e bem regado almoço;
- Por ultimo, posso gastar o dinheiro de alguém noutra pessoa qualquer. Neste caso, não só não me vou preocupar com quanto gasto como também não me vou preocupar com o que obtenho em troca.

Será assim tão difícil perceber que quanto menor for o peso do (des)governo, melhor será a vida de cada um de nós?

Wednesday, November 15, 2006

Pragas

Como a tradição ainda é o que era, o São Martinho não se esqueceu e lá trouxe o verão para passar uns dias connosco. Poucos, porque o sol quentinho faz muita falta lá no seu posto de trabalho, o patrão diz que a sua presença no sitio certo é absolutamente essencial para o bom funcionamento das suas empresas e para o bem estar dos empregados que habitam na sucursal do planeta terra e que ele não pode andar a mudar de lugar de cada vez que a malta da secção portuguesa decide que vai à adega provar o vinho e se põe a comer castanhas para ensopar.

E que falta que me faz nos dias de hoje conseguir ensopar bem o efeito dos tintois que vou emborcando porque se por um acaso do destino eu for a conduzir e me mandarem parar para me obrigarem a encher uns balões e o meu bafo estiver, por assim dizer, com defeito por excesso, estou bem tramado e sabe-se lá que tipo de caldinho é que me vão dar como castigo e para ver se me emendo. Às tantas sai-me ou um caldo verde ou, pior ainda, um caldo vermelho, de cenoura ralada e quem fica raladinho e passado sou eu.

Caldinho com legumes, qualquer que seja a cor, deixem-me que vos diga é coisa má, coisa ruim, até se me arrepelam os pelos da nuca.
Um amigo meu, ou melhor, um senhor que eu mal conheço e que por acaso até nem sei que vive naquela espectacular vivenda branca em Cascais do lado esquerdo de quem vai para o Guincho, um dia ao almoço perguntou à mãe se a comida estava boa; a mãe, sem parar de comer disse-lhe: filho, não gosto nada dos teus amigos!
Então coma só os legumes, respondeu-lhe ele.

Com sinceridade, conseguem imaginar alguém capaz de manter no futuro, o mesmo tipo de relação que tinha no passado com os legumes? Eu, lamentavelmente, não consegui! Comecei a dar sopa na sopa e a olhar de esguelha para as saladas. Mas estou melhor e a prova disso é que esta é a primeira vez que consigo falar abertamente deste episódio em público sem chorar.

A minha mulher anda a tratar dos meus filhos porque, diz ela, o meu comportamento vai tendo um efeito nefasto na educação deles e eles estão numa idade em que ainda podem ser salvos. Tem andado com paninhos quentes e, sempre que pode, disfarça as leguminosas para ver se nós não topamos o que estamos a comer.
Em desespero de causa e como quem roga uma praga, avisou-nos de que ou comemos a sopinha toda e todo o tipo de legumes e saladinhas ou obriga-nos a ler os livros do Saramago.

Para já, diz ela, são só os livros. Se não resultar, passamos para as entrevistas que ele deu, começando pelas mais recentes.
Os miúdos, à rasca, andam a ver se a convencem de que a alface que vem com os hambúrgueres do macdonaldo é verdadeira; eu, após consultar vários especialistas já decidi: daqui para a frente vou comer legumes todos os dias.