Sunday, December 03, 2006

Desejos


Esta semana eu até tinha uma boa desculpa para me baldar e não escrever a minha crónica já que ando a servir de guia ao senhor que paga para eu produzir estas tretas mas, como sou um menino bem comportado, aqui estou eu, sentado à frente do computador, num domingo à tarde, a cumprir o meu dever. Há quase vinte anos que ele e a mulher vêm à capital, sempre nesta altura do ano, para comer pastéis de Belém. Estão viciados naquilo, na ficha clínica consta que a dependência remonta ao século passado, já tentei fazer-lhes uma desintoxicação à base de pezinhos de coentrada mas não resultou e as recaídas estão a ser cada vez mais penosas e, sinceramente, começo a perder a esperança.

Agora adoptei o que o tripeiros designam por “regime lisboeta” que é um novo tratamento à base de pequenos-almoços servidos entre as dez e meia e as onze da manhã, almoços muito ligeiros por volta das três da tarde – um pão pequeno com uma fatia, fininha, muito fininha de queijo ou fiambre – e á noite então lá os deixo ferrar o dente em qualquer coisa mais substancial, até porque, por essa altura, também eu já estou esganado de fome.

Podem fazer muitas críticas a este regime mas pelo menos cá no hospício são mais os malucos com ar de paus de virar tripas do que aqueles com ar de arredondado, daqueles que, com as mãozinhas, afagam a saliente barriga. Os que as afagam de baixo para cima são os banqueiros, os que as afagam de cima para baixo são os tansos.

Algumas más-línguas dizem que eu já sou um arredondado perfeito mas tal afirmação ainda não é verdadeira embora eu acredite que mais depressa cumprirei com todos os requisitos exigidos para tal do que o nosso governo com a promessa do défice nas contas públicas.

Dando como adquirido que lá chegarei em breve, informo que já escolhi a qual das duas categorias de arredondados eu quero pertencer: à dos banqueiros, obviamente!

Eu desejo, eu quero, eu aspiro a arredondar para cima. Se for para receber, bem entendido! Se for para pagar, saia uma desculpa com um arredondamento para baixo aqui para a mesa do canto, a vida está difícil, não posso dar mais e olhe, dê-se por muito contente por eu ainda lhe arredondar alguma coisinha. Contradição do caneco!

Aspirações contrárias às minhas, têm os mentirosos e os santinhos, indivíduos que dizem querer arredondar para baixo.

Se eu fosse um desses funcionários do hospício pagos para manter o indígena a afagar no sentido mais natural, de cima para baixo, além de vigiar bem os marmanjos da minha laia para evitar o género de abusos que eu sei que faria se me dessem rédea solta, prestaria também uma especial atenção aos mentirosos. Se os conseguisse distinguir dos santinhos.

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