Tuesday, June 19, 2007

Enredo

(imagem de www.star.ucl.ac.uk)
Plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro.
Eram estes, quando eu vivia regalado e sem responsabilidades, os três objectivos fundamentais na vida de qualquer candidato a macho que se prezasse. Cumpridos, sem esforço e com prazer, os dois primeiros, era normal e lógico que começasse a tratar da tarefa que me faltava para obter o desejado estatuto.

Iniciei os estudos há dez anos. Decidi que ia ser um livro de ficção, um romance policial, romance que ia ter pelo menos umas quinhentas páginas (gosto de ler ao quilo, tinha que escrever em conformidade), ia vender para aí umas quinze edições – só em Portugal! – a história girava à volta das peripécias de um grupo terrorista que pretendia levar a cabo um atentado biológico, através da disseminação do vírus do ébola, a ocorrer durante o jogo da final do campeonato europeu de futebol que estava marcado cá para o burgo.

Da empreitada, tenho escritas umas oitenta e tal páginas e, exactamente, trinta e sete anos para acabar as restantes quatrocentas e pico. Parece um prazo relativamente apertado mas, sem esforço e sem vontade, o falhanço está no papo. Só lamento o tempo que fiz perder aos meus editores chineses e nepaleses, países onde a minha obra era esperada com grande expectativa e que, com esta minha confissão pública, vão sofrer uma enorme decepção.

Não pareço mas, apesar de sorna, sou persistente e, na esperança de um dia voltar ao romance, necessito de exercitar e desenvolver a minha criatividade (caso contrário enferruja ainda mais). Para o conseguir já seleccionei duas hipóteses: concorrer a um lugar na agência de informação AFP (Agence France Press) ou candidatar-me a biógrafo oficioso do novo aeroporto de Lisboa.




Na AFP é dado enorme relevo e importância à ficção e à criatividade, como comprova a publicidade para angariação de novos talentos, feita através da publicação de uma noticia na semana passada de que o vai e vem americano Atlantis “tinha explodido segundos após o lançamento para mais uma viagem até à estação espacial, cujas imagens estavam a ser difundidas pelo canal de televisão da Nasa”. Infelizmente para mim, neste mundo global, tal anúncio foi visto por milhões de marmanjos que também vão querer concorrer a tão cobiçado lugar.
Mentes sem sentido de humor andam por aí a dizer, há anos, que a AFP pinta a realidade de acordo com as cores mais ao gosto e desejos particulares e especiais dos seus editores, os mesmos que, só por acaso, não viram o arraial de pancadaria entre palestinianos “moderados” e radicais até terem sido obrigados a pôr os óculos da realidade, que é chata, mas é o que é.

Como candidato a biógrafo do novo aeroporto, poderei escrever ao quilo, sem ter que encher chouriços como tantas vezes faço, há material para umas cinco mil páginas e, o enredo, tem os ingredientes dos melhores livros de suspense: um crime, vários suspeitos reunidos à volta da mesma mesa, cada um com as suas próprias motivações, negociatas, traições, pistas, muitas pistas, falsas a maior parte delas e um castiço inspector chefe encarregado da investigação que, mesmo sabendo muito bem quem é o criminoso e o móbil do crime, só os vai revelar no último parágrafo da última página. E haverá surpresa!

Desejos

(imagem de http://www.barnesandnoble.com/)




O último livro que li era a história de um judeu português, expulso pela Inquisição, e a sua actividade em amesterdão, como negociante de café (o titulo português é "o Mercador de Café").
Quantas vezes, bem lá no fundo, desejamos, silenciosamente, que as coisas, os acontecimentos, corram à nossa maneira? E quando essas coisas, esses acontecimentos, não correm como a gente gostava que tivessem corrido, quantas vezes temos a coragem (ou lata) para dizer como desejávamos que elas se tivessem passado?

Uma das mais conhecidas, mais antigas e mais citadas agências de (des)informação europeia, a AFP (agence france presse), anunciou, há dias e com alguns detalhes, na sua página de Internet que o vai-e-vem espacial Atlantis, cujo lançamento ocorrera pouco tempo antes, tinha explodido segundos depois do seu lançamento. Reflectiria a noticia o desejo secreto, de quem a escreveu ou da própria agência, de que a missão fosse um fracasso e acabasse em tragédia? Não, responderam embaraçados, tratou-se de um infeliz erro, tinham escrito uma peça para o caso de…

Esta mesma agência, que ficcionou a explosão daquela nave americana, teve bastante dificuldade para conseguir ler a realidade e perceber que os palestinianos andavam, há “dias”, à cacetada uns com os outros, assim a modos que numa guerra civil.
Aguarda-se, com ansiedade, que, passados que estão os momentos de distracção, a isenta agência, dê corda aos sapatos e nos informe sobre os verdadeiros culpados desta tragédia, a saber, as democracias ocidentais, o senhor Blair, os israelitas e … esse mesmo, o senhor Bush!

Os cegos que se movem com a ajuda de cães estão a enfrentar problemas nalguns aeroportos americanos quando têm que recorrer ao serviço de táxis conduzidos por islâmicos. A religião não permite que transportem cães, pessoas com álcool, e coisas do género; com direito a corridas grátis só mesmo criancinhas mártir dispostas a estoirarem com balões, pessoas e inutilidades parecidas.

Santos

(foto www.semanal.expresso.clix.pt)

Como já não tinha mais nenhum livro novo para ler tive que me reabastecer e, por isso, fui até à FNAC, aquela mercearia gigante onde se compram computadores, telemóveis, discos, jogos, televisores, livros, sandes, chupa-chupas e bolos. Em destaque dois livros: “O cérebro feminino” com trezentas e tal páginas (no meu tempo chamava-se “O livro em branco” e tinha apenas cerca de cem páginas) e “O dia em que Sócrates vestiu Jeans”, de uma escritora inglesa, apresentado como “inteligente, divertido e original romance que mostra aos jovens que a filosofia pode melhorar as suas vidas… As grandes questões da vida abordadas pelas atractivas técnicas da literatura”.

Com estes dados, Sócrates, inglês e técnicas, pensei tratar-se do nosso primeiro mas, um olhar mais atento ao jovem na fotografia da capa, rapidamente me elucidou sobre o herói principal. Não era o nosso!
Não faz mal porque, a julgar por uma pequena amostra que vi, há dias, na SIC-Noticias, os próximos meses vão ser ricos na demonstração desses conhecimentos, embora eu tema complicações a outros níveis. Pela dita amostra, vai ser um fartote se o homem insistir em dar entrevistas naquela língua de trapos; a conversa há-de, inevitavelmente, sair da parte técnica das engenharias (cadeira em que é elevadamente licenciado) para as coisas mais triviais e aí, sem rede por baixo, a coisa pode ficar feia. Espero, sincera e honestamente, que não lhe aconteça a ele o mesmo que me acontece, muitas vezes, a mim!
Modéstia à parte, também eu sou muito bom na parte técnica (diploma de inglês de praia) mas quando a conversa descamba para o dia-a-dia, como não percebo patavina do que me dizem, meto o meu sorrisinho de plástico – para o conseguir escorropicho tanto a pele da cara que deixo de ouvir! – e, depois, seja o que Deus quiser: podem insultar-me a mim, à minha malta ou ao meu fcp, podem dizer que tenho as mãos nos bolsos e a braguilha aberta, podem contar-me a mais triste e comovente história verídica que conheçam mas, o meu sorriso, só se desfaz quando finalmente me apercebo do silencio que me rodeia e da incómoda sensação de que, a qualquer momento, me vão partir a tromba.

Imaginem-me a falar com o presidente russo, ou com o presidente Mugabe (que virá de visita), ou com o presidente Chavez, ou com o presidente emplastro: troco ou pronuncio mal uma palavra e, de repente, até parece que fiz uma critica sobre a forma como tratam dos direitos humanos nos seus países! Nem em sonhos me passaria pela cabeça fazer tal critica, quanto mais acordado! Sim, quem sou eu, metido no meu cantinho, para dar lições de moral seja a quem for? Santinho?
A conversa até está muito agradável mas, vão-me desculpar, estou ali a ver o Bush e o Blair, badamecos, tenho que lhes ir dizer umas quantas verdades, os gajos andam para aí a abusar, ouvi uns zunzuns sobre cadeias e torturas, haja alguém com coragem que os meta na ordem, vou ali e já venho. Excuse me!

Uma pergunta, aproveitando a boleia ali de cima e já que estamos na época: porque carga de água é que nós não podemos ter santos com nomes nobres, tipo Gustavo, Afonso ou Guilherme e comer bifinhos de lombo com batatinha frita e champanhe a acompanhar em vez dos pindéricos Pedro, António e João mais as suas pindéricas sardinha e sangria, essa mistela demoníaca que arruína a fruta, a gasosa e, até, o mau vinho? Porquê?

Tuesday, June 05, 2007

Indecisões






Bolas pá, assim um tipo anda sempre à nora, sem saber com o que é que há-de contar, isto é duro psicologicamente e alguém vai ter que ser responsabilizado pelos traumas que estas indecisões me causam.
Quando me disseram que a multa a pagar ao ser apanhado a fumar ia dos 50 aos 1000 euros contra uma multa de apenas 25 a 403 euros (substituível por tratamento voluntário) se fosse apanhado a chutar heroína para as veias, percebi que estava na hora de mudar de vício. Somei dois mais dois e, vai daí, concluí que se um delito tem coimas inferiores ao outro é porque é menos perigoso e socialmente mais aceitável. Ao nível da punição, era o chamado dois em um: a troca de um vício mais caro e socialmente asqueroso por um mais barato e mais bem visto. Ao contrário do habitual, saltei da fase do “já faço, daqui a um bocadinho!” para a do “bora nessa Vanessa!” pesquisando na Internet a melhor, a mais barata e a mais rápida forma de trocar de veneno.

Acabada a pesquisa, optei pela compra do pacote que me pareceu o mais adequado ao meu caso particular: um curso diurno de dois dias de “Técnicas de assalto por esticão em zonas urbanas” e outro nocturno, em fim-de-semana, de “Antecipe-se ao estado e alivie a sua família do peso das pratas, do ouro e/ou de outras riquezas materiais”; um bónus, uma espécie de mestrado em “Activismo pacifico anti globalização”, ministrado durante uma qualquer reunião dos G-8, com tudo incluído, a viagem de ida e volta de avião, regime de meia-pensão na primeira noite numa casa ocupada, as seguintes em pensão completa nos calabouços da policia ou num hospital local, um kit de material escolar com quatro paralelepípedos para a prática do tiro às montras, aos carros e às trombas dos broncos que ainda se dão ao trabalho de fazer cumprir a lei, quatro esferográficas, três pensos rápidos, uma t-shirt com o Che estampado e um CD com alguns dos discursos do novo rei da banha da cobra, o grande líder venezuelano.

Eis que, do nada, vem a menina Maria de Belém (sempre tão pequenina, tão sensível, tão sorridente, tão penteadinha, tão bonequinha… ahhhhhh – suspiro! – tão querida!), informar que, alertada que fora por colegas parlamentares (fumadores???), vistas bem as coisas, era bem capaz de haver qualquer coisa de errado naquela tabela de coimas, sabe-se lá, quiçá a merecer alguma reflexão. Em que ficamos, mudo ou não mudo de vício? E posso ou não deduzir no irs as despesas que tive com o curso?
Não deixa porém de ser verdade que tem lógica, aos olhos dos caçadores de receitas para a manutenção dos vícios do estado, a maior penalização dos fumadores (que continuam a comprar a matéria-prima às claras, desde que abifem com o imposto de selo); a enorme esmagadora maioria desses agarrados ao fumo, mesmo depois de muitos anos de vicio, consegue manter raciocínios coerentes, comportamentos razoáveis, moradas conhecidas, toda uma panóplia de defeitos que os forçam a manter-se em empregos remunerados, remunerações essas que acabam por se traduzir, em muitos casos, no crescimento dos seus activos, portanto, alvos que, indefesos, mesmo bufando, pagam mesmo!

Um aviso público à minha Maria e aos meus putos, sem qualquer relação com o texto anterior: transferências, a partir de agora, só para debaixo do colchão da cama do quarto de costura! Know what I mean? Quem não souber inglês, pode pedir ajuda a qualquer um dos alunos que frequentam essa disciplina na universidade da terceira idade da cidade de Tondela.

Tuesday, May 29, 2007

8, 15 dias

(cartoon by Chris Madden)

Quem não conhece alguém que, por causa de um susto, tenha alterado rotinas e comportamentos? Por exemplo, alguém que, confrontado com o resultado das suas ultimas cinquenta e duas análises ao sangue, tenha decidido, de imediato, deixar de beber sumo de uva nas quantidades habituais e passar a beber só água, tal-qualmente os camelos da outra margem ou alguém que, depois de ter escaqueirado o popó contra o poste da luz pública, por causa dos pneus carecas na chuva miudinha, tenha tomado a decisão de começar a comprar pneus novos a cada quinhentos quilómetros percorridos.

Aconteceu-me no último fim-de-semana. Um susto e a consequente prometida mudança. Para já, dado o curto espaço de tempo entretanto decorrido, não passa mesmo de promessa mas a minha determinação, alimentada pelo medo, está, por enquanto, firme e hirta como o aço.

Éramos quatro: eu, a minha Maria e os meus progenitores. Nos bandulhos: pastéis de bacalhau, rissóis, moamba de pato, gelado de natas e chocolate e o famoso leite-creme da tia Arlete. Lubrificante: duas garrafas de tinto, reserva de 2001 da Quinta da Espinhosa. A conversa fluía com a ligeireza apropriada ao repasto. Subitamente, uma deriva sexista abateu-se sobre os homens presentes na mesa, a propósito da argumentação usada pela minha Mãe para justificar aquela que seria, para ela, a grelha ideal para a partida na grande corrida para o Além: primeiro vai ele e depois, oito, quinze dias no máximo, vai ela. Porquê, por esta ordem? Por duas razoes: ele é mais velho e – esta é que é a grave, a tal que me pôs a tremer de medo – porque ele, sozinho, seria absolutamente incapaz de se governar! De notar que, no caso, se trata de argumentos inatacáveis!

Foi o olhar de “estás a ver o que te espera também a ti, ó meu grande nabo” que a minha Maria me lançou, que provocou este frenesim que me deu para mudar a minha vida!
A partir de agora – decidi! – vou-me esmerar e aplicar nas lides caseiras e na arte de bem cuidar sozinho de mim, com a mesma tenacidade com que me tenho aplicado no ténis, no descanso solitário de papo para o ar ou no jeito de levar à boca os vários tipos de copos com que sou obrigado a lidar (modéstia à parte, eu que até nem sou menino para me gabar, gostava, mas a sério, gostava mesmo, gostava que vissem a técnica que aperfeiçoei a emborcar champanhe: é um espectáculo..!).

Na fracção de segundo que durou esse olhar de “não perdes pela demora”, uma longa-metragem das milhares de imagens sobre as minhas inutilidades passou-me diante dos olhos. Nelas pude constatar a catrefada de genes herdados do meu Pai, defeituosos todos eles, coitaditos: as camas mal feitas, feitas sem o necessário cuidado em puxar bem ou bem alisar o lençol de baixo, a gola do lençol de cima sobre o edredão que, de tão torta, mais parece a estrada para o caramulo, as almofadas que ficam sempre como se tivessem acabado de sair de debaixo das rodas de um autocarro de dois andares cheio de turistas gordos, os casacos dependurados em tudo quanto é cadeira pela casa fora. E as refeições? Quando é que foi a última refeição que eu cozinhei para mim ou para a família? Tive que recuar seis anos, para me poder vislumbrar, de avental, a fazer uma torrada! Nesse ano entrou ao serviço o meu filho mais novo, promovido a cozinheiro ajudante, com a função de nos alimentar quando a Maria, por qualquer desgraça, não estiver disponível.

Tudo isso é passado! Juro que vou mudar! Não me façam já a grelha para a partida!



Mais um

(Image: Michael Mucci)

Por cortesia de um fervoroso adepto do novo campeão nacional, adepto que por sinal é o pai das netas dos avós dos meus filhos, deixo-vos a seguinte definição: "casamento é um relacionamento a dois, no qual uma das pessoas está sempre certa e a outra é o marido." Eu sei, é antiga e foleira, mas, com tranquilidade, com toda a tranquilidade, eu tive foi medo de perguntar se sabiam qual é a diferença entre o treinador dos lampiões e o nosso primeiro; é que a resposta implica uma graçola sobre a licenciatura do senhor político e, já se sabe, não se pode andar a brincar com o canudo dele.

Que o diga aquele senhor professor de inglês, antigo deputado pelo PSD, a exercer, há vinte anos, funções numa direcção regional do ministério da educação e que por ter, alegadamente, brincado com o dito coiso em conversa com um colega, logo foi preventivamente suspenso, por vergonhosa falta de respeito, pela sua zelosa directora geral. Dizem, algumas más línguas, que a guardiã do templo e do bom respeitinho devido ao nosso primeiro, até já foi, mera coincidência, colaboradora dum actual ministro, aquele que (quer) manda(r) nos jornalistas.

A propósito de jornalistas, aquele que na TVI, o canal de televisão do cardeal Pina, ficou com a responsabilidade de “traduzir” o discurso que o papa Bento XVI fez no Brasil, deve ter sido vitima duma alergia qualquer, certamente derivada à deficiente qualidade do estado do ar que andamos a respirar (como diz Pacheco Pereira), ou então sofre da tal de claustrofobia de que falou o deputado Paulo Rangel, claustrofobia que também me afecta quando sou forçado a andar no metropolitano, em túneis muito compridos, ou em elevadores apinhados, com os consequentes ataques de pânico e ansiedade. No discurso, Bento XVI condenou o capitalismo e o comunismo mas, na TVI, na legenda que apareceu no ecrã a sintetizar a peça jornalística que o apresentador do noticiário narrava enquanto passavam as imagens da visita, a palavra capitalismo foi “traduzida” para liberalismo.

Atendendo à ideologia do senhor cardeal administrador da estação e à dos seus patrões, há que reconhecer a coerência na preocupação em poupar o “capitalismo” e diabolizar o liberalismo. Bem analisada a coisa, comprovada pela dura realidade quando a queremos ver, quando a conseguimos ver ou quando no-la deixam ver com olhos de ver, é muito mais fácil e corrente os pseudo democratas, de direita e de esquerda, conviverem com o capitalismo ou com o comunismo do que com o liberalismo (ou neoliberalismo, como, parece que, por pirraça, gostam de dizer).

Os que se diabolizam o liberalismo, como gostam, querem e precisam do estado em tamanho gigante e omnipresente, sempre que cheiram alguma agitação nas águas, para poderem justificar a manutenção do mar chão, lá vão colando carradas de, já gastos e estafados, rótulos e avisos alertando para os terríveis efeitos secundários a que as gentes do povo se arriscam quando sujeitas a uma prolongada exposição aos pensares e às práticas dessa gente ímpia e sem escrúpulos.

E, como veículos preferenciais de transmissão, usam boys. Um deles, também jornalista, durante muitos anos ligado à direcção do diário do regime, o Diário de Noticias, é agora, finalmente, um assumido assessor, num ministério. É como o meu grande FCP e os campeonatos: mais um!

Thursday, May 17, 2007

Pardais


Haverá alguém que duvide – ou que tenha a distinta lata de duvidar – que Maio é o mês mais porreiro, o mês mais fixe de todo o ano, o mês que mais génios por atacado trouxe ao mundo?
Confesso que, assim de repente, de facto, só me vem á ideia um nome, o nome dum génio famoso que possa atirar, para cima desta folha, como prova da veracidade do que escrevi, assim a modos que, zás, tomem lá e embrulhem. Sabem como é, é tanta a fartura de nomes famosos vindos ao mundo em Maio que a gente até entope quando tem que dar mais que um exemplo! Mas, quando me lembrar doutro, já cá volto.

Dito de outra maneira e para pôr as coisas mais terra a terra, este mês está para o calendário como o meu clube está para o futebol: é o maior!
Para o caso (improvável, impensável e inimaginável) de, no próximo fim-de-semana, apanhar outro susto (ou pior!), informo que já pus no bolso das calças um saco de plástico e um comprimido para a azia, daqueles que guardei, bem guardadinhos, para dias maus. Não quero que se preocupem com o meu mal-estar nem que julguem que sou apanhado desprevenido.

Apesar de todos os atributos que fazem deste mês o tal, o especial, o único, há coisas que, nos últimos anos, se vão agravando e que eu detesto. Ainda na semana passada, o senhor director, no seu ponto final, escrevia sobre o prazer que sentia ao assistir a mais um encontro da passarada. Espero que ainda vejo mais uns quarenta encontros mas olhe, a mim é que encontros desses não me dão gozo nenhum!

Está visto que o senhor não tem, a rodear a sua casa, uma vedação de chapa toda cagada por essa passarada toda! Eles são pardais, melros, pombos, rolas, o diabo a quatro! É uma rebaldaria pegada e eu que me amanhe! Conhece as cataratas do Niagara? Então fica com uma ideia do meu problema.
A sério, a coisa é tão grave que, se eu não fosse tão preguiçoso, se calhar tinha que pintar a malvada da chapa todos os anos. Pintar ainda é o menos, o pior é que primeiro tenho que raspar, com uma lixa, toda aquela … coisa.

Ah, que saudades que eu tenho dos tempos em que se podia andar pelos campos a dar uns tirinhos com uma espingarda de pressão de ar, como quando eu era puto, lá pelas bandas do Beco! E o meu irmão? Eia pá, esse gajo é que era um perigo! A bicharada ficava logo toda apardalada quando o viam, entravam mesmo em parafuso porque ele, mesmo quando falhava o alvo (o que era raro), havia sempre algum que morria de susto.

Ando a ver se consigo convencer um dos dois hóspedes, ambos estudantes, que tenho agora a viver cá em casa a ir lá para fora fazer de espantalho. Como é difícil apanhá-los dentro dos meus horários, já lhes deixei várias notas escritas. Sem resposta, até ao momento. Estou a pensar fazer-lhes uma espera mas a minha Maria tem-me travado, estão a ver, ela tem pena deles, diz que lhe fazem lembrar os nossos filhos.
É mesmo bronca, como se os nossos filhos andassem por ai como estes dois pardais: fora do ninho, até às quinhentas da matina! Sempre!

Maio de 2007

Foto daqui


Como hábito, depois do debate a que assisti em directo e depois de ter lido, na Internet, uma série de jornais e de blogues portugueses, franceses, ingleses e americanos, fiquei deprimido. Como hábito, fui confrontado com o facto de ter nascido desprovido de ferramentas de interpretação, especialmente quando a análise envolve bate papos entre personalidades que representam a direita e a esquerda. Nestas alturas, só não afinfo com a cabeça nas paredes porque também não sou parvo a esse ponto mas, que fico deprimido lá isso fico, por o meu ponto de vista ser, quase sempre, contrário à maioria das opiniões publicadas.

Tornou a acontecer no final do debate entre o senhor Sarkozy e a senhora Ségolène Royal. Eu sei que o meu francês não é muito melhor do que o meu japonês e que até posso ter percebido mal quase tudo o que foi dito; eu sei que sou tendencioso como o caneco e que, nas curvas, descaio mais para a direita mas …que diacho! … quando quatro em cinco opiniões publicadas davam a vitória à senhora e, para mim, ele, o senhor, é que tinha sido – de longe – o ganhador, estoiraram-se-me os pirolitos, passei do estado sólido para o gasoso em três tempos, fui para a prisão sem passar pela casa de partida!

Duas horas de paleio e a boa-nova que, maioritariamente, correu mundo foi a da descoberta de excelentes níveis de capacidade de indignação, de resistência e de combatividade da senhora Royal, fruto da sua enxofrada reacção a uma afirmação do senhor Sarko que, surpresa das surpresas, afinal não se enfureceu, sabe-se lá quantos calmantes tiveram que lhe dar para que ele se não irritasse e se não afiambrasse à garganta da madame.

Nada, rien, nickles, zilt, sobre a incapacidade da senhora em justificar, mais em detalhe e a pedido do senhor seu oponente, algumas das suas posições, nomeadamente sobre a segurança, as leis do trabalho, os impostos e os serviços públicos, a economia, enfim, sobre uma série de coisas chatas e corriqueiras com que a arraia miúda é obrigada a confrontar-se diariamente. Ia até jurar que houve um momento em que ela patinou às duas rodas mas deve ter sido impressão minha (só pode, pois nunca mais vi esses preciosos segundos de fita).

Amuado, atirei-me enrolado para um canto e lá fiquei até às sete horas da tarde de ontem, domingo, hora a que os telejornais avançaram com as primeiras projecções sobre as eleições em França.
Então, assustado, encolhi-me ainda mais porque o meu canto ia ser pequeno demais para me albergar a mim e aos milhões de deprimidos analfabetos franceses que não souberam, hélas, votar na poupée de cire, poupée de son.

Cairá mesmo o céu em cima da cabeça destes irredutíveis gauleses se o novo presidente levar à prática promessas eleitorais como, por exemplo, a de meter na gaveta o famoso legado de Maio de sessenta e oito?

Como me sobraram, de patuscadas anteriores, algumas pastilhas contra a azia, vou distribui-las por aí (a começar pelo director do JN) mas, manda o bom senso, vou ficar com um par delas … para mim e … à cautela.

Monday, April 30, 2007

Azares


(seen in www.atangledweb.typepad.com)

Alarmado e alertado pelas noticias recentes sobre os atentados terroristas em Marrocos e na Argélia, reivindicados por franchisados do grupo do Mr. Bin, decidi, num impulso, rumar até ás terras do Algarve, numa acção de vigilância costeira.
Berrei para a Maria: “Maria, liga aí para o sul, reserva lá uma caserna para nós dois na semana 17, traz-me uma lata de cerveja do frigorífico e faz as malas. Por esta ordem, ouviste?” (Não foi exactamente assim, mas dá um toque de macho!).

Hoje, véspera do regresso à minha casinha, sinto-me um bandalho e um traidor à minha civilização, os remorsos bailam-me na corneta ao ritmo desenfreado da salsa e tudo por culpa daquele maldito impulso. Saí da capital como paladino defensor dos costumes ocidentais face à ameaça do Islão radical e aqui me tendes, três dias passados, caído em tentação, adorador confesso da lei da “sharia”.

Começou mal a expedição, com muita chuva e pouca circunstância à chegada; fosse eu um gajo supersticioso, teria enchido o depósito do carro, rodado o volante trezentos e sessenta graus e regressado à base. Mas não, nasci completamente desprovido do sexto sentido e fiquei. Nessa noite, nas ruas, nos restaurantes, nos cafés e nos bares, vigilantes vindos do reino de Ricardo, o Coração de Leão, a pele já maquilhada de vermelho vivo, sandália aberta e meia branca, encharcados em bebida e armados de tacos de golfe, emprestavam à guarnição um tom de festa que verdadeiramente se não vivia.

Primeiro sinal de preocupação: tinha-me esquecido dos binóculos, arma essencial para aquela tarefa. Estava na cara que eu, que sem óculos não vejo um boi à frente do nariz, sem os binóculos também não ia topar os invasores, lá longe na linha do horizonte, mesmo que eles estivessem montados em cáfilas de camelos dentro dos barcos.

Segundo sinal de preocupação: a cerveja, liquido fundamental à manutenção de elevados níveis de alerta, absolutamente indispensáveis neste género de missões, foi-nos cobrada a seiscentos paus por cada copo de plástico, copo que, diga-se de passagem, levava menos liquido do que uma mini.

Terceiro e decisivo golpe: a Maria enganou-se na marcação da semana na caserna e nós só tínhamos licença para vigiar a costa na semana seguinte! Entretanto, com tanto vigilante vindo de fora, não havia casernas vagas. Bonito serviço! A Maria diz que o engano foi meu mas, como toda a gente sabe, isso é falso, só pode ter sido erro dela.

Resultado: sucumbi à tentação da tal lei da “sharia” imaginando os nossos tribunais e os meus pares a passearem-me em ombros, louvando-me e não punindo, por ter estrafegado a minha Maria, com as minhas próprias mãos, mais o estafermo do vendedor de cerveja (caríssima) na praça pública. Infiéis!

Botões

(foto de Ana Baião no Expresso)


Tiro o chapéu, bato palmas e reverencio-me a Pina Moura! Disse ao povo que não foi, nem o seu percurso político nem o seu estatuto de ex-governante e de deputado da nação que levou o grupo espanhol Prisa a escolhê-lo para chefiar a TVI mas sim – segurem-se! – o seu currículo enquanto gestor. Depois de ter dado um enorme e reconhecido contributo para o monumental rombo nas nossas contas publicas, esbanjando, em redistribuição selectiva, a riqueza que não era dele e que não lhe custou a ganhar – cumprindo, na perfeição, a máxima do “made in socialismo” – acabar por ser seleccionado pelos seus dotes de gestores, é obra!
Disse mais, disse que era óbvia, também, a existência de uma opção ideológica na sua escolha. Aleluia! Mais vale tarde do que nunca! Finalmente, alto e bom som, um socialista de peso, apregoa o mesmo que há muito defendem, entre outros, os liberais, que todos os órgãos de comunicação social devem dizer, claramente, à sua potencial clientela, quais as suas posições ideológicas. Evita-se comprar gato por lebre, fazer-se passar por algo que se não é, que não se consegue ser: sempre isento e imparcial.
Pelo silêncio dos outros socialistas fica-se com a sensação de que, de repente, por artes mágicas, toda a família partilha desta opinião, o que, pelo menos a mim, me parece um pouco estranho e bizarro, tendo em conta alguns histerismos do nosso passado recente. Ou então, o silêncio, tem a ver com o facto de ser mais um órgão de informação a ficar nas “nossas” mãos. Em todo o caso é (mais) uma mudança, daquele espectro ideológico, no sentido certo. Tardia, como hábito, mas aquelas mentes …

Para exemplificar esta opção em nome da transparência, citou os seguintes jornais, todos proclamados opositores à guerra no Iraque: o espanhol El Pais, os americanos New York Times e Washinghton Post e o francês Le Monde. Curiosamente, em todos estes jornais, e não apenas relativamente ao Iraque, será mais fácil encontrar dez noticias a elogiar as posições das “esquerdas” (das moderadas às mais radicais) do que duas a defender as posições das “direitas”. Acredito que muitos portugueses conhecem, pelo menos, um daqueles jornais, porque eles foram, durante as últimas décadas, muito citados como informação de referência. Ainda continuam a ser, mas agora há a Internet e outras ferramentas libertadoras, de modos que já deu para perceber que, afinal, também há jornais e televisões de “direita”, muitos deles líderes incontestados de audiência, inclusive nos países de origem dos jornais atrás referidos.

Sobre Portugal, o senhor Pina Moura, deu como exemplo, o apoio à guerra no Iraque, como uma tomada de uma opção ideológica feita jornal O Publico, na pessoa do seu director. No entanto, ao contrário do que fez quando citou os ditos jornais estrangeiros, sentiu-se na necessidade de adjectivar a opção ideológica do senhor José Manuel Fernandes, considerando-a como “acéfala e cega”. Presumo que por contraponto à opção “inteligente e visionária” dos seus camaradas globais de informação esquerdista. Foi como quem diz, eu pino-te (expressão, caída em desuso, moda quando eu era magro e cabeludo, que parece querer reaparecer no nosso léxico)!

Numa democracia de mercado livre (diz-se que é este o nosso modelo), os botões do comando de controlo remoto de cada televisor são o instrumento que determina o grau de sucesso de cada canal; se a informação da TVI, depois da tomada “de facto” do poder pelos socialistas, em momentos de verdadeiro aperto (como o do caso do percurso académico do nosso primeiro), for a mais vista, parabéns aos seus novos administradores.


Tuesday, April 10, 2007

Bichas e putos



Já não me lembrava de apanhar tanto trânsito como o que apanhei ontem, Domingo de Páscoa, no regresso da minhas viagem até à cidade do Tourigo, capital da casta vinícola que nos aquece o coração e nos põe a cabeça à roda!

Demorei cinco (!) horas para fazer o trajecto que habitualmente faço em duas horas e meia; às vezes até demoro menos, mas isso agora não interessa nada. Passar por Leiria foi um inferno, mais de uma hora desde que saí da A1 até que entrei na A8! Mais tempo que eu sei lá o quê.

Os meu putos – felizmente! – já passaram aquela idade do “já falta pouco?”, “ainda falta muito?”, “e agora, quanto é que falta?”, “nunca mais chegamos!”. Felizmente, para eles! Com todas aquelas bichas ontem, se os gajos me tivessem chateado a molécula, eu mandava-os para o maneta ou para a independente, para ver se ganhavam o hábito de andar caladinhos.

Agora que já estão crescidos, mal se ouvem, é um sossego! Cada um anda com o seu aparelho de reprodução musical e mal entram no carro enfiam logo as bananas bem fundo nos ouvidos, encostam as cabeçorras aos vidros, a boca aberta e o olhar perdido no vazio. Como só são capazes de ouvir música com o volume do som no máximo, já marquei duas consultas médicas: eles vão ao otorrino e eu vou ao psiquiatra.
Nunca autorizei que lhes tirassem fotografias naquelas poses; sabe-se lá, se um dia, por descuido, alguma ia parar à minha carteira e arruinava a minha reputação. Se há coisa de que não preciso é de ajuda para me enterrar mais.

A meio da viagem, como precisam de esticar as pernas que já foram curtas, forçam-me a conviver com as traineiras que trazem nos cascos, sacudindo-as mesmo por debaixo do meu nariz. Quando os pés deles começaram a crescer e o meu espaço vital a diminuir, ainda esboçava

um resmungo e sacudia-lhes as canelas; agora, a coisa está difícil. Eles estão para mim como o emplastro do Irão está para a ONU: repete lá outra vez o que é que tu dizes que nos fazes se a gente não tirar os ténis daí?

Como comi que nem um abade, o ritmo lento da viagem tem um impacto terrível na minha vitalidade; o cabrito assado com batatas e arroz que mamei mais o champanhe que emborquei, põem-me no mesmo patamar de letargia em que andam, há anos, os serviços de inspecção do ministério do ensino superior.

Por isso, não vou à luta, prefiro chatear os condutores dos outros carros que também estão na bicha; se vejo um a virar o volante um pouco mais do que aquilo que eu acho que deveria ser a trajectória dele, zás, acelero e encosto-me ao da frente, depois travo bruscamente, acelero outra vez, encosto-me, travo, acelero, encosto, não travo e pimba, espeto-me!
A culpa é dos putos! Ainda estou para perceber que raio de moléstia é que dá aos avós!

Monday, April 02, 2007

Roubo de informação



Em vez de malhar no ceguinho, que neste caso é aquele senhor que já vai no terceiro curriculum desde que tomou posse, vou desancar nas nossas “referências” que dão pelo nome de O Publico e Expresso, dueto que ontem foi referenciado pelo professor comentador, durante a sua palestra dominical no canal estatal, como sendo os donos das noticias relativas à trapalhada em torno da biografia académica do ex-mas-licenciado engenheiro que manda no governo da gente. O que o professor disse não corresponde à verdade, é uma rematada mentira e por isso leva um …oito, com favor!

O pai, a mãe, o avô e a avó da investigação são uma só pessoa, António Balbino Caldeira, criador do blogue “Do Portugal Profundo” (http://doportugalprofundo.blogspot.com/) ; os filhos, tios e primos, são alguns dos seus leitores.

Data do dia 22 de Fevereiro de 2005, logo após as últimas eleições legislativas, o seu texto inicial sobre esta matéria; entre os primeiros contactos oficiais com pedidos de esclarecimento consta uma carta, de 14-04-2005, dirigida ao Senhor Inspector-geral da Ciência, Inovação e Ensino Superior e da qual transcrevo apenas o ponto inicial:
“1. Do curriculum oficial do senhor Eng.º José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa - publicado no sítio do Partido Socialista na Internet, no blogue e sítio pessoal da Internet - consta que o mesmo é "licenciado em Engenharia Civil, concluiu depois uma pós-graduação em Engenharia Sanitária pela Escola Nacional de Saúde Pública". Veja-se ainda a sua biografia no sítio da Internet da Assembleia da República, onde é referido que tem a profissão de engenheiro civil. Mas estas informações são escassas quanto ao percurso académico do visado.”

Aquando da publicação da sua investigação, o diário O Publico, apenas incluiu a seguinte nota: "(Q)uem desde há muito escreve sobre a biografia académica de Sócrates é António Balbino Caldeira. Professor no Instituto Politécnico de Santarém, publica desde 2005 os seus textos no blogue Do Portugal Profundo".

Sobre a investigação do Expresso, remeto para um texto publicado na sexta-feira, dia 30 de Março:
“Nota do Portugal Profundo: Este post foi escrito no dia 27-3-2007 e mantido sob embargo até ontem à tarde, a pedido das jornalistas do Expresso Mónica Contreras e Rosa Pedroso Lima a quem, nesse próprio dia, facultei esta informação (a licenciatura ao domingo, descoberta pelo nosso comentador Irnério...) e o Dossier Sócrates. Do Portugal Profundo cumpre sempre os seus compromissos.O Expresso de hoje, 31-3-2007 - pp. 10 e 11 e comentários nas pp. 2, 3, 9 e 12 -, usa informações do Dossier Sócrates Do Portugal Profundo, sem indicação da fonte. O blogue Do Portugal Profundo (muito menos o seu URL) não é mencionado em qualquer dessas peças, cuja informação inédita de base aqui foi publicada – o mesmo já se tinha passado, aliás, na semana passada. Não creio que a responsabilidade da omissão pertença às duas jornalistas”.

Devem pensar que, ao não mencionarem as fontes, a malta vai mesmo pensar que foram eles a fazer o trabalho de investigação. Já lá vai o tempo.

Tuesday, March 27, 2007

Decisões



Quando era puto, naquela idade em que podia dar-me ao luxo de me chatear por causa dos berlindes, da macaca, do futebol ou dos resultados dos concursos, apanhava uns valentes cagaços sempre que me punham ao comando do carro das vacas, nas excursões matinais que então fazíamos aos pinhais, cujo objectivo era roçar o mato em vez de o fazer nas paredes.

O bafo delas ficava ao nível da minha nuca, de modos que, de cada vez que eu era obrigado a olhar para trás, borrava-me todo, com a enormidade daquelas bestas e das suas respectivas hastes. O som dos cascos a martelarem o alcatrão ajudava ainda mais à festa e eu sempre à espera que uma delas escorregasse e me deixassem no mesmo estado em que ficavam as suas bostas. Creio que uma delas se chamava “castanha” e a outra “não-sei-quantas”.

Um dia, estava eu na casa de banho, ouvi-as a conversar e quando finalmente consegui ligar o tradutor automático já só consegui ouvir a “não-sei-quantas” a dizer: “Ainda bem que amanhã já é segunda-feira e vamos andar com a canga!” A castanha, bufou desconsoladamente e, sacudindo sete moscas com a cauda, respondeu-lhe: “Tu não regulas bem dos cornos, pois não?”

Lembrei-me deste episódio durante uma conversa que tive, este fim-de-semana, com um amigo meu que mora no Allgarve (senhor director, peço-lhe o obséquio de não corrigir porque agora é assim que se escreve. Juro!), mais precisamente em Vila Real de Sto António.
Faminto de notícias da sua terra, mal me apanhou sozinho, fez de mim o seu telejornal. Contei-lhe todas as novidades mas dei um especial destaque à (pequena) proposta de redução de alguns impostos, feita pelo líder do partido social-democrata e das reacções contra que provocou, mesmo dentro do seu próprio partido. Embalado, despejei-lhe a minha lengalenga, estes gajos são todos iguais, aumentam os impostos com o argumento da justiça social, depois é só descobrir as carecas, reformas milionárias aos quarenta e pouco anos, salários fabulosos em empresas municipais, cargos e custos fictícios, o costume, tudo à nossa custa!

Armado em esperto, sacudiu da camisa a cinza do charuto e estucou-me: “Queres pagar menos impostos, pagar o IVA a 16%, a gasolina a 0,98 cêntimos e outras mordomias? Então muda-te! Vai viver para a fronteira! Em vez de refilares, muda-te!”

Mudar de vida foi também o que quis uma marroquina a viver na Alemanha, ao apresentar em tribunal um pedido de divórcio, com base nos maus-tratos infligidos pelo marido.
Uma juíza, alemã, cidadã de um dos estados que há cinquenta anos ajudou a fundar a nossa comunidade, negou-lhe essa possibilidade porque, de acordo com a sua douta sentença, na religião islâmica, bater nas marmanjas, é um direito que assiste aos homens.

Mudar-me para a fronteira? Mas qual?

Thursday, March 22, 2007

Calores




Quem diria que, depois de um belo e solarengo fim-de-semana primaveril, a semana ia começar com tanto vento e com um frio de rachar? Ainda por cima, como hoje é dia do Pai, eu já me estava a babar todo só de pensar que ia poder baldar-me ao trabalho e ir apanhar sol para a praia, os meus filhos que dobrassem a mola por mim; agora, se quiser ir, terei que carregar com o estafermo do edredão e do saco cama e, quer-me parecer, até com o guarda-chuva. Não vale o esforço!
Março marçagão, de manhã és porreiro, à tarde és um grande … maganão! É assim o ditado, não é?

Enquanto que pelas terras de besteiros eu andava a levar uma coça no jogo da malha, batido sem apelo nem agravo por um casal de idosos – com idade para serem meus Pais – dois seres sem escrúpulos, batoteiros e manhosos (fingem que lhes custa muito a dobrar a espinha e as pernas para apanhar aquelas coisas redondas e depois, pimba, é sempre a mandar o meco abaixo), aqui na capital, a autoridade policial também andou a levar pela medida grande, embora neste caso os malhadores fossem ganapos. Para a câmara e microfones da SIC, putos de ambos os sexos, com aparência de andarem aí pelos dez anos, juraram, que “agora é que os matamos a todos, cá no bairro eles não mandam nada”. Para o canal televisivo que é meu, teu e dele, os distúrbios, ocorreram num local que é um “mosaico multicultural” embora a censura tenha impedido as crianças de darem voz ás suas promessas de justiça. Se um mosaico bate assim …

Miúdos, um pouco mais velhos do que os do degradado bairro, pertencentes ao mesmo agrupamento politico, alguns deles até com direito a sentarem o dito cujo no nosso parlamento e, ao que consta, com um pouco mais de educação, terão estado a um passo da galheta geral. Relatos vários, falam em prolongada, intensa e interessante troca de galhardetes verbais, levando à prática os ensinamentos adquiridos em tempo de eleições com as passagens das suas caravanas pelos mercados de peixe. A batatada, técnica que apenas se consegue adquirir nas feiras, terá ficado para outros episódios.

Um eterno ex-miúdo, que anda por aí, associado do partido a que ainda pertence o deputado Jorge Neto, ameaçou-nos, em entrevista televisiva, em bicos de pés e ar sério, de que, por ele, podemos ter que contar com ele. Outra vez!

Todos estes acontecimentos foram, ou são, maus para a minha saúde física e mental. Se a eles juntar o trambolhão que aconteceu no sábado à noite em pleno estádio do dragão, o resultado é uma “Tello” do caraças!

Se os primeiros calores tiveram este efeito, nem quero pensar no que vai ser o verão!

Assédios e cultura


Photo by Rachel Papo

Não admira que haja tanta malta a malhar nos israelitas! Até eu começo a pensar que os tipos andam mesmo a pedi-las. Depois de anos de esforços, notoriamente antidemocráticos e anti civilizacionais, lá conseguiram fazer aprovar uma lei que protege e defende as jovens adolescentes, obrigadas a cumprir vinte meses de serviço militar, dos actos de assédio e de violação sexual praticados pelos homens, em particular pelos seus superiores hierárquicos. É lá coisa que se faça naquela parte do mundo? Em qualquer parte do mundo não ocidental?

Isto é o resultado desta nossa velha e estúpida mania de queremos impor os nossos valores e os nossos costumes a outras civilizações, humilhando-as e despindo-as dos seus próprios valores, valores que vêm de há séculos e que, não sei bem para quê, há que preservar. Gajas? Mulheres? Ó pá, não se metam nisso, tratem de manter as vossas destapadas (ih-ih-ih-ih-ih, nham…nham!) que das nossas cuidamos nós, afiambramos-lhes uns tabefes e umas violações de quando em vez, só para não perder o jeito. E, para não dar cabo da mercadoria muito depressa, deixem-nos lá ter umas quantas mais em stock, mesmo que a malta viva aí ao pé do vosso museu do Louvre. Multi qualquer coisa, como vocês tão bem dizem!

Não acho que seja coscuvilhice esta mania de nos intrometermos nos costumes dos outros; não senhor, isto é muito mais grave: é colonialismo! Do puro e do duro! E, como todos muito bem sabemos, abaixo com ele! Que dizer do nosso Infante, candidato ao posto de o maior português de todos os tempos, pioneiro na globalização deste colonialismo cultural? Bandalho! Porco colonialista! Vai para casa, ou como se diz em esperanto, a língua universal, go home mr Bush!

Não admira que o emplastro do Irão e os seus muchachos, entre outras brilhantes ideias, andem por aí alegremente a querer riscar Israel do mapa. Acho bem! Sentado, espero que os activistas do costume encham as ruas das ocidentais cidades e que partam, em manifestações nunca antes organizadas, em protesto contra mais este abuso dos direitos dos pobres violadores de mulheres e em defesa do tal multi não sei das quantas. Como já estão treinados, os primeiros a ir, podem ser aqueles pacíficos dinamarqueses que, há dias, resistiram heroicamente ao despejo – legal, hélas! – de um centro de juventude “alternativo” (não sei se é conotação com a palavra alterne ou com a arte do toureio a cavalo).

Atenção, quando eu digo que, sentado, espero que partam, não estou a querer sugerir que peguem na trouxa e que viajam para se manifestarem em sítios tão horrorosos como o Irão ou a Arábia Saudita. Não, isso não! Eu ia partir o meu coco a rir e vocês, é bom de ver, também iam partir o vosso. Consta que os camaradas de lá são gajos para não ligar peva aos vossos direitos humanos. Especificidades culturais!

Partam, no sentido de quebrar, destruir, como é o vosso pacífico hábito, uma pipa de montras, carros e outros objectos, só para mostrar a esses porcos capitalistas ocidentais, proprietários desses símbolos da exploração do homem pelo homem, como é triste e vergonhosa a vida deles em comparação com a vossa – dura, excitante e perigosíssima.

Monday, March 05, 2007

Muralha de aço




O ministro afirmou, com ar sério, que o Estado não tinha dado nenhumas instruções à CGD para que esta votasse contra a desblindagem dos estatutos da PT (Portugal Telecom). O André Agassi apesar de ser um dos melhores tenistas do mundo ainda não me conseguiu ganhar uma única partida. Eu também não estou a mentir!

A verdade do senhor ministro está escarrapachada no efusivo abraço entre o anónimo barbudo sindicalista e o magnata capitalista Joe Berardo, abraço amplamente difundido pelas televisões e que aconteceu antes da reunião da assembleia-geral da empresa de telecomunicações onde se discutia, na minha modestíssima opinião, muito mais do que o rumo da Opa feita pela família Azevedo (lembre-se que, há anos, o patriarca da família, o Eng.º Belmiro, porque os senhores deputados exigiam ouvi-lo sobre determinada matéria, os obrigou a levantar mais cedo e a abrir o tasco muito antes da hora habitual).

Aquele abraço ternurento explica muitas das razões para o nosso eterno atraso. Curioso como algumas das maiores fortunas deste país, donos de grandes empresas privadas, acabam por nos mostrar, em momentos decisivos, como afinal, ou lhes convém, ou então não conseguem mesmo viver/sobreviver sem a estado-dependência. O Joe, um conhecido especulador bolsista e hoje o mais mediático empresário do regime, concluiu há meses, um excelente negócio de arte com o poder central.

Ao senhor ministro, ao sindicalista e ao empresário capitalista falta juntar um senhor socialista bancário (ou um bancário socialista) e um senhor deputado do PSD para ficarmos com os ingredientes principais do cozinhado que, em lume brando, foi preparado e servido aos comensais.

Surpreendeu-me mais o senhor deputado! Eleito pelas listas de um partido que apregoa a defesa da iniciativa privada e a necessidade de reduzir o peso do estado na vida dos portugueses, quando chamado a comprovar na prática a sua ideologia, foi incapaz de fugir ao faz o que eu digo, não faças o que eu faço! Teve medo do mercado livre! Votou ao lado dos privilégios pela manutenção dos mesmos! Senhor deputado: qualquer pequeno accionista, que o senhor disse representar, que não quisesse vender, não vendia!

No fundo, estes artistas acagaçaram-se e recearam que, valendo cada acção um voto (assim como cada homem vale um voto nas eleições que elegeram o senhor deputado do PSD), as tetas da PT pudessem ser substancialmente reduzidas, contagiando as tetas das outras empresas privatizadas criando uma razia nos chupistas e enfraquecendo a capacidade de distribuição de tetinas para uma saudável manutenção do fluxo do liquido mordómico.

Ao senhor ministro, ao senhor sindicalista, ao senhor magnata capitalista do regime e ao senhor socialista bancário (ou bancário socialista) eu já topava de ginjeira; quanto ao senhor deputado do PSD, já andava desconfiado. Agora fiquei com a certeza!
Cá no burgo, ser liberal (no sentido europeu do termo) é obra! Estamos blindados! E mal pagos!

Sunday, February 25, 2007

Semelhanças




O homem de cabeleira farta e loira que está a falar, personalidade famosa e o criador da conhecida marca Virgin, tem um ar pesaroso. Atrás dele, no meio da paisagem rural, onde o verde predomina, vêm-se uma série de carruagens tombadas, peças de um comboio que descarrilou. Quando o acidente aconteceu a sua velocidade era de 150Kms por hora e, de acordo com informações preliminares já apuradas, o maquinista, ex-polícia e uma das 5 vítimas em estado grave, já tinha conseguido reduzi-la um pouco. Vistas do exterior as carruagens do Pendolino – composição fabricada com avançada e dispendiosa tecnologia – parecem intactas. Há, para já, a lamentar a morte de uma senhora de oitenta e quatro anos. São desconhecidas as causas mas parece que terá a ver com problemas nos carris. Um técnico, funcionário da empresa pública de manutenção das linhas está no local, a conduzir o inquérito.

O homem que está a falar, é o dono da empresa proprietária do comboio, uma empresa privada de caminhos-de-ferro inglesa, a Virgin Railways. Além de aventureiro, é tido como um empresário preocupado em investir, dinheiros privados, em tecnologia e conceitos que permitem gerar bons lucros a vender barato, produtos que outros vendem mais caro e com muito menos investimento: dos discos, às telecomunicações, às viagens aéreas, etc. A filosofia do seu grupo é analisar os sectores e investir onde acha que a competição é fraca e os serviços caros e maus. Uma das paixões do homem é o espaço; fundou a Virgin Galactic, empresa que, para ele, marca o início de uma nova era na comercialização barata das viagens espaciais. Apesar do primeiro voo estar programado para 2009, ele diz que não tem pressa, o dinheiro lá investido é dele, não tem ninguém a exigir-lhe prazos, não está numa corrida.
Veio porque achou que os passageiros e os seus familiares quereriam ver no local o dono da composição acidentada, tal como ele quereria se fosse algum dos seus filhos a viajar naquele comboio e ele não fosse o seu proprietário.
Chama-se Richard Branson e veio dar a cara!

Joaquim Barbosa é engenheiro e trabalha na área de sinalização da Refer, empresa publica que gere a rede ferroviária nacional.
Em meados de 2004 recebeu 120 mil euros (24 mil contos) de indemnização para rescindir o seu contrato de trabalho, quando o seu salário rondava os 5 mil euros (mil contos) por mês. No final desse mesmo ano de 2004, é contratado pela mesma empresa, a Refer, para dar assessoria ao novo conselho de administração. A ganhar à volta de 6 mil euros (mil e duzentos contos) por cada mês.
Eu, que ando a adiantar dinheiro meu, ao meu estado, por conta dos meus impostos e que fiquei ferido e a esvair-me em dinheiro com este acidente, apreciava os seguintes esclarecimentos:
Quantos Joaquim Barbosa estão registados na nossa base de dados, na base de dados do meu estado? Quanto é que nós vamos pedir de indemnização ao senhor Barbosa e aos senhores administradores da Refer por este descarrilamento? Foi só mesmo este? Quem é que nós vamos ter que despedir? Parte do dinheiro que nos vai – de certeza absoluta – ser devolvido por esses senhores pode servir para me devolver parte dos meus adiantamentos?
Aguardo que o dono da Refer apareça. A dar a cara

Saturday, February 24, 2007

Leituras





A direcção do DN – jornal que deixei de comprar desde que ela foi eleita – foi demitida na semana passada por um dos manos Oliveira, actuais proprietários do jornal. Não foi por minha causa! Eu, que nem o meu escasso cabelo consigo dominar, não ia agora que ia pôr-me em bicos de pés armado ao pingarelho; quando era rapazola e ainda tinha uma farta e encaracolada cabeleira, para tentar mantê-lo liso, domesticado e apresentável para um qualquer bailarico, molhava-o e atava uma toalha à volta da cabeça até secar – dai ter ficado com o cérebro assim, meio morto e congelado.
Mas fiquei contente por saber que fomos muitos a virar as costas a um jornal há muito dominado por jornalistas que são a escrita dos seus donos.

Na Venezuela, o bonacheirão ditador local lá vai aumentando a pressão á volta do pescoço dos seus concidadãos; com os preços dos produtos tabelados, uma inflação galopante e a desvalorização da moeda local, os proprietários de supermercados que retiraram os produtos das prateleiras, para não os venderem com prejuízo, ou os que os estão a vender acima da tabela foram ameaçados com o roubo, perdão, a nacionalização das suas lojas.
Entretanto vai vendendo petróleo abaixo do seu preço aos pobres americanos, através de organizações privadas americanas que, em compensação, passam anúncios televisivos elogiando o seu gesto benemérito.

O troglodita que escraviza os norte coreanos não só conseguiu que o deixassem mexer no taco depositado nas contas bancárias que tem em Macau como também consegiu a promessa de receber petróleo e autorização para continuar a comprar os miminhos a que se habituou. Em troca? A promessa de mais uns mesitos de (suposto) bom comportamento.

Outra excelente proposta de um importante líder islâmico da Malásia: um cinto de castidade para as mulheres se protegerem dos depravados sexuais e para os maridos se sentirem mais seguros.
Como estas piadas hoje viajam à velocidade da luz, o senhor já veio dizer que, na realidade, estava a brincar, aquilo não era para levar a sério. Ainda!

Na Jordânia, um jovem universitário de 19 anos que matou a sua irmã de 22 quando soube que ela tinha uma relação amorosa fora do casamento, apesar de divorciada, saiu em liberdade, por já ter cumprido a pena de três meses a que foi condenado. O juiz decretou que o jovem cometeu o assassínio num acto de raiva, ao abrigo do artigo 98 do código penal. A sentença inicial foi de 6 meses, comutada para metade por a família ter desistido das queixas e por ele ser estudante.

De visita à Turquia, o presidente do Banco Mundial, o americano Paul Wolfowitz, tirou os sapatos para ir à Mesquita. Espanto geral e o embaraço particular: dois enormes buracos, um em cada uma das meias que o senhor presidente tinha calçadas (fotografias disponíveis em http://yalibnan.com/site/archives/2007/02/toetotally_emba.php). Sinto-me honrado por ter tão ilustre personalidade como companheiro de desgraças.

Monday, February 12, 2007

Manipulações





Cal é a coisa qual é ela que ainda agora falei nela?
Cal, claro!
O que é que antes de o ser já o era?
A pescada! Muito bem. Bravo!
Qual é o partido português que terá cem por cento – 100% – dos presidentes de câmara, eleitos pelas suas listas, constituídos arguidos?
Não, não é esse … também não … errado … está quase … bingo, esse mesmo, o Bloco de Esquerda, do tele-evangelista frei Louçã.

Cem por cento dos presidentes de câmara constituídos arguidos é obra, quer dizer são todos, não escapa um, apetece perguntar como diacho é que eles são escolhidos, ou quem é que os escolhe, para caírem assim todos, como tordos, na alçada da justiça?

Este número, cem por cento de autarcas alegadamente constituídos arguidos, terá sido atingido, de acordo com um órgão de comunicação social, na semana passada em Salvaterra de Magos. Após buscas feitas pela policia judiciária, a presidente da Câmara Municipal local, teria sido constituída arguida num processo que teve origem numa queixa apresentada pelo proprietário de uma casa de diversão nocturna (onde simultânea e alegadamente se ensina a escrever livros), que terá invocado perseguição pessoal acusando a autarca de, alegadamente, o impedir de exercer a sua actividade apesar de, alegadamente, estar na posse de todas as licenças e alvarás exigidos.

Em pequena, pequenina mesmo, nota de rodapé devo informar que a autarquia desmentiu prontamente a noticia afirmando “ainda ninguém, nem a senhora autarca, a própria autarquia, qualquer vereador ou funcionário foi constituído arguido”.

Se foi desmentido, porque é que eu vim para aqui com toda esta lengalenga? Porquê? Porque não resisti a utilizar os ensinamentos sabiamente pregados por frei Louçã, pelos seus apóstolos e por todos aqueles que vivem da exploração da primeira nódoa que, diariamente, notícias deturpadas ou falsas deixam gravadas sobre muito gente desgraçada. Eu, pecador, me confesso por ter cedido á manipulação fácil das notícias veiculadas e dos números!

Falando em manipulação de números, através de um dos meus programas de televisão favoritos, chamado a Liga dos Últimos (RTP-N), fiquei a saber que, numa distrital de futebol de onze de Trás-os-Montes, há uma competição em que o campeão e primeiro classificado fica também em penúltimo lugar e que último classificado é afinal o vice-campeão graças ao brilhante segundo lugar.
Divirto-me a ver este programa feito só com noticias e reportagens sobre clubes pequenos, que militam nas distritais, com nomes esquisitos para todos os gostos, como o ADC da Correlhã, o GDR Fiolhoso, o JDC Gache, o Benfica, o Sporting, o Atlético, o Estrela da Amadora, etc.

Monday, February 05, 2007

Musicando



Hoje apeteceu-me relembrar alguma da música que eu ouvia até para aí aos meus quinze anos. Tinha acabado de cortar a relva e quando me sentei – com dores por tudo quanto era João – para recuperar do esforço inglório a que fui obrigado, zás …assim, do nada, pensei: ó tempo volta para trás! Por mais que eu lhes diga, a minha patroa e os meus putos, não acreditam que daqui a dois meses a porcaria da relva vai estar outra vez na mesma: crescida! Não sei que mais hei-de fazer para meter naquelas cabeças duras que não adianta, não adianta perder tempo a cortá-la porque ela volta sempre a crescer. Mas, de um contra três, o que é que se espera? Casmurros, nem com uma oração os demovo!

O mar enrola na areia, ninguém sabe o que ele diz, rebola e desmaia, quanto mais se enrolam mais só nós dois é que sabemos, eu sou o lobo mau, as brotinhas a quererem passear no meu Calhambeque, aquele meu paleio de eu te darei o céu meu bem, as chatices com a namoradinha de um amigo meu, a malta a berrar pega ladrão e o senhor policia, quando se apercebe que eu roubo corações e não jóias, grita quero que tudo vá para o inferno, todas estas aventuras fazem parte desses meus primeiros anos e recordo-me de berrar algumas delas, a pedido, com a minha, na altura, voz esganiçada (felizmente não há registos gravados …).

Françoise Hardy levou-me, a mim e a tous les garçons et les filles de mon age a passear pelas ruas de Paris; quis que ela dançasse une valse à mille temps para ver até onde lhe subia a mini-saia, olhei-a como quem lhe diz, ó filha imagina que eu sou o Adamo e que te vou pôr mes mains sur tês anches. Ela gritou, apareceu l´italien, educadamente peço-lhe vous permettez monsieur que eu estou aqui a falar com a fofa, viens ma brune, não tenhas medo, o gajo era mesmo bronco, engalfinhámo-nos e eu fiquei sem une mêche de cheveux; acabou por me caçar e dei comigo feito um mèteque uma ilha italiana. Ainda hoje, para mim, Capri c´est fini! Com un peu d´amour ou d´amitié lá me consegui pirar et maintenant eis-me com o Bécaud na Rússia onde ele troca l´importance c´est la rose pela bela Natalie a quem diz je reviens te chercher um dia para te levar para o meu pommier à pommes, não sei se estão a ver bem a coisa.

Nesta desbunda total, a Sylvie Vartan e o Hallyday enrolaram-se, ela jura que si je chante c´est pour toi ele agradece e retribui je t´aime…je t´aime...je t´aime. Quando a Dalida me vê foi logo naquela de t´aimer follement, não gostei dp género dela, muito ele e ela, vou ali e já venho, ela não desiste, ne me quites pas, ó boneca, vá lá, tenho mesmo que ir, j´attendrai, tudo bem, tu é que sabes, mas é melhores sentares-te.

Sou um pupett on the strings por causa das pernas compridas e nuas da Sandy Shaw, e pour un flirt com ela até o pino estou disposto a fazer, escrevi-lhe cartas de amor a marcar encontros para Lisboa à noite; quando ela finalmente aceita e eu a aguardo numa canoa do Tejo, aparece-me, vindo não sei de onde, o carrapito da dona Aurora e ainda hoje me comparam com a lenda de el-rei D. Sebastião: passado que seja o susto, hei-de aparecer … um dia!